CRÓNICA |Modelos de Desenvolvimento do Atleta a Longo Prazo

JM | 14-09-2020 | | Tiago Silva aborda nesta terceira parte da sua reflexão os modelos de desenvolvimento do atleta a longo prazo.

Relembramos que estamos a divulgar o conjunto dos temas abordados na crónica em 4 partes e no final divulgaremos o texto integral no espaço JUDO Magazine Lab:

10.000 hours-rule e Modelos de Desenvolvimento do Judoca a Longo Prazo – mitos e crenças!

  • 1- Enquadramento e especialização precoce
  • 2 – The 10,000-hours rule ou o duvidoso número mágico para ser perito
  • 3 – Modelos de Desenvolvimento do Atleta a Longo Prazo
  • 4 – Especialização num desporto, quando começar?

Por: Tiago Silva

Modelos de Desenvolvimento do Atleta a Longo Prazo (3)

Muito agente do Judo nacional, independentemente do grau de Treinador, defende que a presença de um Modelo de Desenvolvimento do Judoca a Longo Prazo, permitiria aos treinadores, se calhar muito mais do que determinados clinics (que são muito importantes), monitorizar melhor o dia-a-dia do seu trabalho.

Em que fases devo fazer e o que fazer. Aliás exatamente como nos contam Joel S. Benner (2016), o Long-term athlete development (LTAD). Começou no início dos anos 90 nos Estados Unidos, Canadá e outros países industrializados, e, foi criado com o propósito de contrariar a especialização precoce que existia em muitos desportos, oferecendo uma estrutura pensada para desenvolver a literacia motora e atletas de Elite. O autor fundamenta, que independentemente do (LTAD) dar muita informação sobre (Agilidade, Equilíbrio, Coordenação e velocidade, bem como de outras qualidades físicas), no entanto, aponta uma fragilidade – o facto de serem baseados em evidências e abordagens mais experimentais e empíricas, e não em planos individuais (Ford P, De Ste Croix, 2011. citado por Joel S. Benner, 2016).

Fases do ITAD

Se avaliarmos bem todas as fases/estágios do LTAD, quer no Judo, quer em outras modalidades apercebemo-nos que todos eles têm em comum:

  • 1. FUNdamental (6 to 10 year-olds),
  • 2. Training to Train (10 to 14 year-olds), 
  • 3. Training to Compete (14 to 18 year-olds),
  • 4. Training to win (+ to 17,18 year-olds), 
  •  5. Retirement/Retraining (quando deixa de competir).

Cada fase, está dividida em Objectivos Gerais e Objectivos Especificos, as Idades de Treinabilidade, diferenças de género em função dos saltos pré-pubertário e Pós-pubertário, o que treinar (basics skills, specific skills), quando treinar, como treinar (percentagem da componente lúdica, jogos, etc e, componente especifica), bem como a atividade: as recomendações de quantas horas por semana deve treinar, em função da fase em que a criança ou o jovem praticante se encontra, bem como o número de competições por ano.

Virtude ou fragilidade?

Agora aquilo que poderá ser a sua virtude, também pode ser apontado por diversos autores como a sua fragilidade. Quando o LTPD sugere, que o atleta deve trabalhar um determinado skill durante uma determinada janela de crescimento ou treinabilidade, percebemos exatamente a pertinência do que nos está a ser dito, mas a pergunta impõe-se naturalmente:

se assim fosse, onde encaixaríamos as Telmas e os Jorges que aos 12 e 13 anos andavam a fazer outras coisas?

Faulkner R. A (2006) diz-nos que o que tem menos consistência, tem que ver com o defender que se uma criança não treinar como o recomendado numa determinada janela de crescimento, o seu real potencial poderá estar para sempre comprometido. Como vimos pelo exemplo anterior muitos casos de atletas, de muitas modalidades, tal como invocado no início deste artigo parecem demonstrar precisamente que esta visão é demasiado simplista.

O argumento do Background desportivo

Existem ainda modelos mais conservadores como o Developmental Model of Sport Participation de (Côté J. Lidor, 2009), em que basicamente defendem que pode haver dois tipos de caminho com estes modelos, um caminho em que inicialmente se propõe à criança a diversificação, ou um caminho em que a criança começa por se especializar numa fase muito inicial da sua vida num desporto (e uma vez mais sublinhamos, não confundir com o “fenómeno” de especialização precoce).

Segundo os mesmos autores os benefícios de uma diversidade e um vasto leque de experiências motoras, como comportamentais, sociais, etc, permitirão ao atleta numa fase mais adiantada, ter mais facilidade em se especializar num desporto.  

Timing da especialização

Parece haver algum consenso na literatura da especialidade, de que as especializações num Desporto, em geral, direcionam o indivíduo para o sucesso desportivo (em alto rendimento), mas os timings ideais para essa especialização só agora começam a ser conhecidos (Malina R.M, 2010. citado por Joel S. Benner, 2016).

A autora demonstrou no seu estudo, que os atletas da NCAA (Divison 1) são sobretudo provenientes de um passado desportivo em que praticaram, diversos desportos na adolescência e que o seu primeiro desporto organizado e de carácter formal, já não é o actual.

Muitos exemplos existem de atletas profissionais que aprenderam habilidades motoras que ultrapassam claramente o exigido nas suas modalidades.

Ele dá o exemplo da National Football League Scouting Combine (2015), em que foram sondados 322 atletas, dos quais 87% tinham praticado variadíssimos desportos na adolescência e apenas 13% – sempre tinham jogado futebol. Alguns estudos revelam ainda que, na grande maioria dos desportos, a especialização mais tardia com um prematuro leque de diversificação direciona melhor os atletas para um patamar de Elite. Pelo contrário, atletas que começam muito cedo com nível muito específico de treino num desporto – têm carreiras mais curtas (Côté J. Lidor, 2009. citado por Joel S. Benner, 2016).  

Autor

Tiago Silva Mestre no Ensino da educação física e desporto escolar pela Faculdade de Motricidade Humana. Doutorando da Faculdade de Motricidade Humana. Professor Assistente convidado do ISCPSI Professor Assistente Convidado da Faculdade de Motricidade Humana (Judo) Treinador de alto rendimento de Judo – grau III.

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