CRÓNICA |Especialização num desporto, quando começar?

JM | 14-09-2020 | | Tiago Silva aborda nesta quarta parte da sua reflexão sobre os modelos de desenvolvimento do atleta a longo prazo o tema da especialização.

Relembramos que estamos a divulgar o conjunto dos temas abordados na crónica em 4 partes e no final divulgaremos o texto integral no espaço JUDO Magazine Lab:

10.000 hours-rule e Modelos de Desenvolvimento do Judoca a Longo Prazo – mitos e crenças!

  • 1- Enquadramento e especialização precoce
  • 2 – The 10,000-hours rule ou o duvidoso número mágico para ser perito
  • 3 – Modelos de Desenvolvimento do Atleta a Longo Prazo
  • 4 – Especialização num desporto, quando começar?

Por: Tiago Silva

Então, quando é que será seguro começar a especialização num desporto?

Uma vez mais (Ford P, De Ste Croix, 2011. citado por Joel S. Benner, 2016), nos suas recentes investigações parecem indicar que começar a especialização num desporto depois da puberdade (por volta dos 15, 16 anos), minimizam os riscos de abandono e serão o melhor caminho para se atingir o sucesso. Tal como indica a investigação de (Malina, R. M. 2010. citado por Joel S. Benner, 2016), apenas 0,3% dos atletas alemães de desportos Olímpicos (selecionáveis), eram atletas internacionais nos escalões de formação. A grande parte deles, fez a especialização no desporto que fazem atualmente a grande nível, tarde na vida. 

 Muito embora muitos destes dados pareçam convergir na evidência de que para se ser um desportista de elite num desporto, não é necessariamente verdade que se tenha de começar a sua prática muito cedo, também não deixa de ser real a preocupação que alguns autores têm de justificar que isso não é uma realidade comum em todos os desportos, ou seja, muitos dos desportos mais populares do mundo obrigam a um inicio muito precoce – como parece ser o caso da Ginástica Artística e a Patinagem.  Segundo (Coakley J, Sheridan., 2015. citado por Joel S. Benner, 2016), desportos como a Patinagem, Ginástica, Mergulho, Ginástica Rítmica, requerem uma especialização prematura na vida do desportista, sob o risco dele não atingir o seu real potencial. Isto justifica-se porque pelas características próprias das modalidades, o pico da performance ocorre antes da maturação total do indivíduo – veja-se por exemplo a morfologia e a idade dos praticantes da Ginástica Artística. Há contudo a perceção, ainda que empiricamente falando, de que os ginastas naturalmente sofrem alterações hormonais e que por exemplo nas senhoras, poderá atrasar o aparecimento da menarca em função da natureza daquilo que é a altura das ginastas. Será mesmo assim?

Idade cronológica e idade biológica

Importa sublinhar também o que a Comissão da NSCA viria a tornar pública a posição sobre estes programas/modelos de Desenvolvimento a Longo prazo, respeitando o jovem na sua multiplicidade de factores. Segundo (Malin RM, 2006. citado por Rhodri S. Lloyd, 2012 et al), existe uma grande variabilidade no desenvolvimento físico nas crianças da mesma idade, a diferenças maturacionais muito vincadas em crianças com a mesma idade cronológica, uma vez que a idade biológica não é a mesma. Por isso mesmo, os autores deste artigo sublinham e a nosso ver bem, que uma vez que há grandes incongruências no desenvolvimento no que aos jovens diz respeito, a forma como eles respondem ao exercício e recuperam dele, também terá necessariamente que ser diferente.

Os autores, sublinham também os aspectos relacionados com o Efeito da Actividade Física e o Desporto no Desenvolvimento e Crescimento dos Jovens, (Faigenbaum, A. D & Myer, G. D, 2012. citado por Rhodri S. Lloyd, 2012),

há uma relação positiva entre o desenvolvimento das habilidades motoras e as competências físicas durante a infância e adolescência.

Invocam ainda o medo que normalmente existe associado aos efeitos de uma atividade intensa como a ginástica, em relação aos atrasos no crescimento. Os mesmos autores sublinham, que as evidências indicam que o treino bem direcionado, não afecta o desenvolvimento das características sexuais secundárias, não atrasa o aparecimento da menarca e não atrofia o crescimento.

