CRÓNICA | Falem-lhes ao coração!

@JUDO magazine | JUDO Lab | 15 de agosto 2020

Por: Tiago Silva

Efeito placebo no desporto e a crença irracional

Reza a história que a primeira vez que Jorge Jesus reúne com as equipas com quem trabalha, na primeira palestra dirigida aos jogadores transmite-lhes a seguinte ideia “sabem quantos minutos passa em média um jogador com a bola no pé durante os 90 minutos de um jogo?» Por vezes há uma total ausência de respostas, mas é no meio do silêncio confrangedor de alguns jogadores que JJ rapidamente os informa da estatística «Dois minutos e meio. Dois minutos e meio! O meu trabalho aqui vai ser ensinar-vos o que devem fazer nos restantes oitenta e sete minutos e meio».

Mandela

É provável que, o mais recente treinador dos encarnados, se tenha apropriado da lição de Mandela

Não lhes falem ao cérebro, falem-lhes ao coração.

Muito para além do preciosismo da informação que está a ser passada, na verdade e tal como é tão característico do seu discurso, JJ numa simples mensagem de liderança demonstra ao seu novo grupo de trabalho pelo menos três coisas distintas:

  • a) que podem confiar nele;
  • (b) que cada um vai saber o seu papel dentro da equipa; e
  • (c) deixa subentendido que se o fizerem poderão vir a ser muitíssimo bem sucedidos.

Talvez tenhamos todos, para quem trabalha com pessoas e está numa posição de liderar um grupo, esta tentação inicial de lhes falar ao coração.

Modelo que apelidei de: Método Mark Twain

Tenho por hábito começar o trabalho com as equipas ou no início de cada ano lectivo com os meus alunos do Ensino Superior, com uma linguagem desta natureza. Há anos que o faço, numa apresentação cuidada em power point, tenho no primeiro slide a imagem do escritor norte-americano Mark Twain e interpelo a audiência

Quem é este senhor?

Opto intencionalmente pela palavra «senhor» ao invés da palavra escritor, com receio de poder sugestionar as suas respostas. Por vezes oiço um «Nem uma pista Prof.?» E é normalmente aí que mostro a segunda imagem que corresponde à sua personagem mais famosa, Tom Sawyer encostado a uma árvore a deliciar-se com uma maçã, enquanto admira a determinação de um colega seu, a pintar a cerca de madeira de sua Tia Polly. Mas já lá vamos! Para mais de metade da audiência (na sala de aula ou tapete de judo), a imagem é realmente familiar, mesmo para quem não leu o livro, teve seguramente contacto com Tom e Huck através do desenho animado ou BD. 

Tom Sayer

Esta abordagem é vista pelos alunos, quase sempre, como um primeiro contacto mais informal por parte do seu novo professor, mas para mim é talvez dos momentos mais marcantes do ano lectivo. Ao “exilarem” os primeiros sinais de angústia por estarem a ser postos à prova, aquele acto inaugural é acompanhado de um exercício de reflexão importante que me diz um pouco do caminho que eles pretendem seguir o resto do ano. Primeiro começo por mostrar as tais imagens e em seguida, por resumir o Capitulo II do livro As Aventuras de Tom Sawyer e o célebre castigo imposto por sua Tia Polly, obrigando Tom a pintar a cerca de madeira lá de casa.

A cerca de Tom

Em resumo, Tom tem de se levantar num sábado de manhã para uma tarefa absolutamente enfadonha. Sendo inclusive gozado por alguns amigos que vão passando ao pé dele e que querem naturalmente aproveitar o fim de semana para brincar, deixando-o cada vez mais irritado com o tamanho do desafio que tem em mãos: conseguir ter tempo para tudo. É então que, num rasgo de sabedoria, percebe que ao dizer aos seus colegas que não conseguirão pintar tão bem quanto ele, produz a reacção desejada por parte de todos os seus colegas:

«ah..não sou capaz? Dá cá o pincel».

Um atrás do outro, todos vão ajudando a pintar largos metros de cerca, até que em tempo recorde Tom tem a tarefa pronta, sendo um regalo para os olhos da Tia Polly que lhe dá um abraço do tamanho do mundo. O que Polly não sabe e nunca chegará a saber é que boa parte daquilo não foi trabalho de Tom. Quando acabo de descrever o capítulo II é precisamente quando volto a interpelar a audiência.

Força Manuel, diga!

Eu «o que é que o autor Mark Twain nos está a tentar transmitir com esta pequena história?» Por vezes tenho as respostas mais hilariantes do mundo por parte dos alunos, que naturalmente não posso descrever aqui.

