BANDEIRA DA ÉTICA | Judo Clube Pragal, para além dos samurais

JUDO MAGAZINE | 18 de outubro 2020 | Bandeira da Ética | Judo Clube Pragal

A camionete percorre lentamente as ruas do bairro. Por enquanto circula-se sem dificuldade, mas as vias mais estreitas estão ao virar da esquina. Nada que atemorize o condutor da 3,5t de caixa aberta, cuja experiência neste tipo de operações já é, mais que muita. Os tapetes são sempre um problema. É preciso carregar, transportar, descarregar, instalar, voltar a carregar e a descarregar no ponto de origem. Mas como se costuma dizer no Judo Clube Pragal uma ação de captação num bairro vale todos os esforços do mundo.

Nos bairros tudo é incerto e cheio de surpresas. Instala-se a área para o treino na escola local, são colocados alguns cintos e judogis à disposição e, pouco a pouco, os miúdos vão aparecendo. Trata-se de uma demonstração e quem quer, pode sempre experimentar.

E assim foi. “Afinal agarrar alguém no chão e imobilizá-lo não é assim tão complicado e, aquele truque do braço por baixo da cabeça ajuda muito a controlar” confessam os convencidos e disponíveis para manter o contacto com a modalidade.

Judo Clube Pragal já tem a Bandeira da Ética

As visitas aos bairros e as iniciativas de envolvimento da comunidade são campos de atuação regular do Judo Clube Pragal que tiveram início com o judo adaptado e que continuam, tendo por lema “fazer Ippon à Exclusão”.

“No início pensámos que esta nova abordagem do judo adaptado seria demasiado complicada, mas acabámos por aderir e na ocasião sentimos que era o elemento que nos faltava para, que a nível local, nos dessem mais atenção. Os mestres mais antigos nunca viram com bons olhos esta evolução do judo, sempre pensaram que a modalidade era um desporto para samurais e, ser portador de deficiência, não seria compatível com aquele perfil marcial” adiantou-nos Nelson Trindade o fundador e dinamizador do projeto do Judo Clube Pragal e também o incentivador da abertura do clube à comunidade e a outras escalas territoriais.

Trabalho de base e de formação

“Para além da dimensão desportiva e competitiva deve ser desenvolvido um trabalho de base e de formação. O judo tem uma segunda vertente, mais associada ao lúdico que precisa de ser trabalhada e aprofundada. No fundo trata-se de uma modalidade que pode ser praticada muito cedo, mas também, até muito tarde. E se não for diretamente no tapete existem muitas tarefas no dirigismo, na arbitragem e noutras ocupações importantes que podem manter os praticantes ligados ao judo de forma continuada” preconiza o experiente treinador do JCP, que também é Diretor Técnico da Associação Distrital de Judo de Setúbal.

A própria associação distrital, que está implicada nos três polos de judo adaptado, em Almada, no Barreiro e no Montijo, entende que as questões da inclusão são particularmente importantes ao ponto de serem uma ponte com os municípios e facilitarem um relacionamento com as restantes modalidades.

Judo desporto e judo lúdico

Para Nelson Trindade ainda existem demasiado clubes a centrarem a sua atividade na competição e muitos responsáveis ainda não captaram o potencial do judo como modalidade de interlocução local entre instituições, nomeadamente desportivas. As consequências de uma dinâmica única nos clubes, orientada exclusivamente para as medalhas, podem ser graves. Muitos jovens abandonam e afastam-se depois de um período de experiências em competições. Não lhes é proporcionada nenhuma alternativa.

“Nos clubes tem que haver espaço para todos e há mais judo para além do olimpismo e das medalhas” estas são as convicções do treinador almadense.

Os pais dos praticantes foram os salvadores do clube nesta fase de pandemia

Não deixou de ser curiosa a partilha que Nelson Trindade fez da experiência vivida com os pais dos judocas que, há dois anos atrás, aceitaram o desafio de subir ao tapete e começar a praticar judo em grupos familiares.

Esta é precisamente a fórmula ideal para enfrentar a situação pandémica atual e manter a prática do judo com toda a segurança. Uma solução de animação social e de participação tornou-se num ponto crucial para a organização das aulas de judo e dos treinos para os mais avançados em termos competitivos.

“O nosso grupo é muito coeso. Desde a minha família, aos treinadores, aos atletas e aos pais, todos trabalham de forma persistente para um projeto no qual todos acreditam.” conclui o treinador veterano da modalidade, que vai celebrar 50 anos de prática do judo e que deseja continuar a rasgar horizontes como o tem feito com processos de cooperação com França, nomeadamente com a Cathy Arnaud que desenvolve a sua atividade na região de Bordéus, a segunda mais importante do judo gaulês.

Arnaud e o crescimento da modalidade

Aliás a campeã francesa, que foi duas vezes Campeã do Mundo e quatro vezes Campeã da Europa nos anos 90, num estágio que orientou na Margem Sul de Lisboa, teve oportunidade de referir que ainda existem muitos responsáveis do judo que não se aperceberam que o crescimento da modalidade faz-se no contacto com o exterior e que a lógica da qualidade interna é importante mas não é suficiente.

E, nesse plano, a Bandeira da Ética atribuída ao Judo Clube Pragal simboliza esse apelo à abertura aos problemas sociais e à aplicação concreta dos valores do judo nos territórios mais exigentes, como é o caso dos bairros de Almada, aqui inicialmente retratados.

Cathy Arnaud

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