JUDOLab | Individualização e especificidade na práxis do Judo

JM | 11-09-2020 | Virgílio Silva, que vem reforçar as temáticas de investigação-ação do JUDOLab da JUDO Magazine, não se fica pela reafirmação genérica da importância da individualização e da dinamização de abordagens específicas na orientação do treino de judo e no apoio aos praticantes na concretização dos seus objetivos. Convida-nos para um percurso de aprofundamento e de reflexão que passa por diversos temas críticos do desenvolvimento da modalidade e adianta-nos, na reta final, um conjunto de sugestões para o futuro.

Os princípios do treino desportivo são apresentados a quem atravessa as várias e diversas cadeiras de uma Faculdade na área das Ciências do Desporto. Aonde, mais do que meros técnicos que executam, formam-se profissionais que pensam criticamente sobre aquilo que se executa. Entre o conjunto desses princípios norteadores do processo de treino encontram-se a individualidade e a especificidade. Ora acedendo com gosto a esses dois tópicos da sugestão e gentil convite endereçados pela Judo Magazine, neste ensaio reflexivo e original elaboro em relação ao entendimento panorâmico e imbricado que detenho sobre a relevância da individualização e da especificidade na práxis do Judo. Procurando, em simultâneo, um nexo de articulação à realidade envolvente compreendida na sua amplitude diversa, desde logo tanto formativa como conducente e referente ao alto rendimento. Porém não evitando alguma, pouca, dispersão (aos tópicos indicados) em ramificações lógicas de pensamento devido à pertinência que lhes confiro.

Motivação (“de dentro para fora”), individualização da prática e adesão a longo prazo

A premissa na base da individualização do processo de treino desportivo é a de que somos todos iguais nas diferenças. E, acrescento, todos diferentes nas circunstâncias. Evidentemente, o que serve para a criança, não serve para o jovem. O que serve para o introvertido e focado não serve para o extrovertido e disperso. O que serve para o campeão Olímpico, não serve para o campeão regional. E o que serve para o adolescente socialmente privilegiado e abastado não serve para aqueloutro de proveniência sócio-económica menos favorecida que poderá até esperar no desporto um bote de salvação.

Individualizar os conteúdos do Judo, desde logo os técnico-tácticos, seja no ensino seja no treino, deve portanto entender-se não só (e mais obviamente) como um princípio facilitador, quiçá optimizador, das possibilidades de desempenho de cada desportista como também (e mais subtilmente) enquanto uma estratégia vital à motivação de cada qual e de todos os judocas que compõem dada turma ou grupo. Isto porque a nivelação quase que perfeitamente ajustada, a cada praticante, do grau de desafio de uma dada tarefa influencia o menor ou maior comprometimento que cada qual manifesta perante a mesma. Ou seja, tanto algo muito fácil e já conhecido como algo demasiado difícil e totalmente desconhecido são especialmente susceptíveis de gerar desmotivação nos praticantes. Nesse sentido, atingir a dose certa de desafio depende, em parte, da comunicação enquanto via aberta e franca de dois sentidos, entre quem ensina (ou treina) e quem aprende (ou é treinado). A final e independentemente de aspectos críticos, o fundamental é que ambos estejam do lado das soluções.

Para que melhor se perceba, ao professor ou treinador importa dessa forma saber cuidar da motivação pessoal que é descrita, por académicos, como uma espécie de energia que varia no tempo em direcção, em intensidade e em consistência no rumo do sujeito à consecução de determinado objectivo e que, em última análise, determina em certa medida quer o sucesso quer a adesão dos praticantes no longo prazo. E alimentando, de preferência, uma motivação – nomeadamente, a intrínseca – que se sustente sobretudo na essência e na especificidade da modalidade desportiva praticada. Por exemplo extremo, ter uma arma de fogo apontada à cabeça também motiva qualquer um a fazer o que é pedido pelo portador da arma, mas trata-se de uma fonte de motivação extrínseca de todo indesejável. Pelo contrário e simplificando, pretende-se no praticante uma motivação na linha do famigerado lema “quem corre por gosto, não cansa”. Isto é, quem não vem a retirar satisfação da natureza ora de eficiência técnica ora de proximidade, contacto, impacto e disputa corpo a corpo característica da luta de Judo deverá enveredar por outro desporto ou, no mínimo, por outra vertente dentro do próprio Judo que não a competição pura e dura, passe a expressão.

