Regresso da judofesta na Rua da Alegria

@ Judo Magazine | 30 junho 2020 | Testemunho do Clube de Judo do Porto para a Retoma em Análise.

O manjerico esteve à porta para anunciar simbolicamente um S.João que todos querem esquecer. Sente-se que faltou festa na Rua da Alegria na noite de 23 para 24. Mas o clube da Invicta não pára e a retoma progressiva de atividade já trouxe os sorrisos do reencontro nos finais do mês junho. Não parámos, afirmam orgulhosos do alto dos seus 55 anos de experiência. Os pais dos atletas mais novos agarraram-se ao WhatsApp e formaram grupos. Foram mestres assistentes e continuam a sê-lo apoiando as ações nos jardins e noutros espaços públicos. A mestria de todos só não chegou para resolver uma questão crítica: como explicar aos mais jovens que o judo também terá que ser “sem toque e em sombra”?

Judo Magazine | JM – Esta fase da retoma vem no seguimento de atividades realizadas anteriormente cujo objetivo foi manter o contato com os atletas. No essencial que tipo de atividades foram realizadas nas fases anteriores?

Clube de Judo do Porto | CJP – Quando encerrámos o Clube de Judo do Porto, para prevenção da propagação da Covid-19, vimo-nos forçados a adaptar os nossos treinos ao “online”.

Os treinos dos atletas mais novos, crianças até 12 anos, foram mantidos através do WhatsApp, onde se criou um grupo com os pais de todos os judocas, de forma a que se mantivessem ativos. Durante o período de confinamento foram enviados vídeos de técnicas de Judo que pudessem ser feitas em casa, bem como alguns exercícios e jogos que tinham de ser realizados por escrito e depois enviados à Mestre. Para já, e aproveitando o tempo quente, os treinos têm sido feitos ao ar livre, num parque perto do Clube. As crianças têm adorado e os pais também.

O mesmo se passou com os atletas de competição. O principal objetivo foi mantê-los ativos, assegurando o máximo possível os seus diferentes níveis de condição física. Para tal, eram-lhes enviadas diariamente orientações para treinos, também por WhatsApp, acompanhadas por vídeos a explicar cada exercício. Quando se iniciou o desconfinamento começámos a fazer um treino por semana num parque, nos mesmos moldes dos que eram realizados em casa, mas sempre com os devidos cuidados e com o distanciamento recomendado. Foi importante para os atletas voltarem a estar juntos depois de tanto tempo fechados em casa.

Os treinos dos jovens e adultos foram mantidos através do envio de vídeos com algumas técnicas de Judo que pudessem ser praticadas individualmente e em casa. Retomaram os treinos presenciais, apenas quando o Clube reabriu, seguindo todas as normas de segurança. O treino tem sido à base de preparação física com nenhum, ou quase nenhum, contacto.

JM – Como foi comunicada e acertada a base de funcionamento deste ciclo da retoma, passando do judo em casa para uma presença no dojo (sobretudo aos pais dos mais jovens)?

CJP – A data da reabertura do Clube e do retorno aos treinos foi comunicada a todos os nossos atletas. Esta comunicação foi acompanhada de uma informação sobre as medidas preventivas que iriam ser tomadas no Clube, desde a entrada até ao local do treino. Todos os atletas aceitaram as medidas e têm-nas seguido exemplarmente.

Os pais dos mais jovens também compreenderam as medidas e gostaram da iniciativa de, nesta fase, os treinos serem frealizados ao ar livre.

JM Como foi o reencontro, a chegada já equipados, a entrada no tapete…?

CJP – Como adiantámos na questão anterior, ainda não temos os nossos judoquinhas no tatami. Mantivemos a atividade online e completamos com treinos ao ar livre, respeitando a distância de segurança durante a aula e o uso de máscaras. Chegam todos já devidamente equipados, de forma a respeitar as exigências da Direção-Geral da Saúde. No primeiro treino foram visíveis a euforia e o entusiasmo deles e a alegria por voltarem a ver os amigos e por recomeçarem a treinar.

