HISTÓRIA DO JUDO | Jigoro Kano (I-VIII)

JUDO MAGAZINE | 16 de novembro 2020 |JIGORO KANO (I-VIII).

No final do mês de outubro Rui Vieira divulgou um conjunto de textos sobre Jigoro Kano que constituem uma base fundamental da História do Judo. São aqui reproduzidos para uma ampla divulgação e futura utilização em iniciativas formativas e de aprofundamento dos conhecimentos sobre as origens da modalidade. Iremos enriquecendo esta base de trabalho a partir de sugestões que venham a ocorrer para uma ilustração cada vez mais consistente e que valorizem o excelente trabalho de autor.

por RUI VIEIRA, treinador de competição do Ginásio Clube Português*

Jigoro Kano – Parte I

Nasceu a 28.10.1860 em Mikage, perto de Kobe, baía de Osaka, mas o seu desenvolvimento educacional e cultural realizou-se em Tóquio, sob a égide do governo Meiji. Jigoro Kano mostrou no decurso da sua escolaridade uma particular afinidade pelas línguas estrangeiras. Aos 15 anos ingressou numa escola de línguas estrangeiras e aos 17 ingressou na Universidade de Teikoku (Imperial) de Tóquio.

Na Universidade, Jigoro Kano estudou Ciência Política, Economia, Educação Moral e Estética, tendo a sua vivência universitária contribuído para valorizar fortemente a mais valia da educação.

Em 1882, foi nomeado professor no Gakushuin (Escola privada para a nobreza). Neste mesmo ano criou a escola preparatória, com o intuito de formar o carácter dos jovens que aí residiam (Kano Juku) e a escola de Língua Inglesa (Kouburkan). Quatro anos depois foi nomeado professor em chefe do Gakushuin. Em 1891, foi nomeado Director da Escola Intermédia do Quinto e da Escola Superior de Kumamoto, tendo em 1893 assumido o cargo de Director da Escola Secundária para Professores de Tóquio, atualmente Universidade de Tsukuba (Kano, 1986).

Jigoro Kano – Parte II

Paralelamente a toda esta actividade educacional e política, Jigoro Kano, ainda enquanto jovem estudante da Faculdade de Literatura da Universidade de Tóquio, manifestava uma grande inquietude acerca de um método antigo de luta, o Ju-Jitsu. Tendo sido sempre um rapaz de fraca constituição física, pensava que tal arte marcial lhe poderia trazer a solução para a sua inferioridade física, nas lutas entre estudantes. Jigoro Kano considerava que a educação se baseava em três componentes:

  • 1. Educação do conhecimento;
  • 2. Educação moral;
  • 3. Educação física.

Assim, estabeleceu um departamento de Educação Física e iniciou uma grande variedade de desportos, realizando um grande festival anual de desporto, aparecendo na escola uma grande variedade de secções desportivas, incluindo desportos estrangeiros como, ténis, beisebol, futebol e desportos náuticos. Através destas actividades, que expandiram o Desporto e a Educação Física, tanto dentro como fora da escola, o nome de Jigoro Kano assumiu grande protagonismo na sociedade Japonesa em geral.

Em 1909, o Japão foi formalmente convidado pelo Barão Pierre de Coubertin a participar no Comité Olímpico Internacional. Como representante do Japão e primeiro membro Asiático foi eleito Jigoro Kano. Não havendo uma organização geral dos desportos no Japão, e, consequentemente, não havendo atletas que pudessem competir a um nível tão elevado, foi fundada, em 1911, a Associação Atlética Amadora do Japão, de que Jigoro Kano foi nomeado primeiro presidente.

O Japão iniciou a sua participação olímpica em 1912, nos Jogos Olímpicos que se celebraram em Estocolmo, na Suécia, servindo para catapultar uma ampla expansão e desenvolvimento desportivo. Jigoro Kano continuou o seu labor em prol do olimpismo, deslocando-se várias vezes ao estrangeiro, quer para as reuniões do Comité Olímpico Internacional, quer para as Olimpíadas.

