IG VESTE JUDOGI | O preconceito e os Billy Elliots do judo

JUDO MAGAZINE | 27 de novembro 2020 | A IG veste o judogi | Igualdade de género no judo |

Manuela Simões é membro da direção da Associação 4Judo Project. Não é judoca, mas é mãe de um e esposa de outro. Ou seja, quer queira quer não o judo entrou-lhe pela vida adentro ao ponto dela afirmar que acaba por vivê-lo e respirá-lo de forma particularmente intensa.

Através da Manuela acedemos a um olhar externo sobre as questões da igualdade de género na modalidade, uma abordagem a ler com muita atenção.

por Manuela Simões*

Hoje em dia, é complicado e até perigoso ou tendencioso dizer que se é feminista. Sou antimachista. Sou antifemista. Sou, portanto, feminista. Não quero ser mal interpretada. Sou mulher. Sou mãe. Sou filha. Já fui neta. Não sou Judoca, mas sou mãe de um Judoca e sou esposa de um Judoca e, de alguma forma, acabo por viver e respirar o Judo de uma maneira muito intensa e vívida.

Não há dúvida de que o preconceito e a igualdade de género andam de mãos dadas. Existem, invariavelmente, padrões estereotipados relativamente a ambos os géneros e, mais especificamente, no que toca à prática de modalidades desportivas. É tão claro como água que é suposto os meninos gostarem de luta e as meninas gostarem de ballet. Na realidade, Billy Elliots há muitos  e, num desporto como o Judo, acredito mesmo que o preconceito tende mais para o género masculino do que para o género feminino.

Se uma rapariga gostar de Judo, é fixe; todavia, se um rapaz gostar de ballet já é um cabo dos trabalhos e aí a história é outra.  

O rosa e o azul

Verificamos, então, que há expectativas inerentes e castradoras que nos acompanham desde sempre, existindo mecanismos sociais de codificações previamente definidos antes mesmo de nascermos. Comprovamos um inegável ênfase crescente do cor de rosa para as meninas e do azul para os meninos. Sentimo-nos assoberbados com roupa, brinquedos, postais de aniversário ou mesmo papel de embrulho com cores distintas consoante o género. As diferenças existem.  E ainda bem. Apenas cabe a todos respeitá-las.

Encontramos, inegavelmente, situações de disparidade no seio da sociedade e no desporto, sobretudo, no desporto que move massas e que lida com salários discrepantes.

No plano dos dados concretos, em relação ao Judo, não encontro situações ainda que ténues de desigualdade.

Acredito que os treinos são organizados de forma a contemplar a abordagem de algumas vertentes do Judo que se coadunam com a condição feminina das atletas. Além do mais, os treinadores parecem-me preparados para a especificidade da mulher/rapariga atleta e penso que, na progressão traduzida nas graduações, existe o cuidado de tratar de igual forma os jovens praticantes nos acessos às etapas superiores.

Vantagem dos grupos ecléticos

Devido ao número reduzido de atletas femininas, os treinos são, frequentemente, mistos. Assim, muitas vezes, no tatami, o trabalho é realizado com grupos ecléticos, o que não me parece algo necessariamente negativo; antes pelo contrário, poderá ser um privilégio e uma vantagem treinar com alguém eventualmente mais forte, do género masculino. Se os treinadores devem treinar rapazes e as treinadoras treinar as raparigas? Esta não me parece uma questão válida ou pertinente para o desenvolvimento do Judo em geral.  

Não me parece também que a indumentária das árbitras seja algo tão decisivo no que concerne à igualdade de género;

ter outras opções que atendam a um visual não masculino não me parece incontornável. A indumentária segue toda uma tradição e isso nada tem que ver com preconceito.

Evitar que as jovens em crescimento abandonem

Acredito, sim, que se justificam os incentivos específicos ou formas de acompanhamento peculiares para que jovens raparigas em fase de crescimento mantenham a sua relação com a modalidade e ultrapassem as barreiras que as afastam do desporto e do Judo em particular. Na minha opinião, atletas femininas afetas a projetos olímpicos e às seleções nacionais poderiam envolver-se com a comunidade e quebrar o tabu do Judo feminino que assenta na ideia de que esta modalidade se destina unicamente a rapazes.

Julgo que o preconceito está encerrado dentro de cada um de nós e, realmente, não  consigo encontrar o preconceito no Judo, de uma forma geral e sistemática, enquanto bicho-papão.

Sobretudo no Judo. Esta é uma modalidade que prima pelo respeito e pelos valores a si inerentes, tais como a amizade, a honra ou a cortesia.     

No Judo, os balneários são diferentes para cada género. Esta é das poucas diferenças válidas que encontro no Judo. Não vamos criar macaquinhos no sótão, certo?

Manuela Simões, Professora de Português/ Inglês e NEE, Blogger do Moda no Sapatinho, Membro da Direção da Associação 4JUDO Project

Fotos © Manuela Simões

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