@ Judo Magazine | 7 de julho 2020

Sabem o que é uma boa conversa? Tenho ideia que ela só o é, se houver na contenda gente interessada em ouvir os outros e em deitar achas para a fogueira quando os temas se tornam exigentes. No nosso encontro, que denominámos de Webinar da Bandeira porque os tempos assim o exigem, fizemos um percurso pelas histórias individuais de cada participante e entrámos em força nas práticas de ética desportiva no quadro do judo. A conversa foi boa, foi como as cerejas e ninguém puxou as brasas só para a sua sardinha.

Não fosse o José Lima, coordenador do Plano Nacional de Ética no Desporto (PNED), introduzir logo na fase inicial, referências ao sentido da vida e ao papel que os outros desempenham nas melhorias que cada um pode introduzir no seu portefólio de experiências e, o convite lançado pelo Joaquim de Portimão para realizarmos um jantar virtual teria dominado os propósitos dos 9 zoomeiros do webinar. O Renato alertou de imediato para os riscos deste tipo de programa digital que mete muita água na boca mas não proporciona verdadeira satisfação. E não tivemos outro remédio que regressar à ética e à bandeira.

O Mestre de karaté

O Nuno levou-nos até Aveiro. Fomos descobrir a periferia da cidade dos canais e dos moliceiros. E pudemos imaginar o trabalho de formiguinha, freguesia a freguesia, levado a efeito, dia após dia, para despertar os mais jovens e as escolas para a prática do judo.

E a persistência fez que o Nuno passasse, aos olhos dos alunos destas escolas periféricas, de aparente Mestre do Karaté a organizador do judo local. O fato era o mesmo, a modalidade nem por isso.

Os sons do Palácio

O Paulo relembrou-nos que o Bruno Rosa é que era o cabeça de cartaz e que, se fosse por ele, era o clube todo que vinha à conversa. Uma velha mania e sentido de complementaridade que eventualmente terá origem nos carrilhões de Mafra cujos 98 sinos, ou tocam juntos, ou não toca nenhum.

A receita para a hiperatividade

O João por sua vez levou-nos estrada fora, rua acima e rua abaixo, judogi debaixo do braço com o cinto branco a amarrar as pontas. Com 3 anos apenas, declaram-no hiperativo e lá ia ele para a iniciação ao judo. Na Marinha Grande, num tempo que cristal e vidro eram razão de ser de milhares de famílias operárias e que patrões fundavam escolas nas fábricas, o judo entrava peito adentro do futuro professor de educação física que abanaria o desporto escolar da localidade. Pelos vistos de pequenino se molda o pepino.

O sol seguro

O Algarve foi saudado com entusiasmo quando o Joaquim emergiu de Portimão. A conversa ia certamente aquecer. Mas as interrogações e a perplexidade eram maiores que as certezas. Porque raio as professoras perguntavam pelos métodos especiais utilizados para lidar com os miúdos se, o que se pratica no clube, é judo? No meio das dúvidas o único fator que parecia não suscitar interrogações era o fato da experiência na área dos seguros fornecer à liderança do projeto portimonense a segurança desejada.

O convite da atriz

O Renato apareceu-nos num cenário que globalmente sintetizava o tema do encontro: ao fundo, bem visível, um painel como se fosse uma construção de azulejos: bandeira da ética, Jigoro kano, Kiyoshi Kobayashi, Turma dos Judokinhas e SC Sintrense.

Mas a formalidade do cenário não influenciou a boa disposição e o sentido de humor do ex-atleta olímpico. Sabiam que o Paulo Nogueira quando começou a praticar judo morava por cima do clube que Bastos Nunes e o próprio Renato dinamizavam? Tinham ideia que Maria Barroso, a atriz, a resistente, a companheira de Mário Soares, foi a primeira diretora de um colégio a pedir que se organizasse um núcleo de judo no estabelecimento escolar? Bem, as pequenas histórias do judo narradas desta forma informal davam para serões de webinars.

O juízo partilhado

A Filipa teve a missão de pegar no tema de forma estruturada, Alguns dirão é normal já que seria a única a ter juízo. Podem crer que não é assim. Todos deram um contributo particularmente rico à reflexão produzida. Mas o vício das abordagens sistemáticas, que o trabalho académico da Filipa impõe, levou-nos a percorrer um sentido coerente de projeto e o significado de alguns modelos pedagógicos, que por sua vez seriam um excelente pretexto para outra conversa.

Encestar o judo

José Lima não debitou programas, planos, cláusulas, condições de admissão, critérios de avaliação de candidaturas, fez exatamente o oposto. Esteve com o judo, em pleno equilíbrio e considerou que o código moral nas artes marciais e nos desportes de combate constitui uma força muito significativa dessas modalidades. Colocou os clubes de judo nas alturas, talvez para os aproximar do basquetebol que também é particularmente ativo na Bandeira da Ética.

A arte de colocar a pessoa no centro dos processos foi evocada de forma filosófica e também prática e José Lima revelou que, parecendo paradoxal, a “venda da ética” como tarefa de valorização dos clubes que a praticam torna-se inevitável e desejável. Há muito para fazer e o exemplo do Estoril Praia está aí para ser analisado e potencialmente imitado.

Fã de Jorge

Teresa a jovem participante-surpresa nesta conversa trouxe a sua paixão pelo judo e relatou a experiência única de ter recebido das mãos do próprio Jorge Fonseca uma medalha que ele acabara de conquistar. Com a medalha cravada no peito Teresa, no meio da conversa, foi uma espécie de farol que irradiou luz e esperança.

O conteúdo concreto do WEBINAR foi registado e pode ser aqui consultado. E vale a pena ouvir este grupo de dinamizadores da ética no desporto que muito valorizam a modalidade que contribui para uma maior coesão na sociedade portuguesa.

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