Em 1938 e em prol do trabalho de Jigoro Kano, o Comité Olímpico Internacional decidiu formalmente celebrar os XII Jogos Olímpicos de 1940, em Tóquio. A 4 de Maio desse ano Jigoro Kano faleceu a bordo de um barco de regresso ao Japão, embalado com este feliz conhecimento. Ironicamente o evento não se realizou em virtude da eclosão da 2.a Guerra Mundial. Só em 1964 o Japão foi anfitrião dos XVIII Jogos Olímpicos.

Jigoro Kano – Parte III

Em 1878, quando completara dezoito anos, a Escola Tenshin-Shinyo Ryu e o seu mestre Fukuda aceitam-no como aluno. Dois anos mais tarde, e por óbito do mestre Fukuda, recebe lições de Masamoto Iso, filho do fundador da escola. Quando este faleceu, decidiu praticar com Tsunetoshi Jikubo, da escola de Kito, que baseava a sua técnica fundamentalmente em técnicas de projecção.

Mercê da educação superior da nova era que Kano estava a receber, adquiriu um espírito moderno e prático. Enamorando-se pelo Ju-Jitsu, pensava que este deveria ser preservado como um tesouro cultural Japonês, se bem considerasse que deveria ser adaptado aos tempos modernos. A sua formação académica e intelectual servia-lhe para analisar as técnicas e discernir o útil do inútil, o eficaz do ineficaz, procurando extrair o melhor das técnicas, que aprendeu a melhorar com as suas próprias observações e criações, fundindo muitas subtilezas do Ju-Jitsu com o espírito daquela nova era, e transformá-lo como uma força de educação física e cultural para o seu povo e o resto do mundo.

O facto de o Ju-Jitsu, a par da disciplina e moral públicas, estarem em declive nesta nova época, havendo amiúdes combates violentos entre praticantes e demonstrações públicas como de shows se tratasse, Jigoro Kano decidiu chamar ao sistema que criou JUDO, para o diferenciar do ju-jitsu antigo.

Em 1882 fundou o KODOKAN (Ko= ensinar, Do= caminho, Kan = lugar), passando a dedicar a sua vida a trabalhar para a expansão do judo, primeiramente no Japão e depois em todo o mundo. Alguma das razões desta sistematização e fundação, foram desenvolver as suas próprias ideias, durante os anos de intensas rivalidades entre as várias correntes e escolas de ju-jitsu, bem como fundir o antigo com o novo, criando novos métodos e técnicas de treino e forçando novas vias de pensamento, pois, aparte as considerações técnicas, Kano era possuidor do conhecimento das tendências Europeio-Norte Americanas em educação, assim como em desporto, dando uma importância relevante a elementos do pensamento moderno ocidental.

Jigoro Kano – Parte IV

O Judo Kodokan não contemplava só as práticas físicas, mas também, e de acordo com o seu ideal, uma educação moral e intelectual, promovendo conferências abordando temas como fisiologia, psicologia, educação moral, etc. Existia também uma secção de perguntas e respostas, a qual era inaudita no sistema Japonês do seu tempo. Tal curriculum reflectia a ideia de uma aproximação ao estudo do Judo de uma ampla base que conduzisse a um completo desenvolvimento pessoal e não a uma formação como mero combatente.

Pretendia assim que o Kodokan fosse um lugar de aprendizagem de uma educação geral, através do Judo. Um dos acontecimentos mais importantes para o Judo dá-se por volta dos anos de 1885 e 1886, altura na qual o Judo Kodokan participa num torneio aberto a todas as escolas de ju-jitsu, patrocinado pelo superintendente da polícia, e em que os judocas obtêm uma vitória retumbante. Esta vitória catapulta o Judo e provoca a sua expansão. Ao novo desporto, mercê do seu fundador, preocupado em manter a identidade dos métodos clássicos e desejoso de evitar os perigos do combate, foram definidas regras para um combate educativo, tendo sido precedido de várias adaptações e supressão de todas as técnicas julgadas perigosas, com o intuito de preservação da integridade física dos praticantes.

Neste contexto, foi aperfeiçoada a forma de cair, que era primitivamente muito traumatizante. A inovação reputada como a mais importante deu-se com a obrigatoriedade de os combatentes terem de se agarrar para iniciarem a luta, reduzindo a distância entre contendores e modificando a modalidade de duelo.