O papel central da táctica na especificidade da prática

Se intuitivamente faz sentido que um aspirante a pianista de excelência precise de tocar piano muito e bem, também um candidato a grande judoca precisará de praticar muito e bom Judo. No caso da especificidade, a premissa é que sendo a prestação em competição (ou noutra situação de teste) um reflexo da preparação espera-se que esta (a preparação) aproxime-se o mais possível das exigências competitivas. Por absurdo, na senda de um grande momento avaliativo, não se espera que o pianista se prepare com aulas de Judo nem que o judoca se prepare com aulas de Piano. Para o judoca, o específico são obviamente os concernentes conteúdos técnico-tácticos e estratégicos. Se sobre estes não se dispuser de conhecimento extenso e profundo, não haverá prática deliberada de dez mil horas nem formação multilateral e multidesportiva nem processo algum de detecção e desenvolvimento de talentos que valham. Pelo que nem mesmo se espera que o judoca se prepare de forma desligada das exigências tácticas ou decisionais da modalidade. Mas o facto é que no Judo essa preparação inespecífica – menos óbvia para os que desconhecem a base lógica de modelos de treino como a Periodização Táctica – ainda vai acontecendo na actualidade. Efectivamente, num piscar de olhos uma luta pode terminar, devido a uma má decisão. O que faz do Judo um desporto em que a técnica existe ao serviço da táctica e não apenas por si só ou descontextualizadamente, ou seja, o recurso técnico existe para resolver problemas ou situações táctico-técnicas que o adversário apresenta e por referência a dado contexto estratégico da luta. Por conseguinte, num uchi-komi de o-soto-gari, por exemplo, o treino específico não se evidencia tanto na repetição perante um parceiro imóvel, sem lateralidade definida, de mãos quase só pousadas sobre o judogi e até colaborante, mas sobretudo diante de um parceiro assumindo determinada postura, lateralidade, kumi-kata e deslocamento. E evidencia-se mais ainda, a título de exemplo, se se transformando, para o mesmo conteúdo técnico, uma tarefa de uchi-komi em kakari-geiko, porquanto tal alteração de método corresponde a incluir na tarefa a essência decisional da luta. Na mesma linha de raciocínio, percebe-se também, noutro exemplo, que uma qualquer tarefa que seja iniciada sem disputa por kumi-kata é pobre em especificidade, se comparada a outra que contemple tal disputa incontornável na essência da luta de Judo. Estabelece-se pois que o princípio da especificidade visa aproximar as condições de prática ou de treino daquelas com que o praticante se defronta nos momentos avaliativos, de teste ou de competição, necessariamente com vista (também no caso deste princípio) à optimização do desempenho. Mas atenção que tal não constitui apologia ao específico em detrimento do treino inespecífico ou geral. Existe, em contraste, no planeamento e na programação das tarefas de prática ou de treino uma lógica de complementaridade entre estes aparentes antagonistas, que se diferenciam pela maior ou menor variação compreendida em toda a amplitude do continuum de especificidade.

Pelo atrás explanado, permitam-me evitar más interpretações, sobretudo, no seio do meio subcultural do alto rendimento. Com efeito, atribuir à dimensão táctico-técnica (e estratégica) um papel central ou coordenador do processo não implica subvalorizar as demais dimensões do rendimento desportivo, nomeadamente, nem a física/fisiológica nem a mental ou psicológica. Senão apenas propor que o desenvolvimento destas surja na sequência lógica ou até por arrasto às demandas específicas da dimensão táctico-técnica (e estratégica) do Judo. O que aliás, bem vistas as coisas, segue em certo sentido na linha de pensamento preconizada pelo fundador do Judo, o MestreJigoro Kano (1860-1938), o qual, partindo do princípio do JuJutsu “derrotar a força através da flexibilidade”, formou uma perspectiva filosófica exigindo o máximo uso eficiente da energia física e mental (a par do desejo de melhorar a sociedade). Basicamente, parte-se do Judo propriamente dito para o desenvolvimento das demais dimensões do rendimento competitivo.

