IG VESTE JUDOGI | Desigualdade de género no desporto não é uma inevitabilidade!

JUDO MAGAZINE | 23 de novembro 2020 | IG veste judogi |

Damos início à Iniciativa “IG veste o Judogi” sobre a igualdade de género no judo. A Presidente da CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, Sandra Ribeiro, abre o debate, a reflexão e o incentivo à ação através de uma declaração de rara clarividência e de conhecimento sobre os pontos fortes e pontos fracos que marcam a modalidade face ao tema em apreço. Assim vale a pena começar a conversar. Vamos a isso!

por Sandra Ribeiro, Presidente da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género.

O judo é uma das poucas modalidades desportivas que tem o mesmo número de categorias de peso e de provas nas competições de homens e mulheres. Tem havido uma crescente aposta em competições entre equipas mistas, e, recentemente, foi decidido diminuir em 1 minuto a duração dos combates masculinos para igualar aos femininos. Constata-se também que não há diferenças relevantes nos valores dos prémios atribuídos em competição para homens e mulheres.

  • Tendo em conta o panorama geral, esta descrição torna o Judo quase um oásis de igualdade de género quando comparada com outras modalidades desportivas onde a regra instituída é a desigualdade entre homens e mulheres, como por exemplo no futebol, basquetebol ou ténis.

A desigualdade de género no desporto não é uma inevitabilidade. A desconstrução de estereótipos é possível e pode efetivamente ser promovida através de ações e medidas praticas e concretas, adotadas por quem tem poder e influencia para o fazer.

A agenda olímpica 2020 aprovada pelo Comité Olímpico Internacional em 2014, ao integrar a promoção da igualdade de género na lista das recomendações para repaginar o futuro olímpico, marcou definitivamente um ponto de viragem rumo à mudança e demonstrou que é possível transformar o status quo!

Em consequência, nos jogos olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, 139 das 306 medalhas em disputa aconteceram em provas para mulheres, o que significou um progresso enorme face aos jogos anteriores. E, para os próximos jogos olímpicos em Tóquio, pela primeira vez na história, foi exigido que as seleções nacionais qualificassem o mesmo número de atletas mulheres e atletas homens, e foi instituído que existirão praticamente o mesmo número de provas em competição e o mesmo número de medalhas a atribuir a ambos os sexos.

  • E ainda, pela primeira vez na história dos jogos olímpicos, será realizado um torneio de equipas mistas na modalidade de Judo. É uma decisão importante e simbólica, mais ainda em ano de celebração dos 40 anos do primeiro campeonato feminino de Judo.

Estas medidas são urgentes, porque as mulheres continuam sub-representadas em todas as manifestações da atividade desportiva.

A desigualdade de género no desporto, e aqui o Judo não é exceção, continua a ser perpetuada pela importância desproporcional que os media atribuem a prática desportiva por homens em detrimento das mulheres.

Portugal tem um naipe fortíssimo de raparigas e mulheres judocas. A Telma Monteiro, é uma das melhores judocas do mundo, exibe um palmarés invejável de 14 medalhas em 14 campeonatos europeus, quatro medalhas em mundiais e uma medalha olímpica, só por isso, já fez mais pela promoção do judo feminino para as nossas camadas jovens do que 10 campanhas institucionais de sensibilização para a igualdade de género no desporto. Porque ela simboliza um modelo a seguir! É um ídolo feminino do desporto. Raparigas mais jovens vão querem ser como ela, sonham chegar onde ela chegou. Para haver mais raparigas no desporto é preciso que existam modelos femininos que possam ser inspiradores.

  • Mas para essa inspiração chegar mais longe e de forma sustentável precisamos que a comunicação social apoie as campeãs como apoia os campeões.

Que assuma um papel promotor da igualdade de género no desporto e não que perpetue o status quo sexista de que o “(…) desporto à seria é de homens e para homens!”. O desporto praticado por mulheres ainda é considerado como menor pela maioria da imprensa desportiva e pela generalista, que em consequência aposta muito pouco em jornalistas mulheres para acompanhar eventos desportivos, e induz à diferente valorização das vitorias femininas e masculinas, mesmo pelas instituições desportivas.

E não é só dentro das quatro linhas que a desigualdade de género é evidente, também o número de treinadoras ainda é muito menor do que o de treinadores, em todas as modalidades, inclusive nas equipas femininas. E se falarmos em cargos de gestão de instituições desportivas ainda estamos pior, quer a nível local, nacional, europeu ou mundial.

  • Tal como o Comité Olímpico Internacional já fez, há medidas pragmáticas de promoção da igualdade de género que podem ser tomadas desde já pelas organizações internacionais e europeias e nacionais que trabalham o desenvolvimento do desporto, como por exemplo a introdução de quotas de género na constituição das respetivas equipas diretivas.

E os media, podem adotar códigos de conduta elaborados com perspetiva de género, e aplicarem planos de igualdade internos que garantam mais mulheres jornalistas a coordenarem editoriais desportivos.

Não haja dúvidas de que a vontade politica/institucional/organizacional pode fazer a mudança acontecer!

Sandra Ribeiro, 23 de novembro 2020

Sandra Ribeiro, Presidente da CIG

Foto© CIG

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