Jigoro Kano reforça desta maneira o auto-domínio e garante um maior controlo do risco e do perigo, passando a habilidade para controlar o oponente, o suficiente para assegurar a sua queda, a demonstrar ao mesmo tempo, o grau de superioridade do lutador.

Jigoro Kano – Parte V

Jigoro Kano, respeitava dois métodos utilizados para a prática e estudo do Judo, a saber: Katas – método de estudo das técnicas de Judo numa ordem e métodos pré estabelecidos, permitindo o entendimento correcto da base de cada técnica individual.

Até 1907, os conteúdos de 6 Katas estavam ordenadas em:

  • 1. Nage no kata – Formas de projecção;
  • 2. Katame no kata – Formas de controlo;
  • 3. Kime no kata – Formas de decisão;
  • 4. Ju no kata – Formas de flexibilidade;
  • 5. Ko shiki no kata – Formas antigas e
  • 6. Itsutsu no kata – Formas dos 5 elementos.

A partir de 1956, foi implementado o Kodokan Goshin Jutsu – Formas de auto-defesa do Kodokan.Randori (prática livre) método de estudo do Judo mediante ataques e defesas reais aplicadas durante movimentos livres com um oponente.

O Professor Jigoro Kano era filho de samurai e frequentou algumas escolas de Ju-Jitsu da época, onde obteve vários ensinamentos. O que de facto diferenciou o Judo Kodokan foi o método organizado para aprendizagem desta modalidade de luta. Na escola Kyto-Ryu ele aprendeu técnicas de projecção (Nague-waza) e quando seu mestre veio a falecer, Kano herdou os livros de seu professor e sistematizou as técnicas segundo a acção principal, subdividindo-as em: Ashi-waza, Koshi-waza, Te-waza, Sutemi-waza e Atemi-waza. Esta divisão demonstra a preocupação pedagógica para o processo de ensino das técnicas. No que respeita às técnicas de domínio no solo (Katame-wazà), o Professor Jigoro Kano aprendeu e modificou-as a partir dos ensinamentos obtidos na escola Ten-shin-shinyo-ryu (Coração de Salgueiro). As técnicas mais perigosas, como as chaves de articulação que atacavam não apenas o cotovelo, bem como outras igualmente perigosas para a integridade física do praticante, não foram incorporadas pelo Judo Kodokan.

A difusão do Judo deve-se aos discípulos do Professor Jigoro Kano, que percorreram o mundo ensinando este método de Educação Física.

Jigoro Kano – Parte VI

Jigoro Kano, apesar de Mestre de uma arte de combate, era também um pedagogo, conseguindo planificar o Judo, fundamentalmente, de uma forma acentuadamente educativa, inovando, rompendo com as ideias feudais, mas conservando o melhor de épocas anteriores. Assim e dada a sua cultura, conseguiu organizar e conceber o conhecimento de forma diferenciada da utilizada por outras artes marciais, rompendo com o secretismo de um círculo restrito do ensino e conhecimento, dando a maior expansão possível de forma a alcançar a humanidade na sua totalidade.

Os princípios que elegeu para o desporto que sistematizou, sintetizou-os em duas expressões: Seiryoku Zenyou – O máximo de eficácia, com um mínimo de esforço. Jita Kyoei – Prosperidade e benefício mútuo.

Jigoro Kano, ao mesmo tempo que pretendia dar um carácter internacional ao Judo e o defendia como um fator de entendimento entre todos os países do mundo nos anos trinta do século passado, não podia deixar de se confrontar com o pensamento e a mentalidade da sociedade Japonesa, que considerava a influência das ideias democráticas ocidentais como uma ameaça contra a estrutura social e a realidade do Japão, prosseguindo, consequentemente, uma política disciplinar rígida, que mais não era que uma forma civil de militarismo. As tendências nacionalistas, em conjunto com o domínio imposto pelos seus dirigentes militares, conduziram a um clima político e social que deixava antever a guerra.

O treino das artes marciais foi posto em voga em todo o país, ajudando a formar todas as camadas populacionais no espírito da guerra. Neste contexto, Jigoro Kano foi pressionado pelo Estado para que o Kodokan fosse posto ao serviço dos interesses militaristas, em troca de importantes subsídios e apoios, mas não claudicou, não se deixando, por conseguinte, dominar e controlar pelo exército, conseguindo manter a sua independência.