  • Aluno X: – «Trabalho de equipa Prof. Tiago, é muito importante o trabalho de equipa». Respondo quase sempre,
  • Eu: – «sem dúvida e todos nós precisamos saber trabalhar em equipa. Mas querem aprofundar um pouco mais? Qual é a mensagem subliminar (risos) desta história?»

Passados vários minutos e os tais silêncios confrangedores de que falava no início do texto, sou surpreendido com a resposta que pretendo ouvir (ou pelo menos a assunção daquilo que está para lá do óbvio neste pequeno capítulo) e quase sempre do aluno mais calado e observador.

  • Aluno Y: -«Prof. Tiago, eu acho que sei a resposta!»
  • Eu: «Força Manuel, diga! (nome fictício)»
  • Aluno: «Creio que aquilo que o autor nos está a querer dizer: é que todos nós precisamos de ser desafiados. Pode ser exatamente a mesma tarefa, mas se tiver um simbolismo de trabalho, tarefa enfadonha, etc, a nossa motivação poderá ser quase nula. Se pelo contrário, nos disserem que não somos capazes – transfiguramo-nos, agigantamo-nos»
  • Eu: «Muito bem Manuel! Toda a gente ouviu a resposta do Manuel?»

Placebo no Desporto?

Tal como nos diria o autor norte americano, todos nós precisamos de ser desafiados, todos temos um gatilho, que se soubermos utilizar ou ser potenciado por alguém nos mobilizará para resultados inesperados. Porém é importante não simplificar demasiado as coisas. Esta história com um lado lúdico, esconde muitas vezes problemas mais complexos. Há pouco falava num optimismo irracional e normalmente a psicologia do desempenho ensina-nos, por exemplo, que cada desportista deve acreditar, tanto quanto possível que irá ganhar.

Ninguém deve alimentar a dúvida interior. Muito embora saibamos todos, que no final só um pode vencer.

Esta é muitas vezes a lógica da psicologia desportiva. Matthew Syed falava-nos precisamente deste paradoxo. “Note a diferença entre um cientista e um atleta. A dúvida faz parte das ferramentas de trabalho do cientista. O progresso faz-se concentrando-nos nas provas que refutam uma teoria melhorando-a. O cepticismo é o combustível do avanço científico.” Mas tal como nos mostra a realidade tratada por Syed,

no desporto a dúvida é como um veneno para o atleta, o “progresso alcança-se ignorando a dúvida.”  

George Mallory é bem capaz de ter sido o primeiro homem na Terra a escalar o Monte Everest. Oficialmente, não o foi. Sobretudo se considerarmos que a ascensão completa tem de ser seguida de um regresso seguro. Mas muitos especialistas acreditam (e há fortes indícios no terreno que o demonstram), que George poderá mesmo ter sido o primeiro homem na Terra alcançar os 8848m de montanha.

Porque, está lá!

Quando lhe perguntaram, antes da viagem porque raio queria tanto escalar o Monte Everest? Respondeu, com um simples: «porque está lá». Mallory encontrou o seu objectivo de vida, um desafio interior que o lançou para uma jornada que lhe custou a própria vida. O tal gatilho foi accionado e não soube mais como parar. Mas para se ser bem-sucedido não é só preciso tentar, porque muitas vezes os argumentos racionais demonstram-nos essa impossibilidade total de vitória. É o tal optimismo irracional de que Syed falava,

“porque para vencer temos de aumentar a nossa crença, não em proporção aos factos, mas a qualquer coisa que a mente possa utilizar com sucesso”.

Para ganhar temos de remover cirurgicamente a dúvida – a racional e irracional – da mente. E o autor vai mais longe quando nos diz que “é desse modo que o Placebo opera”.

É curioso ouvir o que o treinador francês de futebol, Arséne Wenger, tem a dizer sobre este assunto: “para que o seu desempenho seja o melhor, tem de se ensinar a acreditar com uma intensidade que vai para além das justificações lógicas. Nenhum executante de topo tem falta de optimismo irracional, nenhum desportista concretizou todo o seu potencial sem a capacidade de remover a dúvida da sua mente”.

Liderança

Em qualquer área da vida onde exista o papel de líder e de subordinado como no desporto, na política, na polícia ou no exército, essa capacidade de instalar a crença nos outros é uma função vital dessa mesma liderança. Muitos autores que se debruçam a estudar estas temáticas no universo de grandes desportistas, os do chamado percentil 90 (os que ganham muitas vezes e que estão constantemente no topo), chegaram a algumas conclusões importantes “ouça um atleta de topo falar nos momentos que antecedem um grande jogo e irá ouvir declarações que parecem sem sentido”. Esse “discurso não é dirigido à verdade, mas sim à sustentação de uma mentalidade especifica”.