Défices de força

Os autores sublinham ainda que, durante a sua pesquisa aperceberam-se que apesar de todo o impacto que tem uma carga de treino, existem variadíssimos níveis que separam o conhecimento que alguns treinadores que trabalham com jovens, têm sobre a aplicação deste Long-Term. Os autores, invocam uma pesada bibliografia que analisa que existe uma grande concentração de jovens, que está acima do peso recomendado, que tem défices acentuados de força, alguns completamente inactivos, sendo essencial que estes programas de desenvolvimento estejam preparados para essa área de intervenção. Claro que os défices de força, estão associados a um maior risco de lesão e uma maiore prevalência de lesões, bem como uma dificuldade na aprendizagem técnica (Faigenbaum, A. D & Myer, G. D, 2012. citado por Rhodri S. Lloyd, 2012).

Os autores enfatizam e direcionam as recomendações, não nos esquecendo o foco da nossa pergunta inicial, que

os jovens atletas deveriam ser encorajados a participar numa diversificada oferta desportiva, evitando um grau de especialização muito precoce num determinado desporto.

Os indicadores do programa LTAD apontam para o ecleticismo no que concerne ao desenvolvimento das habilidades motoras. Num subcapítulo, dentro deste ponto, intitulado Performance vs Participation Pathways  os autores chamam atenção, para que estes programas de LTAD devem estar centrados e orientados para as escolhas dos indivíduos, e não limitar caminho para a orientação apenas de um ambiente de treino e desportivo relacionado com um só desporto. É comum na adolescência, ter jovens que têm grandes resultados, que um pouco mais tarde quando abandonam têm vontade de fazer desporto de forma recreativa.

Janelas de crescimento dos jovens

Tal como indicam os estudos de (Faigenbaum, A. D, 2015. citado por Rhodri S. Lloyd, 2012), independentemente do jovem escolher fazer um desporto formal, ou a prática regular de atividade física com carácter mais lúdico, uma filosofia presente neste modelo LTAD, que o desenvolvimentos das qualidades físicas durante a infância e a adolescência á vital. (Casey, B. J. 2000. citado por Rhodri S. Lloyd, 2012), fala do tempo de maturação do sistema nervoso central, e que em determinada idade os ganhos significativos de força, por adaptações neurais são cruciais para o desenvolvimento saudável da criança.

O modelo Canadiano do LTAD, defende que as janelas de crescimento dos jovens para se trabalharem determinadas qualidades físicas são fundamentais.

A coordenação neuromuscular e a taxa de produção de força, são dependentes do controlo e da ativação neural e, por isso mesmo, é ótimo atingir o correto desenvolvimento das habilidades motoras e ganhos de força na janela de crescimento em que o sistema nervoso central da criança é ainda revestido de grande “plasticidade”  (Faigenbaum, A. D & Myer, G. D, 2012. citado por Rhodri S. Lloyd, 2012).

Os autores sublinham que é altamente recomendado pelos LTAD, que grande parte do trabalho de força, vá partindo do pressuposto que a criança vence através de um trabalho de força resistente o seu peso corporal ou o sustenta. Outro aspecto atentado pelos autores desta investigação, prende-se com as guidelines sobre as recomendações do inicio da actividade física (aproximadamente os 6-7 anos), muito embora as crianças através de forma menos formal e mais anárquica, comecem em brincadeira deliberada por volta dos (5,6 anos).

THE YOUTH PHYSICAL DEVELOPMENT MODEL

Tentando não perder o foco na nossa pergunta de partida, nesta revisão de artigo, em relação a esta recomendação, os autores salientam que há muita literatura que parece indicar que uma abordagem desportiva ampla no início da infância e adolescência, não restringe a chegada a um desporto e o atingir um nível de sucesso. Pelo contrário, os casos de abandono precoce são muito menores (Côté, J. Backer, 2007. citado por Rhodri S. Lloyd, 2012). Em relação aos Efeitos da Especialização Precoce num desporto no que concerne à Performance Desportiva, os autores invocam que se assumiu durante muitos anos, que para se ter sucesso desportivo seria preciso começar a prática desse mesmo desporto muito precocemente, e fazem, uma rápida revisão do mágico número das 10,000 horas e seus mitos em relação à prática deliberada, indo ao encontro do que já tínhamos abordado na pesquisa bibliográfica deste trabalho. Sentido as limitações de muitos dos modelos anglo-saxónicos de Desenvolvimento a Longo-Prazo, chegamos então, à alternativa sugerida por (Rhodri S. Lloyd e Jon L. Oliver, 2012) – o THE YOUTH PHYSICAL DEVELOPMENT MODEL – A primeira grande diferença, tem que ver com o facto deste modelo estabelecer que o desenvolvimento deve começar no inicio da infância (2 anos de idade), até chegar à idade adulta (+21 anos).

Este modelo dá ênfase num trabalho direcionado para a necessidade de estimular o trabalho das qualidades físicas em função das características do indivíduo.