No regresso tão desejado ao Clube, foi visível na cara dos atletas a alegria de poderem voltar a estar uns com os outros, poderem vestir o judogi e entrar no tapete.

As saudades eram já muitas para todos. Mesmo que tenhamos voltado com limitações e restrições, foi bom sentirmos o tatami passado tantos meses.

JMQue tipo de atividades estão a ser desenvolvidas, para além de exercícios partilhados nos diversos clubes existem alguns que estejam a ser experimentados, de forma mais específica aí no clube?

CJP – As atividades praticadas com os mais novos no exterior têm sido um pouco de técnicas em sombra e preparação física, bem como alguns jogos com bolas, cones e cordas, de forma a poderem divertir-se e praticar o que mais gostam.

Os treinos dos jovens e adultos no Clube têm sido essencialmente preparação física, com um pouco de Judo: Ippon Seoi Nage e O-soto-gari sem parceiro. O nosso tatami foi “reestruturado”, tendo sido criadas 8 áreas de treino que cumprem o distanciamento de segurança entre atletas.

Já os treinos dos atletas de competição têm sido muito à base de preparação física e de melhoramento da técnica. De modo a contrariar a ausência de Ne-waza, temos feito diversos exercícios individuais de mobilidade no chão que, no futuro, lhes serão úteis para melhorarem o seu Ne-waza. Relativamente ao Nage-waza, tem sido praticado  Tandoku-renshu e têm sido trabalhadas várias situações em Uchi-komi, sempre com máscara.

JMOs grupos que estão constituídos farão atividades só no dojo ou terão que realizar ouros exercícios no exterior?

CJP – Em relação aos judocas mais novos, como já foi adiantado, estão a praticar Judo somente em casa – online – e presencialmente no exterior. Como são crianças, devemos manter todos os cuidados para os protegermos. Por isso, adaptamos o Judo e jogos no exterior, para que pratiquem exercício todos juntos, o que tem sido extremamente positivo. 

Os adultos treinaram unicamente no tatami, aquando da reabertura do Clube. Os atletas de competição começaram por treinar num parque antes de irem para o dojo. Mas agora já voltamos ao tatami onde concretizamos todos os treinos.

JMComo avalia esta situação? Dificuldades e potencialidades?

CJP – No geral, estamos todos ainda a adaptar-nos a esta nova realidade e a aprendermos como podemos inovar e o que fazer com os nossos atletas. Esta situação foi algo inesperado que criou muitas dificuldades no treino, mas que, como tudo, pode ser vista como uma oportunidade para melhorar diferentes aspetos técnicos e físicos mais difíceis de treinar numa situação normal.

Uma das dificuldades que encontrámos foi conseguir transmitir às crianças “sem toque e em sombra” as técnicas de Judo, apenas com equipamentos e não com os outros colegas de treino. Tornou-se mais difícil, mas não impossível. Temos ainda o randori, que acaba por não acontecer, mas que todos anseiam por ele.

Para os atletas de competição a ausência de atividades competitivas, que constituem a sua principal motivação, criou uma situação complicada. Temos tentado dar a volta com algumas competições internas. Por exemplo, ver quem faz o maior número de flexões, quem executa o maior número de Ippon-seoi-nage, entre muitas outras. Relativamente a potencialidades, tem sido possível trabalhar a flexibilidade com os atletas, uma vertente importante que é muitas vezes posta de parte. E, principalmente, trabalho de Tandoku-renshu de modo a corrigir a sua técnica e postura.

Não podemos dizer que é uma situação fácil porque não o é, mas temos que a aceitar e fazer para que os nossos atletas tirem o melhor partido dela possível. Acreditamos que tudo irá melhorar. Assim que isso acontecer, teremos mais sorrisos e satisfação; até lá, estamos todos juntos nesta luta!

© fotos CJP

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