HISTÓRIA | A princesa do Oriente 25 anos depois

JM | 28 setembro 2020 | História do Judo | Foi exatamente há 25 anos. Chiba, Japão. 28 de setembro. Campeonato do Mundo Seniores de Judo. E a primeira medalha mundial para o judo português aconteceu. Filipa Cavalleri já tinha experimentado em 1991 a emoção das medalhas no Europeu de Juniores do qual tinha regressado de prata ao peito. Desta feita, em território japonês venceu na disputa do bronze Marisabel Lomba da Bélgica, numa vitória conquistada por decisão.

Pedimos à Filipa Cavalleri que se infiltrasse na máquina do tempo para uma viagem com 25 anos e nos revelasse a sensação única do regresso ao dia D. E a Filipa aproveitou a viagem no tempo para nos relembrar os momentos únicos dos combates mas também um percurso feito de vários ingredientes que não dispensa de enaltecer, o facto de combinar no seu dia-a-dia a condição de judoca, de treinadora, de mulher e de mãe.

25 anos depois

Por Filipa Cavalleri

Equilíbrio entre a mente e o corpo é fundamental para se trilhar um caminho suave na vida. Dentro do tatami fica ainda mais evidente a necessidade de saber controlar as técnicas e os pensamentos que ocorrem durante um combate.

O dia 28 de setembro de 1995, fica para sempre na minha memória. Foi um dia muito intenso, vivido com muita emoção e tensão. Foi um dia muito comprido, com vários combates, em que no quinto combate me lesionei gravemente.

Tinha dores insuportáveis no meu cotovelo direito. Sabia que o que tinha era grave, mas também sabia que o que estava em jogo era para mim único.

Tinha em mente o pensamento: Só falta mais um combate! Despois do combate, tens todo o tempo do mundo para recuperar! Tens de agarrar esta oportunidade!

Duas bandeiras a favor

Eram estes os pensamentos que tinha em mente, apesar de o meu cotovelo gritar de dores. Assim fui para disputar a medalha de bronze. A minha adversária era a atleta Belga. Uma atleta muito forte tecnicamente, com uma estatura superior à minha e que eu conhecia muito bem. E vice-versa.

Foi um combate que durou o tempo regulamentar e que só foi decidido por bandeiras (naquela altura, se o combate se encontrasse empatados, os árbitros decidiam, através das bandeiras).

No momento de levantar as bandeiras, vi duas bandeiras, contra uma.

Nem queria acreditar, um misto de sensações, de dor, de cansaço.

Missão cumprida

No final, ficou uma sensação muito boa, tão agradável. Uma sensação de alívio, de missão cumprida e de escrever história para Portugal.

Para o Judo Português!

25 anos passaram desde esse dia, que hoje recordo com saudade, mas em simultâneo com orgulho, por me ter tornado na pessoa que sou hoje.

Ficou uma carreira pautada por muito trabalho, muito esforço e uma dedicação imensa. Por momentos tão felizes, de partilha, de espírito de grupo, de constantes desafios, para contrabalançar os momentos menos felizes, em que nos questionamos e nos interrogamos se estamos no caminho certo. Foi assim durante anos. Tudo isto faz sentido, para progredirmos e quebrarmos as nossas próprias barreiras, mas principalmente quando fazemos o que mais gostamos, quando o nosso propósito de viver está bem presente em nós.

Orgulho

Hoje foi-me pedido para fazer uma pequena viagem sobre estes 25 anos.

Só posso dizer que.. tenho Orgulho!

Orgulho por que passados 25 anos, assisto tantas gerações de Judocas a escreverem as suas próprias histórias e quebrarem barreiras, levando o nome de Portugal e do Judo bem alto;

Orgulho porque passado estes 25 anos, atualmente enquanto treinadora e responsável pelas minhas organizações desportivas, tenho a responsabilidade e a missão de transmitir a paixão do Judo e ajudar atletas a sonharem, o quanto eles desejarem;

Orgulho porque passados estes 25 anos, tenho capacidades e competências que não são exclusivas dentro do tatami, o que me permite ter uma visão mais global do Judo quer a nível nacional quer a nível internacional;

Orgulho porque passados estes 25 anos, continuo a lutar pela igualdade de oportunidades dentro da nossa modalidade, tendo uma voz ativa no desporto nacional;

Orgulho porque passados estes 25 anos, continuo a permanecer fiel aos princípios educativos e morais que me foram incutidos pelos meus Mestres e Treinadores;

Orgulho porque passados estes 25 anos, a paixão pelo Judo continua a bater forte dentro de mim;

Orgulho porque passados estes 25 anos, continuo a sonhar e a desafiar-me enquanto Judoca, Treinadora, Mulher e Mãe.

Acima de tudo, porque sou Grata pelo que tenho e continuo a lutar por tudo o que sonho!

Venham mais 25 anos cheios de histórias, continuando a percorrer o caminho do Judo acompanhando e dando o exemplo às gerações mais novas.

Filipa Cavalleri

6º -Dan

Mestre em Ciências da Educação pela FMH

Treinadora de Judo – Grau III

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