Por exemplo, neste modelo, demonstra-se que para um rapaz de 12-13 anos, ele deve primeiramente treinar Força, velocidade, agilidade e habilidades-motoras especificas do próprio desporto as chamadas (SSS), com um reduzido enfoque no trabalho hipertrófico, mobilidade e habilidades motoras fundamentais (Rhodri S. Lloyd e Jon L. Oliver, 2012). Aqui há uma mudança clara no paradigma e na proposta do LTAD, o que nos ajudará a perceber melhor

casos como a Telma ou o Jorge que começaram a fazer Judo, muito tarde (exactamente entre os 12-14 anos), tendo havido no caso dos dois (não sabemos se por coincidência ou não), um enfoque muito grande, nos movimentos específicos da modalidade,

  e, no trabalho físico: força explosiva, velocidade, entre outras coisas, aproximando-se inadvertidamente da proposta defendida pelo YPDM.

Pilares fundamentais

Outro item, que não pode ser esquecido diz respeito ao tema «FUNDAMENTAL MOVEMENT SKILLS AND SPORT-SPECIFIC SKILLS», nos modelos tradicionais os FMS têm sido vistos como pilares fundamentais para chegar aos SSS. Contudo neste Modelo do YPDM, os FMS podem estar sempre presentes, mas se para uma criança de 7 anos, praticamente sem experiência, são uma boa base do trabalho que deve ser desenvolvido – por outro lado no que toca a um atleta de 21anos, poderá ser pensado para um exercício dinâmico de aquecimento (Rhodri S. Lloyd e Jon L. Oliver, 2012). Tal como defendem, os proponentes do YPDM – este modelo demonstra que quer FMS, quer os SSS deverão estar presentes, durante toda a infância e adolescência.

Qual é a idade para começar a trabalhar Força?

No que toca ao tema da Força é talvez das perguntas que os pais e alunos mais fazem: Qual é a idade para começar a trabalhar Força?  Diferentemente do que se dizia há muitos anos atrás – hoje é consensual que uma criança pode e deve trabalhar esta qualidade física, muito embora o trabalho tenha que ser supervisionado e bem prescrito. Importa perceber primeiro, que existem diferenças quanto ao ganho de Força, uma por via de adaptações neurais, outra por via mais hipertrófica por adaptações hormonais (Endócrinas). Se uma criança consegue com 7 anos de idade, subir à corda, andar pendurado de barra em barra, puxar, empurrar o seu peso corporal isso deve-se, nessa idade, em grande medida à maturação do sistema nervoso central (SNS), daí ser importantíssimo a criança ser estimulada nesse sentido. Por exemplo neste modelo YPD o desenvolvimento neuromuscular deve ter prioridade em todos os estágios do desenvolvimento (Rhodri S. Lloyd e Jon L. Oliver, 2012). Os autores acrescentam ainda que estudos recentes, parecem demonstrar  (Faigenbaum, A. D, 2009. citado por Rhodri S. Lloyd e Jon L. Oliver, 2012 & Bailey D. A., Faulkner R. A & Mckay H. A. 2006 citado por Rhodri S. Lloyd e Jon L. Oliver, 2012), que há uma relação de grande proximidade entre os Ganhos de força, potência muscular, velocidade de corrida, agilidade nas mudanças direção – e o chamado trabalho pliométrico.

REFERÊNCIAS

Livros:

  • Backer, J & Farrow, D. (Eds.) (2015). Routledge Handbook of Sport Expertise. London, UK: Routledge.

Artigos:

  • Joel S. Brenner. (2016). Sports Specialization and Intensive Training in Young Athletes. Pediatrics. Vol. 138. Nº 3.
  • Rhodri S. Lloyd,  John B. Cronin, Avery D. Faigenbaum, G. Gregory Haff, Rick Howard, William J. Kraemer, Lyle J. Micheli, Gregory D. Myer  and Jon l. Oliver. (2016). National Strength And Conditioning Association Position Statement On Long-Term Athletic Development. Journal of Strength and Conditioning Research. National Strength and Conditioning Association. 30(6)/1491–1509.
  • Rhodri S. Lloyd and Jon l. Oliver. (2012). The Youth Physical Development Model: A New Approach to Long-Term Athletic Development. National Streght and Conditioning Association. Streght and Conditioning Journal. Vol. 34.Nº3 June 2012

Autor: Tiago Silva Mestre no Ensino da educação física e desporto escolar pela Faculdade de Motricidade Humana. Doutorando da Faculdade de Motricidade Humana. Professor Assistente convidado do ISCPSI Professor Assistente Convidado da Faculdade de Motricidade Humana (Judo) Treinador de alto rendimento de Judo – grau III.SHARE

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