IG VESTE JUDOGI | Cristiana, a Sun Tzu italiana

JUDO MAGAZINE | 27 de novembro 2020 | A IG veste o judogi | Igualdade de género no judo | Beatriz Martín Oñate

Beatriz traz Sidney na bagagem e Itália no coração. Bem, na verdade, mais do que o país transalpino é principalmente a italiana Cristiana Pallavicino que a atleta olímpica espanhola, atualmente a viver em Lisboa, coloca no pódio da coragem e da combatividade pelo judo feminino internacional.

Vale a pena ir até Marrakech e ouvir uma história de uma mulher que só aparentemente esteve só. Beatriz conta-nos como foi.

Judocas veteranas

por Beatriz Martin Oñate*

No último ano de 2019, antes desta pandemia e em pleno século XXI, o judo regrediu mais de 40 anos no que se refere à forma em que foram tratadas as mulheres veteranas com mais de 65 anos no campeonato do mundo de veteranos em Marrakech. Simplesmente foram excluídas. Mas os homens de mais de 65 anos, não. E não é que esta exclusão fosse ficar “só” por este torneio, senão que pretendiam que fosse uma prática habitual de aí em diante.    Mais uma vez, refugiaram-se num banal argumento para conseguir este propósito: baixo número de participantes em edições passadas.

É obvio, que a participação feminina em competições de veteranos é bastante inferior à participação masculina; se a prática feminina de judo é inferior, a participação em competições também deve ser. Os motivos pelos quais esta prática é inferior são variados e merecem uma reflexão.

Cristiana Pallavicino

Mas a NÃO IGUALDADE nos direitos de homens e mulheres a participar nos mesmos eventos desportivos é um facto que não se pode tolerar, que vai contra o espírito do judo e, muito mais, contra o espírito veterano. Esta desigualdade não vem de uma discriminação dos próprios praticantes, senão dos que escolhem vestir outro tipo de fato para poder tomar decisões sentados numa cadeira dum escritório.

Uma das mulheres que teve de vestir o seu judogi para reivindicar esta desigualdade, sempre firme ao código de honra que acautela o judo, foi Cristiana Pallavicino.

Ela foi uma das pioneiras das competições de veteranos antes de que as garras do oficial se apercebessem de que estas podiam ser uma fonte milionária de rendimentos.

Combate fora dos tatamis

Cristiana é uma judoca veterana, italiana e tem mais de 65 anos. Nunca se negou a lutar com quem tivesse de ser, fosse uma rival da sua idade ou mais nova. Se o número de participantes exigia reagrupar categorias para poder competir, Cristiana não se importava. Pela idade, foi impedida de participar no Campeonato do Mundo de Marrakech. Ela e outras tantas judocas de mais de 65 anos. Mas esteve lá na missão de realizar o seu combate fora dos tatamis: compreendeu que devia pôr em prática o caminho suave que o judo lhe tinha ensinado para reivindicar a participação das mulheres maiores de 65 nos campeonatos de Europa e do Mundo, que ela própria tinha ajudado a fundar!

Abordou o manda chuva da IJF- International Judo Federation. Colocou-se à sua frente e convenceu-o a ouvi-la. Ela não era mais do que uma veterana mas  tinha um argumento que podia ter escapado mesmo aos que passam a vida a pensar em tudo: ela era a única judoca veterana em Itália da sua idade e peso; se não fosse pelos campeonatos de Europa e, mais ainda, pelos campeonatos do mundo, Cristiana nunca poderia entrar em competições. E mulheres judocas na mesma situação, havia por todo o mundo!

Mostrar o caminho

Uma pandemia deixou tempo para pensar aos responsáveis desta decisão. Cristiana conversou com eles, mostrou-lhes um caminho de prosperidade e benefício mútuos (Jita Kioei) através do uso do Ju (suavidade) para que o Judo saísse vencedor. No final, como diria Sun Tzu, se utilizas o inimigo para derrotar o inimigo, serás poderoso em qualquer situação”.

Eu fui judoca olímpica em Sydney 2000. Os meus treinadores sempre foram homens e com uma idade muito superior à minha sendo que nunca duvidei da sua qualidade pela idade avançada que tinham; as pessoas que me ajudavam a treinar eram homens e mulheres, e nunca duvidei da qualidade de uns ou de outras pela sua condição de homens ou mulheres; no meu apuramento para os Jogos Olímpicos, só podiam classificar-se  5 mulheres pelo continente europeu, nos homens classificavam  9, mas aceitei com  serenidade que a prática masculina  era maior à  feminina e não me pareceu injusto.

Direitos iguais

Agora, compito na categoria de Veteranos e espero poder continuar a fazê-lo quando tiver mais de 65 anos, por saúde, por escolha, porque sou judoca ou, simplesmente, porque tenho o mesmo direito que os meus colegas homens. Sempre estarei em dívida com Cristiana, porque graças a sua luta isso será possível.

Beatriz Martín Oñate

6.º Dan de Judo, Judoca Olímpica pela Seleção Espanhola nos Jogos Olímpicos de Sydney 2000. Campeã de Europa e do Mundo de Veteranos.

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