TRIBUNA JM | O Irão continua impune

JUDO Magazine | 24 de outubro 2020 | TRIBUNA JM | Leonardo Cunha escreve da Praia, Cabo Verde, para nos relembrar princípios fundamentais como são os direitos humanos na sua relação com o desporto, mas ainda e sobretudo para lançar um alerta para situações de impunidade que não podem ser admitidas, neste caso, no plano internacional. Lembram-se de Katherine Switzer na Maratona de Boston em 1967? Leonardo Cunha convida-nos para histórias similares que ocorrem no país que já foi Pérsia.

Desporto e direitos humanos

por Leonardo Cunha

O Irão segue destacado nas últimas noticias pelos piores motivos. Depois da Federação Internacional de Voleibol (FIVB) ter atribuído ao Irão a próxima edição do mundial de Sub-19 para rapazes (prevista para 2021), as mulheres iranianas são ainda impedidas de assistirem a jogos de voleibol no país. Esta atribuição só foi possível depois das autoridades iranianas começaram a permitir que as espectadoras femininas entrassem em jogos de voleibol em 2017, mas apenas um número limitado de mulheres pré-vetadas.

Contudo, é de conhecimento geral que a discriminação continua a ser uma realidade, algo que o FIVB reconheceu recentemente num comunicado emitido. Esta discriminação viola flagrantemente o compromisso da FIVB de inclusividade e direito das mulheres a participarem no desporto em pé de igualdade. No entanto, a FIVB não parece compreender isso e ainda considera oportuno atribuir o Campeonato do Mundo de Sub-19 de Rapazes a um país que não permite que as mulheres participem no desporto em pé de igualdade.

Mulher num jogo de voleibol masculino

Vários acontecimentos flagrantes continuaram a acontecer que fragilizaram a posição da FIVB. Por exemplo, em 2014, a mulher britânica-iraniana Ghoncheh Ghavami foi detida na famosa prisão de Evin, em Teerão, cinco meses depois de ter participado num jogo de voleibol masculino. Acabou por ser libertada sob fiança, antes de as acusações serem retiradas em 2015. Nessa altura, a FIVB não teve escolha a não ser mostrar algum tipo de resistência ao Irão.

Uma situação semelhante surgiu no ano passado, desta vez no que diz respeito à proibição de mulheres que entram em jogos de futebol no Irão. Mais uma vez, um terrível incidente impulsionou a situação para a ribalta. Sahar Khodayari, de 29 anos, tinha sido detida em março de 2019, depois de se ter disfarçado de homem e tentado entrar num jogo entre a equipa iraniana Esteghlal e Al Ain, dos Emirados Árabes Unidos, no Estádio Azadi.

Afkari executado

Igualmente, e recentemente, um atleta de luta livre iraniano tinha sido condenado a duas penas de morte por alegadamente ter esfaqueado um segurança e o seu envolvimento em manifestações contra o regime do país em 2018. Alegou ter sido coagido a dar uma falsa confissão antes de ser executado em setembro.

Depois da sua execução, existiu uma indignação generalizada sobre a morte de Afkari. Mesmo antes disto, o Irão já deveria ter sido sancionado por delitos anteriores, como os exemplos proeminentes de discriminação de género no desporto descritas anteriormente.

FIVB insiste no Mundial Sub-19 no Irão

No entanto, o país ainda não foi punido, e é óbvio que a abordagem branda das organizações internacionais desportivas à postura do Irão tem tido consequências nefastas. O Irão continua impune ao impedir que as mulheres possam assistir a eventos desportivos, e a FIVB continua a querer atribuir o Campeonato do Mundo de Sub-19 de Rapazes ao Irão.

Os direitos humanos são um elemento mais que fundamental no Olimpismo. A sua existência só faz sentido com o mais profundo empenho para o que o desporto seja uma ferramenta essencial para o desenvolvimento da humanidade. É necessária uma profunda reflexão sobre as consequências da inexistência de facilitação em processos que envolvem o desporto e os mais fundamentais direitos humanos de igualdade e de acesso à justiça.

Foto © Leonardo Cunha

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