ALMA JUDOCA | O Picasso de judogi

JM | 09-09-2020 | Nuno Lopes abre uma nova janela na JUDO Magazine. Conhecer melhor o judo através dos seus judocas, das suas histórias e das suas vivências fora do dojo. Todos imaginamos o uchi-mata fulgurante no Nacional de equipas, a noite de Coimbra dormida no carro, o leilão de quadro para ir à Escócia. Nuno recorda-nos que os judocas têm a alma cheia de emoções e a pintura exprime-as de forma criativa. Porque, como nos diz Nuno, a pintura e o judo são ambas arte.

Por Nuno Lopes

O desafio foi lançado. Falar da minha pessoa enquanto judoca e artista pintor. Achei que poderia ser interessante, mas ao mesmo tempo difícil. Temos que ser justos na nossa autoavaliação e não nos deixarmos cair em tentações extremistas. Mas aqui, o Ying e Yang deve e foi aplicado na sua conta, peso e medida.

A pintura de Luz

Pratico Judo desde os meus dezasseis anos, portanto há trinta e nove anos. Já é algum tempo nesta roda da vida. Comecei em Alvalade com os Mestres Fernando Valadas e Carlos Luz. Depois continuei com o Mestre António Moraes do qual ainda sou discípulo. Curioso é o facto do Mestre Carlos Luz também se ter dedicado à pintura e de ser mais um assunto que nos une na nossa relação de amizade. O mais importante é que nos respeitamos muito e as nossas relações de entreajuda são baseadas numa Amizade pura e Sincera.

É realmente muito gratificante saber que os princípios morais do Judo são aplicados na nossa vida. Já caí muitas vezes e sempre me levantei e aqui lembro-me do ditado que costumamos ler por aí nas redes sociais “não importa as vezes que cais, mas as vezes que te levantas”. Fui competidor, mas condicionado pelo facto de ter começado tarde na modalidade e de ter ido estudar para a Escola Superior Agrária de Castelo Branco, o que comprometeu e limitou o meu percurso competitivo. O meio, como se sabe, condiciona o Homem. Mesmo assim, acho que fui feliz neste meu percurso e tenho algumas boas recordações que guardo na gaveta das Saudades.

No carro do Leopoldo

 Fui a um Nacional de Equipas ainda cinto amarelo, fiz um combate nos menos 65 kg e caí logo num Uchi- mata nos primeiros segundos. Nem vi de onde veio, mas a minha equipa, Clube de Judo de Lisboa, classificou-se em terceiro lugar. Fiquei muito orgulhoso desta nossa conquista. Tínhamos uma excelente equipa. Mais tarde, já em Castelo Branco, lembro-me de ter de ir para Coimbra para um zonal de seniores. Lá chegados, de véspera, tive que dormir no carro do Francisco Leopoldo, num parque de estacionamento, pois não tinha dinheiro para o luxo de ir para um hotel. Foi uma noite em que nada dormi e no dia a seguir aconteceu o zonal. No segundo combate contra-ataquei o meu adversário, mas deram-lhe a vantagem. Nem treinador tínhamos na cadeira e assim ficou. Mas nessa altura era assim, o que tínhamos que fazer era feito e sem medos. Doce juventude do que tudo pode.

Atualmente sou Treinador de Judo e já exerço esta profissão a tempo inteiro desde 2006/2007. O meu clube base e de referência é o Judo Colégio Santo André (CSA), na Venda do Pinheiro. Já estive noutros colégios e associações, mas a minha referência é e sempre será o CSA. Neste clube já formei alguns Campeões Nacionais, dos quais tenho muito orgulho pelo trabalho a que se propuseram a desenvolver sob a minha orientação. Se os atletas não quiserem, nem o melhor Treinador do Mundo consegue “fazer” Campeões.

Pintura em autoformação

Quanto à minha ocupação com o mundo da pintura começou bastante mais cedo, mas já lá vamos. Primeiro importa relacionar o Judo com a Pintura. Considero que ambas as atividades são Arte. Não são diretamente relacionáveis nem complementares. São o que poderemos considerar passatempos e gostos pessoais. No meu caso o judo passou a um plano mais importante da minha vida já que sou profissional desta Arte Suave. A pintura é um gosto que desenvolvi com o passar do tempo, com autoformação e muitas horas de prática, com muitas telas já acabadas e outras mais que virão. Considero-me um artista e mais convicto fico, ao ler a seguinte frase de Pablo Picasso

“O pintor é um homem que pinta o que vende. Pelo contrário, o artista é um homem que vende o que pinta.”.

Era muito novo, com cerca de seis ou sete anos, quando estive algumas vezes perto de um pintor a vê-lo trabalhar a óleo. Sei que ficava horas a observar o que fazia com aquelas cores vivas a que dava formas vívidas do que retratava e pintava. Não me lembro de muito mais, mas tenho   quase certeza que foi esse o momento mágico em que o bichinho da pintura se entranhou na minha pele. Na escola, na disciplina de Artes Visuais, sempre fui um aluno mediano. Só mais tarde, por volta de 1997/98 é que comecei a pintar algumas telas.

Comprei um curso da Salvat, que trazia também umas cassetes de VHS e que foram a minha base de aprendizagem e de iniciação às Belas Artes.  

Rifas para ir à Escócia

Num passado recente já fui com os meus atletas até à Escócia participar num estágio e Competição de judo, organizado pelo Sportif do meu amigo Peter Gardiner. Ora, os custos de uma participação são consideráveis. Tive então a ideia de rifar um quadro meu para angariar dinheiro, ação que teve bastante êxito. Numa outra ida, organizei novamente um sorteio para outro quadro e tive a colaboração dos meus alunos na venda de rifas, num sábado de manhã junto a uma superfície comercial, tendo esta sido para eles uma experiência diferente, que os levou a comunicar e a interagir com os outros.

Há telas que se pintam ao sabor das nossas emoções.

Certa noite, triste com a saída de um excelente atleta do meu dojo, peguei numa tela e expressei todo o meu sentir e estado de espírito. Esse quadro está na minha sala e é dos mais importantes para mim. O mesmo se passa quando, ansiosos ou nervosos com a azáfama e as contrariedades do nosso dia a dia, chega aquela hora em que vamos treinar e tudo fica bem, como se todo o suor do treino servisse de sauna espiritual, quase que uma purificação.

Ambas as artes que pratico fazem parte da minha essência e tenho prazer quando me dedico a cada uma delas.

Nuno Lopes

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