Um processo individual e específico que se inicia em criança

Interessantemente, um possível desagrado pelo Judo logo percebe-se na infância, se a essência e a especificidade características à luta de Judo forem respeitadas na iniciação; que evidentemente se pretende multilateral, mas não inespecífica à modalidade. Aceita-se ademais que às crianças importa transmitir-lhes o que elas tanto precisam (disciplina – dirão os Pais) e do modo que elas mais gostam (brincando – dirão as próprias). Isto é, a missão do professor na iniciação e formação desportivas consiste em demonstrar-lhes, pela prática do Judo, uma moralidade socialmente valorizada na vida cívica, usando ao mesmo tempo a dimensão lúdica do jogo como atractivo que lhes vai incutindo o gosto pela modalidade. O que nesta fase significa, em jeito de regra geral, nem exacerbar nem ignorar a dimensão competitiva em sentido não formal ou não oficial. O objectivo é como tal priorizar experiências positivas, já que para uns poucos vencerem muitos mais terão que ser os derrotados. Quem ansiar pela vivência de experiências negativas lembre-se que haverá muito tempo, mais à frente, na vertente de competição desportiva Olímpica do Judo (sofrendo, por exemplo, com a dor física e emocional das lesões ou da rejeição de água e alimento para perder peso corporal). Não obstante, a favor da diversão inerente ao lúdico não desvirtuemos a nossa prática, em apetecível, mas fatal exercício de subjugação à lógica mercantil dos tempos actuais. No limite, quando alguém assiste a uma aula, digamos, de “Baby Judo” (3-5 anos de idade), não a pode confundir com Educação Física nem com uma aula só de brincadeiras ou joguinhos. Senão, a figura do próprio professor de Judo corre o risco de tornar-se desnecessária. Afinal, queremos desde tenra idade desenvolver nas crianças, ainda que de forma adaptada à faixa etária e progressiva, o gosto pelo Judo enquanto desporto de luta corpo a corpo. Isto é no meu entender algo absolutamente inegociável. Não fazendo portanto dos candidatos a judocas apenas e só clientes que importa preservar a qualquer custo. Em suma, tudo isto para concluir que o Judo, ou seja, a especificidade deve estar presente desde os primeiros passos do principiante. E que, no caso das crianças, a individualização passa, desde logo, por compreender e aceitar que a brincadeira as move. Sabendo todavia que isto não significa uma aproximação às necessidades das crianças sem um padrão relativamente elevado de exigência nos conteúdos de Judo que se lhes ensina. Faço o sublinhado, pois já vi crianças em contexto de aula derrubando o seu parceiro, por meio de o-uchi-gari ou ko-uchi-gari, para o lado ou até para a frente ou, pior do que isso, a “tocarem” repetidamente com a cabeça contra o tatami na execução de ushiro-ukemi. Ora, escusado seria dizer, não considero aceitável falta de exigência (para usar de eufemismo).

Sucesso na adolescência percebido em sentido lato

Já se nos reportarmos aos adolescentes, atravessando estes um período de vida em que os grupos de amigos vão ganhando peso em relação à influência dos Pais, é fundamental identificar se nas fontes de motivação, além da socialização, emerge genuinamente a atracção pela competição formal. Cientes, em qualquer dos casos, que o Judo não se esgota no shiai e que o sucesso desportivo não se define apenas através de conquistas estritamente competitivas; aliás, como alguém diria, “um pódio só tem três lugares” (quatro, no Judo). Pelo que só com tal tipo de compreensão motivacional, esmiuçada caso a caso, se poderá enquadrar cada praticante num processo de progressão desportiva individualizado e específico.

Além do mais, incluindo no referido processo a reflexão pós-evento tão importante no auto-aperfeiçoamento, mas que me pareceu e continua a parecer tão descaradamente negligenciada na práxis de professores e treinadores (e até de outros agentes desportivos). Simplesmente, não se pode perder (nem ganhar) disputas sem saber como nem porquê. Na certeza que a análise crítica conducente ao auto-conhecimento constitui um ponto de partida fulcral para o desenvolvimento continuado da competência individual.