Tiger Woods

Quando ouvimos o golfista Tiger Woods em entrevistas, muitos já se habituaram a uma certa estranheza no seu discurso, como nos conta Syed “é uma mentalidade que ele trabalhou com o seu pai, ao longo de muitos anos e que aperfeiçoou com o Psicólogo Jay Brunza”. Como o próprio Woods reconheceu recentemente

“eu jogava contra indivíduos que batiam a bola mais longe e que eram melhores jogadores do que eu. Achei que se não tinha os dons físicos, poderia desafia-los a um nível mental, ser mais forte e vencê-los com o pensamento”

Morris Pickens (Dr. Mo, como carinhosamente é tratado pelos seus clientes) um conhecido Psicólogo Desportivo por trabalhar com alguns dos grandes nomes do desporto norte americanos, diz-nos também o seguinte sobre Tiger Woods: – “ele é um testemunho vivo do poder da crença em si mesmo. Não acho que ele duvide de nada do que faz”. Importa referir que Woods é considerado o Golfista mais bem sucedido da história da modalidade, batendo todos os recordes de títulos conquistados antes dos 30 anos.

CR7 e Maradona

Mas é impossível não olhar para este exemplo do Golfista norte-americano e não nos lembrarmos também do padrão de abordagem do “nosso” CR7 em entrevistas “pré-match”. Essa suposta “artificialidade” de que Seyd nos fala é como que o representar de uma personagem, e são tão fiéis e crentes nela que todo o exercício da sua profissão parece estar ligado a essa parte de si. Como um novo (eu)

“nem sequer considerei a possibilidade de derrota, na minha cabeça vamos ganhar e nada mais me afastará desse facto”

Ou quando ouvimos a comovente declaração de Maradona a ser entrevistado com 10 anos num bairro pobre dos subúrbios de Buenos Aires a dizer:

“o meu sonho é ser campeão do mundo pela Argentina”

e lembrarmo-nos do que aconteceu em 1986 (Campeonato do Mundo do México), em que pura e simplesmente carregou a sua seleção “às costas”, tendo feito das exibições mais arrebatadoras da história do futebol. Olhamos para tudo isto e percebemos que esse optimismo irracional, lutando contra todas as probabilidades da vida de um miúdo no interior de um bairro complexo da América do Sul, foi parte do combustível que permitiu criar um cenário optimista que permitiu acreditar fervorosamente nesse futuro. Um pouco à imagem do que Norman Peale escreveu em 1952 «The power of positive thinking» e a área do «placebo do desempenho», a dúvida tem uma influência inibidora das nossas capacidades. E Timothy Gallwey explorou muitíssimo essas técnicas mentais que poderão ajudar o atleta a eliminar a dúvida.

Kelly Slater

E por falar em dúvida e de como ela pode e dever ser contrariada no desporto e nas suas várias dimensões, finalizo com uma pequena história que nos relembra e importância desta área da Psicologia do Desporto ou da Psicologia da Performance e de como ela compromete todas as nossas acções, muito mais do que possamos pensar à partida. O surfista Kelly Slater é daqueles desportistas que dispensa qualquer tipo de apresentações, para além de ser o único surfista do mundo que conquistou 11 títulos mundiais é um exemplo tremendo de longevidade. Kelly que teve uma ascensão meteórica, começou por ser campeão do mundo em 1992, batendo um recorde consecutivo de 6 títulos até ao ano de 1998. É aí que estranhamente interrompe a carreira, para os já chamados lost years, para grande espanto e consternação por parte do mundo do Surf. Recentemente declarou, que se não tivesse feito aquele hiato de dois anos sem competir a nível profissional, jamais teria regressado ao Surf Profissional.

Apesar de ter o mundo a seus pés, parou.

Sentiu-se completamente saturado. Quis desligar-se de tudo o que dissesse respeito ao universo da competição. Mas é aí que se dá um acontecimento curioso, que iria marcar para sempre a história do Surf com uma rivalidade histórica e a carreira de Kelly. Aparece um novo ídolo do Surf chamado – Andy Irons (Tri-campeão do mundo). O apelo para Kelly voltar, vem exatamente da necessidade de por o seu novo rival no seu lugar devido. Num discurso interno, em que parece ouvir Andy lhe gritar ao ouvido as palavras da canção de Chris Martin

“Listen as the crowd would sing. Now the old king is dead! Long live the king!”

Tal como referimos há pouco, esse foi o gatilho, o efeito Mark Twain que despertou em Kelly a vontade de provar que ainda era o melhor. O Surf mundial agradeceu por todos aqueles anos.

Autor

Tiago Silva Mestre no Ensino da educação física e desporto escolar pela Faculdade de Motricidade Humana. Doutorando da Faculdade de Motricidade Humana. Professor Assistente convidado do ISCPSI Professor Assistente Convidado da Faculdade de Motricidade Humana (Judo) Treinador de alto rendimento de Judo – grau III.

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