ALMA JUDOCA | O judogi de cristal

JUDO Magazine | 11 de novembro | ALMA JUDOCA | António Saraiva

A Alma Judoca fez uma incursão em dois universos paralelos, o do vidro e do judo na Marinha Grande, através das narrativas de António Saraiva O que resulta desta combinação artística, de esforço e de combatividade, é algo muito parecido com o cristal: a beleza vem do interior, apesar da perceção ser externa e nem sempre conseguirmos captar todos os ingredientes que constroem uma fascinação inexplicável. No judo é muitas vezes assim.

Muitos treinadores sintetizam, com o sorriso nos lábios, o que adiantam aos seus atletas sobre os métodos que o treinador nacional António Saraiva utiliza “Não peças palmadinhas nas costas, nem abordagens suaves, o seu rigor e exigência vêm de uma experiência prolongada de trabalhar duro no judo e ainda mais duro no vidro. É esse sentido de esforço que ele pede”.

A escola do vidro

Neste caso entende-se por escola algo que vai para além das aprendizagens que resultam da instrução e do percurso escolar. É todo um sentido de vida que remete para vivências políticas, sociais e culturais que a Marinha Grande oferecia antes do 25 de Abril pela sua história e pela sua dinâmica económica baseada na produção de vidro.

Nesta terra oestina marcada pelo ambiente fabril e por uma elevada diversidade de fábricas e produtores a Manuel Pereira Roldão (MPR) constituía um caso à parte. Aqui os encarregados andavam de olhos abertos e sempre em cima dos grupos de operários que se constituíam espontaneamente nos recantos do pavilhão fabril. Cada fábrica organizava-se à sua maneira para reclamar melhores condições de trabalho e salários dignos. Hoje era aqui, amanhã era na Ivima e aí por diante.

António Saraiva, que trabalhou 25 anos na MPR, recorda que os aprendizes com 14 e 15 anos de idade, numa ocasião de protesto e de greve geral, decidiram não ir trabalhar. Juntaram-se todos e decidiram ficar em casa. O Manuel Pereira Roldão, que era um homem forte, quando esteve com eles correu-os à chapada e pontapé, mas o que é certo é que conseguiram 25 tostões de aumento. Foi uma grande vitória que marcou todos aqueles que participaram na ação reivindicativa.

No fundo era também a influência de muitos operários mais velhos que desenvolviam uma ação clandestina junto dos restantes trabalhadores e que terminava regularmente no Forte de Peniche ou no Tarrafal.

Para António Saraiva “a escola” também foi a participação em ações diretas como o corte de estradas e as confrontações com a GNR e ainda o envolvimento direto como membro da Comissão Trabalhadores na gestão das situações críticas provocadas pelo abandono das fábricas pelos seu dirigentes e o boicote por parte dos compradores do produto acabado que pretendiam forçar o fracasso das experiências de autogestão. Foram fases muito complicadas, confessa Saraiva que viveu intensamente toda este período de transição, também marcado pela repressão policial.

O 25 de Abril

“Cheguei à fábrica às 5 da manhã. Rapidamente circulou a informação que tinha havido uma Revolução. Não houve grande hesitação, mas esperámos pelo turno das oito. Decidimos que ninguém trabalhava e assim foi. Viemos para a rua e as escolas pararam. Não houve aulas e a festa foi rija. Não me posso esquecer de um dia tão importante para todos nós”, assim resumiu o então trabalhador da MPR que andava particularmente atento às questões da dignidade profissional e da justiça salarial.

António Saraiva deu nota que nos meses a seguir, já no período quente da consolidação democrática, quando se deslocava ao norte, quando adiantava que vinha da Marinha Grande provocava reações muito tensas, inclusiva nas participações ligadas ao judo.

Origem nos Fuzileiros

O judo teve as suas origens na Marinha Grande na iniciativa em 1974 do entretanto falecido Mário Jorge Dinis. Regressado dos Fuzileiros, onde aprendeu as bases da modalidade, criou uma Escola de Judo. Entretanto Saraiva iniciou a sua prática no Dragão, em Leiria. Mais tarde veio a ser chamado por um grupo de judocas marinhenses para orientar o clube local depois da morte do seu fundador.

A partir desta ligação surgiram os desafios de uma formação adequada e de uma preparação consistente já que o treinador marinhense tinha apenas a graduação de cinto azul. Com o apoio da Federação passou um mês em Lisboa, no Judo Clube de Portugal, em atividades orientadas por Bastos Nunes, Henrique Nunes e Kiyoshi Kobayashi,

Em 1978, para Saraiva este foi o primeiro grande banho de imersão no mundo do treino do judo, quer para adultos, quer para crianças.

Depois desta primeira participação em atividades formativas em Lisboa conhecerá outros cenários de desenvolvimento de competências, quer em Espanha quer em França, sendo certo, como afirma o treinador marinhense “Em Espanha todos me conhecem. Regularmente convido-os para virem orientar estágios internacionais e a resposta é sempre positiva”.

Experiências desafiantes

Desde que foi convidado pela Federação há 31 anos para trabalhar a tempo inteiro como Diretor Técnico para a Associação Distrital de Judo de Leiria, o que implicou na ocasião despedir-se da fábrica. António Saraiva tem vivido um quadro de relacionamentos técnicos, profissionais e pessoais que foram reforçando saberes muito específicos como aquele que ocorreu com Go Tsunoda, o treinador japonês que mais o influenciou depois de Kobayashi, que depois da Telma Monteiro ter sido operada aos ligamentos, a alguns meses dos Jogos Olímpicos do Rio de janeiro, insistia com a atleta olímpica para que mantivesse um treino permanente das pegas apesar de não poder movimentar-se e ter que ficar sentada. A intenção era preservar e alimentar a memória da Telma com gestos de disputa e de confrontação, que marcam os combates de judo e, por esta via, manter a atleta em “forma psicológica”.

Lições que não se esquecem, como muitos atletas nunca se esquecerão do enquadramento e do apoio que o Treinador Nacional vai dando nas suas carreiras, que ele trabalha como os artesãos do cristal da Marinha Grande, lapidando, vértice a vértice, até chegar à arte final.

António Saraiva, treinador nacional

Fotos © António Saraiva

Editado 12 Novembro 2020 CVR