Jigoro Kano – Parte VII

À morte de Jigoro Kano, em 1938, estavam filiados 120.000 judocas, donde 85.000 eram cintos negros. No entanto, e apesar de no Japão a prática do Judo ser popular, o mesmo não acontecia no estrangeiro, só sendo digna de relevo a Grã – Bretanha onde, desde 1889 com Yukio Tani e, posteriormente, Gunji Koizumi em 1918, se encontrava um núcleo desenvolvido.

A França só em 1935 começou verdadeiramente o Judo, com Mikonosuke Kawaishi, que iniciou uma nova era no judo, sendo considerado como o fundador do Judo Europeu, não só pelas inovações que empreendeu, entre as que se destacam a diferenciação dos graus do judocas por atribuição de cores aos cintos e a classificação exaustiva de todas as técnicas de judo, quer de pé, quer no chão. Nesta classificação introduziu a numeração, tendo igualmente inventado alguns nomes para denominar variações técnicas, que eram desconhecidas no Japão e onde não possuíam identidade própria.

Por outro lado, a França tomou-se um centro onde ocorriam judocas de várias nacionalidades para fazerem a sua aprendizagem/aperfeiçoamento, e de onde partiram alguns alunos para difundir o Judo noutros países europeus, com a sua radicação nesses mesmos países.

A partir do final da 2.a guerra mundial, o Judo experimentou uma transformação muito rápida, deixando em pouco tempo de ser considerada uma esotérica arte marcial japonesa, para passar a ser considerado um desporto moderno, praticado a grande escala internacional. Esta transformação implicou mudanças profundas na sua organização, complexidade e orientação. Devem-se essencialmente a um incremento da actividade internacional, um crescente interesse na racionalização e codificação das regras de competição, produzindo-se de uma forma reflexiva uma transição entre um modelo de autoridade, principalmente carismático, para um modelo mais burocratizado. Este processo de transformação pode-se dividir em três etapas:

  • – Desde o período anterior e imediatamente posterior à 2.a guerra mundial e até princípios do ano de 1950;
  • – Desde os princípios dos anos 50 até metade dos anos 60, até o Judo se converter em desporto olímpico;
  • – Desde os finais dos anos 60 até ao presente.

Jigoro Kano – Parte VIII

Após a 2. guerra mundial e com a derrota japonesa, os americanos, no seu desejo de eliminar o espírito guerreiro e revanchista no Japão, proibiram todas as actividades inspiradas no Bushido (Código guerreiro). As artes marciais e o Judo foram proibidos, mantendo-se, porém a sua prática e treino, na clandestinidade.

Em 1946, o Kodokan foi autorizado, pelas tropas de ocupação americanas, a abrir as suas portas, com a condição de apresentar o judo não como uma arte marcial, mas como um desporto.

O Kodokan conheceu a sua “primeira residência” situada no Templo de Eishoji Budhist em Tóquio o seu Dojo que tinha apenas 12 Tatamis e durante o seu primeiro ano de actividade teve um total de 9 alunos tendo sido Tsunegiro Tomita o primeiro.

Em Dezembro do ano de 1893, resultado do aumento de praticantes o Kodokan muda de instalações para Shinotomisaka Cho, em 1894 é fundado o Conselho do Kodokan que funciona como órgão consultivo, 15 anos mais tarde o Kodokan transforma-se numa Fundação, sendo em 1911 criado o Departamento de Ensino.

Com a fundação da Federação Japonesa de Judo em 1949, é no Kodokan que começa a funcionar a sua sede. Com a difusão cada vez maior desta escola, no ano de 1958, dá-se a transferência do Kodokan para as actuais instalações com 1742 m2 de Tatamis divididos por 7 salas.

*RUI VIEIRA

Responsável departamento Alto Rendimento/Selecções Nacionais e departamento Formação na Federação Portuguesa de Judo 2013-2017 / Performance Director Federação Arábia Saudita de Judo / Conselheiro Técnico Comité Olímpico da Arábia Saudita / Gestor de Projetos Europeus Erasmus + Sport

Textos de Rui Vieira. Ilustrações – fotos e videos – seleção da responsabilidade de JM

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