IG VESTE JUDOGI | Se quer realmente entender o judo, observe a prática das mulheres

JUDO MAGAZINE | 24 de novembro 2020 | IG veste o judogi | Igualdade de género no judo.

Yahima Ramirez leva-nos a Nova York, ao incêndio na fábrica têxtil que tirou a vida a 146 mulheres em 1911 e recupera as origens do 8 de março como Dia Internacional da Mulher, relembrando as manifestações de 1857 e as diversas lutas sociais e políticas que foram sendo travadas pelas mulheres para verem reconhecidos os seus direitos e condições de trabalho mais justas.

É um enquadramento necessário e que nos remete para uma ideia-força: não se avança, nas questões da igualdade sem ação, sem iniciativa e até sem alguma confrontação conjuntural.

Mas acompanhemos a nossa atleta olímpica que, de Rio Maior, nos convida a uma reflexão aprofundada.

Igualdade de género no Judo, por Yahima Ramirez

Um dos princípios do desporto é a promoção da igualdade, no entanto os desafios de cada atleta varia de acordo com o género.

Para falarmos deste tema temos que remontar à história da igualdade de género em si.

A igualdade de género é, em suma, a busca pela equivalência social entre os dois géneros humanos, homem e mulher e remonta a 8 de março de 1857 quando um grupo de trabalhadoras da industria têxtil se organizou numa manifestação por condições de trabalho iguais para homens e mulheres. 52 anos depois, a 20 de fevereiro de 1909, surge então o primeiro dia dedicado às mulheres no qual estava em causa a luta pelos direitos iguais entre homens e mulheres e o voto feminino. Mas foi uma das maiores tragédias do inicio do século, a 25 de Março de 1911 que iria marcar para sempre o dia Internacional da Mulher quando após um incendio numa fabrica em Nova Iorque, que devido a falta de condições de trabalho, tirou a vida a 146 trabalhadoras. Tal acontecimento intensificou a luta pela igualdade de direitos entre géneros e incentivou à criação de legislação que protegesse os trabalhadores do género feminino.

Hoje em dia, após ter sido reconhecido pela ONU em 1975, celebra-se a 8 de Março o dia internacional da Mulher. Embora a luta pelos direitos iguais tenha ultrapassado vários obstáculos não a podemos dar como encerrada.

Passando para o caso especifico do Judo, a igualdade de género foi também uma luta desde a criação da modalidade.

Jigoro Kano, a inclusão e a igualdade

A primeira pessoa a lutar pela inclusão e igualdade das mulheres no judo assim como na sociedade foi mesmo o seu fundador Jigoro Kano.

Na sua participação no governo japonês, Jigoro Kano introduziu colégios para mulheres, coisa que antes não existia. Para Jigoro Kano a educação deveria ser acessível a todos, sem discriminação.

Kano não desejava que as mulheres fossem apenas iguais intelectualmente mas também fisicamente, o que motivou a criação do Judo Joshi Kodokan, Kodokan de Judo feminino. A primeira aluna matriculada no Kodokan foi Sueko Ashiya, em 1893.

A sociedade machista de então não aceitava esta ideia e Jigoro Kano teve de reunir inúmeras autoridades médicas de modo a demonstrar cientificamente que o judo iria proporcionar uma melhoria na qualidade de vida das mulheres e a sua inclusão na sociedade.

Keiko Fukuda

Em 1926 Kano cria oficialmente a secção de judo feminina no Kodokan onde se inscreveu para ser sua aluna Keiko Fukuda que foi a única mulher a atingir o 10º Dan na modalidade. O seu lema era “Ser gentil, amável e bonita, ainda firme e forte, mentalmente e fisicamente.”

Formalizou-se então o ensino de judo para as mulheres e rapidamente se percebeu que dispunha de um programa altamente completo e com uma formação ainda mais rigorosa que a dos homens, Kano dizia, “Se quer realmente entender o judo, observe a pratica das mulheres.”.

Jigoro Kano utilizou todas as suas forças e influência para lutar contra tradições e contra uma sociedade altamente machista. Utilizou exemplos que hoje são claramente considerados fundamentais na luta contra a igualdade de género. Deixou um legado que, passados mais de 100 anos, é digno de registo.

Futebol descrimina

Na minha opinião pessoal o Judo hoje em dia é um desporto que não olha a sexo, género e raça, sendo um desporto que nos transmite, desde muito cedo, valores para aplicarmos, não só dentro do Dojo, mas também na vida em sociedade. Penso que mais desportos deveriam seguir o exemplo do judo no que toca a igualdade de género, pois observamos uma notável supremacia masculina no desporto por exemplo no que toca à disparidade salarial. Podemos dar o exemplo do futebol onde não só a disparidade entre salários femininos e masculinos é enorme como também se verifica ainda uma grande precariedade no que toca à garantia de direitos fundamentais,  o que, tendo em conta todos os anos que se passaram e os avanços que a sociedade sofreu, não se justifica.

Continuar os esforços

Em suma penso que deverão continuar a ser feitos esforços para uniformizar o desporto no que toca a género, valorizando assim os esforços feitos pelos nossos antepassados, esforços estes que passam também pela consciencialização da sociedade que ainda não aceita a presença e igualdade feminina em muitos desportos, mesmo verificando se que o género feminino trouxe muito ao desporto não só em termos de resultados mas também em termos de valores e ensinamentos.

Yahima Ramirez, atleta olímpica.

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