IG VESTE JUDOGI |O importante não é ter mais direitos, é ter a possibilidade de escolha

JUDO MAGAZINE | 29 de novembro 2020 | A IG veste o judogi | Igualdade de género no judo

Carolina Costa foi ao baú das memórias para nos contar as histórias que marcaram o percurso da arbitragem feminina, ao longo dos anos, até aos dias de hoje. Mas não se fica pelo passado, a sua mensagem é clara quanto ao futuro: podem contar com as mulheres nesta paixão que é arbitrar e a inevitabilidade de um maior equilíbrio entre homens e mulheres no número de árbitros a nível nacional, europeu e internacional, é um dado adquirido.

Arbitragem no feminino por Carolina M. Costa

Falar de arbitragem no judo é fácil para mim. Comecei a arbitrar nos anos 90, com 15 anos, longe de pensar que seria, hoje em dia, uma das coisas que mais gozo me dá fazer e de ensinar. Não pensem que arbitrar é fácil: a pressão de não errar e de não prejudicar os atletas, que treinaram para ali estar e a decisão em milésimos de segundo é muito difícil. Mas, é das coisas mais emocionantes que alguém que goste de judo pode sentir. Ver um combate de judo ao vivo e a cores e fazer parte daqueles 4 minutos, que parecem horas, é um privilégio! E é esta a ideia, entre outras, que tento passar quando dou formação de arbitragem aos candidatos a árbitros.

A arbitragem em Portugal é maioritariamente gerida por homens em quase todos os desportos e o judo não é excepção. Contudo, penso que na nossa modalidade, nós mulheres temos vindo a ganhar terreno e a conquistar o respeito nesta importante disciplina da modalidade.

Viemos para arbitrar! Um pouco de história

Não existe muita documentação, na verdade quase nenhuma, sobre os primórdios da arbitragem feminina em Portugal. As primeiras arbitragens femininas conhecidas datam dos anos 70 e foram conduzidas pela atleta, da então Associação Académica da Amadora, Fernanda Félix, dando o incentivo para que outras mulheres lhe seguissem os passos, nas décadas seguintes.

Em Lisboa, desde que me lembro, como gente de palmo e meio, sempre existiram mulheres a arbitrar. Poucas, é verdade e de uniforme diferente com saia e lenço, mas sempre marcando presença. Mulheres como Fernanda Tostões, Elsa Barroja, Catarina Diniz, Cláudia Ah Quin e Catarina Rodrigues, atletas de topo com quem tive a oportunidade de partilhar o tatami, que também se dedicaram |a arbitragem.

Desde os anos 70 e ao longo das décadas seguintes o número de mulheres na arbitragem foi oscilando e foi nos últimos 15 anos que as mulheres se foram afirmando, cada vez mais, na arbitragem.

Em Lisboa, num universo de 3491 atletas federados, existem actualmente 94 árbitros, dos quais 24 são mulheres.

Muito jovens, algumas ainda atletas vão mostrando perfil, interesse e ambição para gerir um combate. O número de árbitras em Lisboa tem vindo em perfil ascendente assumindo assim uma expressiva representatividade feminina no mundo da arbitragem nacional. Este facto faz-me sorrir, pois se a tendência se mantiver, daqui por uns anos, o número de árbitras a nível nacional também aumentará certamente, contribuindo para a qualidade da arbitragem nacional.

Sinto muito orgulho de ter participado na formação da maioria desta geração que se afirma cada vez mais na gestão do combate e que merece todo o meu respeito e consideração.

A elas um obrigado por darem continuidade a esta jornada que é a arbitragem feminina.

Algumas destas excelentes mulheres arbitram, neste momento a nível nacional, são elas: Ana Sena, Catarina Correia, Joana Costa, Joana Silva, e uma delas, Joana Costa, é actualmente membro da comissão de arbitragem de Lisboa.

Panorama Nacional

Já a nível Nacional somos, actualmente no activo, 14 num universo de 68 árbitros. A maioria de nós detentoras dos títulos Nacional, Elite e Continental.

Ao longo dos anos algumas colegas, por vários motivos, quer profissionais, quer familiares, optaram por suspender a actividade na arbitragem.

Continuam contudo a fazer parte da história da arbitragem feminina tendo dado o seu enorme contributo para o crescimento da arbitragem quer nacional como associativa.

Panorama Internacional, curiosidades

Curiosamente, mas não surpreendente, a nível Internacional as mulheres também tem conquistado o seu lugar na arbitragem. Vemos como exemplo que os líderes actuais dos rankings Europeu (EJU) e Internacional (FIJ) são mulheres: Roberta Chyurlia de Itália (EJU) e Enkhtsetseg Turbat da Mongólia (FIJ). No ranking FIJ a italiana Roberta Chyulia é 6ª.

Tendo em conta que a nível europeu o número de árbitros no activo são 265 dos quais 39 mulheres e que a nível internacional são 54 árbitros dos quais 12 mulheres, posso concluir que o nosso trabalho e empenho tem dado frutos e que nos temos afirmado na arbitragem merecendo o respeito dos nossos pares.

Finalizando

Ao fazer a pesquisa sobre este tema para escrever estas linhas fiquei de coração cheio por tudo aquilo que já conquistámos, e com muito orgulho em ser mulher árbitra. Tenho contudo a noção que há ainda muito caminho a percorrer, mas o caminho faz-se caminhando, certo? Da minha parte a garantia de que vou continuar a percorrê-lo como tenho feito até aqui, incentivando outras gerações e transmitindo a emoção que sentimos ao arbitrar.

Assumir a arbitragem como algo nosso (feminino) é uma opção. É uma escolha. E o importante não é o número de atletas federadas ou o número de árbitras existentes, o importante é o direito à opção! O simples acto de poder escolher. O importante não é ter mais direitos, é ter só e apenas a possibilidade de escolha sem censura e sem julgamentos porque nascemos sem cromossoma Y.

Espero um dia (com idade para ser avó) poder fazer o mesmo que fazem os meus queridos amigos árbitros da velha guarda que serviram de exemplo a muitos de nós, Fernando Costa Matos e Artur Mata: ir de propósito ver uma prova de Judo da bancada, apenas pelo convívio e pelo gozo de ver arbitrar as  novas gerações, quer sejam cromossoma X ou Y.

Obrigado a todas as mulheres que percorreram e ainda percorrem o caminho….

Carolina M. Costa

Fotos cedidas por Carolina M. Costa | Foto de Destaque foto© Patricia Vilela

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