A Didáctica e a Psicologia a fundamentarem o treino desportivo individualizado e específico

Durante uma sessão de grupo, é menos exigente, perante as inevitáveis diferenças inter-individuais, aplicar os mesmos conteúdos a todos os judocas. Já que individualizar a prática de forma sistematizada e coerente exige, além de um extenso conhecimento específico sobre o Judo, também uma formação sobre o seu ensino (que infelizmente não está ao alcance de todos os técnicos), designadamente, no domínio da Didáctica do Desporto particularizada à modalidade. Dito por poucas palavras, não só “o que ensinar” distingue-se do “como ensinar” assim como o “saber fazer” distingue-se do “saber ensinar”. Na medida em que individualizar o dito processo de progressão desportiva que, no essencial, ocorre de forma emparelhada implica sobre a matéria específica dominar variáveis de evolução para tarefas de ensino, manipulando-as em dificuldade, em complexidade, segundo fases da luta e/ou por temas táctico-técnicos e estratégicos, gerindo logicamente a essência decisional (táctica) da luta e sem empobrecer reiteradamente em especificidade situacional. Por isso mesmo, é também mais confortável a um professor ou treinador ensinar ou transmitir a todos os judocas de um grupo o seu próprio tokui-waza e nas situações tácticas que lhe são familiares, em vez de tentar considerar individualmente cada sujeito de uma turma, no respeito pelas suas preferências pessoais e aptidões particulares em termos físicos, fisiológicos e psicológicos. O que se concretizado mais não seria do que, no fundo, orientar o praticante para a construção personalizada de uma forma particular de lutar (percebi essa sistematização, a começo, 2006, com um treinador Galego); e estando esta necessariamente subjugada a princípios tácticos, quais regras gerais de acção ofensiva e defensiva. Tal construção lógica e organizadamente sistematizada da forma de lutar deve, a meu ver, alicerçar inclusivamente um plano de carreira desportiva, independentemente de eventuais aspirações futuras relativas ao grau de rendimento competitivo vindouro; porque – lembrem-se – podemos definir sucesso através de cultura desportiva e de competência em sentido não estritamente competitivo. Noutra perspectiva, de índole menos técnica e sobretudo mais humana, individualizar é além do mais e indubitavelmente uma questão de respeito pelo desportista que é confiado às mãos de professores e treinadores.

Contudo, uma visão panorâmica ou integrada acerca da progressão desportiva exige na actualidade profissionais, noutros tempos os Mestres, não só com sensibilidade humana bem como com formação de níveis superiores. Até porque à medida que o judoca cresce e matura num mundo cada vez mais globalizado e competitivo, também o seu pensamento crítico se desenvolve, ao ponto de poder questionar o porquê de todos os companheiros de treino estarem a praticar a mesma técnica ou tarefa. Emerge mais uma vez o papel não negligenciável da Psicologia, designadamente, através da competência e da autonomia enquanto reguladoras do próprio comportamento. Com efeito, um praticante que se vá percepcionando incompetente, desportivamente falando, e sentindo, amiúde, condicionado a praticar conteúdos de Judo apresentados pelo professor ou treinador tenderá, no decurso do tempo, a evidenciar um comportamento cada vez menos regulado “de dentro para fora”. Défice de motivação intrínseca, esse, que sendo contrário à satisfação dos praticantes (mais ainda num contexto de desporto amador como aquele que, salvo raras excepções, caracteriza o Judo) pode até ditar desistências, caso a qualidade da socialização não compense as insuficiências ao nível da competência e da autonomia desportivas percebidas. Dito por outras palavras, um adolescente ou jovem poderá desistir se porventura concluir: “Não sou bom, pouco ou nada faço do que quero e nem me sinto bem recebido ou incluído junto destas pessoas”.

Considerações finais e sugestões para o futuro

Eu sou eu e a minha circunstância. O que significa que se não a salvo a ela (à circunstância), também não me salvo a mim. Por conseguinte, o respeito pela individualização materializa-se tendo justamente por referência a riqueza contextual (especificidade, incluída) em que se desenvolve a prática e aperfeiçoamento do Judo. Se privado de bom Judo, nenhum judoca poderá desenvolver na plenitude o seu potencial. Infelizmente, tal riqueza (do contexto de prática) varia de modo gritante em território nacional (talvez por razões históricas, mas não só, de implementação do Judo no país). Já que, uma vez controlada a variável geográfica “local de prática”, verifica-se empiricamente que, em função da mesma, uns sabem mais sobre a especificidade do Judo do que outros. Não admira por isso que os melhores competidores surjam precisamente dos locais de onde emergiram a Telma Monteiro e o Jorge Fonseca assim como tantos outros bons representantes Portugueses que os antecederam. Tanto que eu próprio – em contraste, formado judoca no Porto – vi o meu entendimento sobre a especificidade da luta de Judo mudar substancial e radicalmente somente após o fim do meu percurso competitivo, quando por sorte tive o privilégio de frequentar duas acções, em particular, de formação para treinadores. Uma organizada pela Federação Portuguesa de Judo e superiormente ministrada pelo Michel Almeida (29/11/2014) e a outra organizada pela Associação Distrital de Judo de Leiria e ministrada de forma magistral pelo Go Tsunoda (21 e 22/05/2016). Ao fim de mais de 20 anos a praticar Judo, porquê tamanho impacto, por duas individualidades, sobre a minha compreensão da modalidade?! – perguntarão. Só porque eu treinava Judo no Porto? Não tenho dúvidas, disso.

Por outro lado, com o avanço do Ensino Superior no domínio das Ciências do Desporto, actualmente a optimização da riqueza contextual atrás referida (que sustenta ambos os princípios, individualização e especificidade) implica novos e diversos conhecimentos que escapam à figura antiga do Mestre ou, melhor, de técnicos sem a formação o mais actual possível. Conhecimentos como por exemplo os que aplico atrás relativamente ao papel central da táctica no treino específico ou, ainda, no último raciocínio do ponto anterior em que sustento-me na teoria da auto-determinação, por forma a dar a entender o modo como a individualização pode motivar os praticantes, ao alimentar-lhes a competência e a autonomia. Curiosamente, tais conhecimentos, no âmbito ora da Teoria e Metodologia do Treino Desportivo ora da Psicologia do Desporto, poder-me-iam perfeitamente ter sido transmitidos em cursos de treinadores ou nas várias acções de formação que enquanto agente desportivo do Judo já frequentei no decurso dos anos. Mas não foram. Recordo-me até de formadores cujo timbre era – pasmem-se – um paradoxal “não venho cá para vos ensinar nada”. Ou de outros prelectores que repetiam conceitos académicos avançados e desconhecidos (para muitos dos formandos) sem os explicarem. Já para não falar das monografias, dissertações e teses académicas produzidas sobre o Judo de norte a sul do país que, incompreensivelmente, não chegam em formato algum por qualquer via institucional ao conhecimento da comunidade do Judo nacional. Neste contexto, creio que claramente podemos e temos que ser melhores.

No final do dia, o motivo de orgulho e grandeza colectivos seria que as Telmas e os Jorges ainda não descobertos por esse Portugal fora, mas muito possivelmente dispersos um pouco por todo o território pudessem, em igualdade de oportunidades e no respeito pelas suas diferenças individuais, crescer e desenvolver-se desportivamente num contexto de prática do Judo rico em especificidade e, consequentemente, mais condizente com a excelência. Porque do mesmo modo que uns precisam de um piano à frente, senão serão comuns mortais, outros precisam de ser apresentados ao bom Judo, senão serão, fatalmente e sem disso terem culpa, fracos judocas. Nesse desiderato, haja a coragem dos diferentes responsáveis nacionais e locais para desenvolver organizada, estratégica e colectivamente – não cada qual por si – o Judo em todo o território Português. Pois há condicionalismos, como o desenvolvimento territorialmente concentrado e assimétrico de um desporto, que mais dinheiro e/ou mais recursos por si só não resolvem. Basta que trabalhemos melhor, com melhor organização e gestão desportiva. E, evidentemente, com melhor conhecimento específico do Judo (em extensão e em profundidade) por parte de professores e treinadores, independentemente do seu local de prática. Para que ninguém demore, como eu demorei, mais de 20 anos até finalmente serem-lhe ensinados fundamentos técnicos e tácticos absolutamente vitais sobre kumi-kata, tai-sabaki, shizei e shintai.

Do Autor: Virgílio Silva é praticante de Judo desde 1990, 4.º dan, exerce como professor/treinador desde 2013 e foi competidor entre 1999-2013. Licenciado pré-Bolonha, mestre e doutor pela Universidade do Porto, Faculdade de Desporto. – E-mail: virgiliomssilva@gmail.com

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