DOHA 2021 | Riner, ou porque gostamos de Basaev?

JUDO MAGAZINE | 14 de janeiro 2021 | Doha 2021 – Judo Masters | JudoLab-001

Passadas as três jornadas do Master de Doha podem ser destacados os pontos críticos de uma prova que, por ter revelado um elevado nível competitivo, teve impacto na preparação dos Jogos Olímpicos de Tóquio servindo ainda de teste para algumas variáveis–chave do processo de desenvolvimento da modalidade cuja evolução valerá a pena acompanhar nos próximos tempos.

A interrogação que emerge, neste domínio específico do judo de competição é no essencial a seguinte: podemos captar sinais ou elementos objetivamente verificáveis que nos revelem tendências de progressão, mais ou menos espontâneas, que devam merecer a atenção e eventualmente a reflexão dos atores da modalidade?

São NOVE as áreas de observação, de acompanhamento e de monitorização que são aqui explicitadas e objeto de comentário ou até de avaliação.

1ª SEGURANÇA

Por paradoxal que pareça a segurança sanitária que é recente e extremamente exigente, tendo em conta os riscos e as implicações que comporta, surge com um balanço claramente positivo. Aprendeu-se rapidamente, implementou-se uma política de melhorias contínuas e criou-se um clima de co-reponsabilização que tornou eficaz um processo que depende a 90% dos comportamentos, geralmente incontroláveis. A FIJ e as entidades co-organizadoras estão de parabéns. Em matéria de segurança e de credibilidade o judo está no pódio da resiliência desportiva em tempos de pandemia.

2ª O JUDO NO ECRÃ

Uma prova desportiva, fortemente competitiva e envolvendo no essencial profissionais, situa-se a meio caminho entre o desporto e o espetáculo. No caso de Doha o Prize Money de 200.000 euros revelava um investimento publicitário significativo. Não havendo público nas bancadas podemos deduzir que os marketeers dos sponsors já chegaram à conclusão que o “judo no ecrã” tem um potencial suficiente para garantir o Return on investment (ROI) da operação. Importa agora observar, do lado do consumidor do espetáculo, se existem dissonâncias críticas que justifiquem intervenção para garantir uma adesão plena à proposta que o judoshow pode proporcionar. Neste plano surge de forma evidente a tensão da “batalha pelas pegas”.  Não é fácil, para um não-judoca, captar a importância desta componente decisiva do combate e até aceitar que por vezes mais de 50% do tempo da contenda se realize em torno desta disputa que aparenta ser quase infantil na sua expressão desportiva. É um pouco o “toque e foge” ou o “a mim não-me-agarras”, que “no ecrã” não funciona e surge claramente como problemático num universo de “fábrica das emoções”..

3ª O JUDOLUTA GANHA TERRENO

Não podemos ser rígidos ao ponto de recusar a existência de uma permeabilidade e até de uma contaminação de modalidades vizinhas na evolução do judo. A história da modalidade é também a história de interações desse tipo praticamente desde a fundação por Jigoro Kano. O que estamos a assistir, nesta fase de transição, é a uma incorporação de técnicas/processos, por parte de um número cada vez maior de atletas, que esvaziam a estrutura-base da relação equilíbrio-desequilíbrio-projeção. Cada vez mais verificamos que atletas se posicionam junto do adversário e só depois, com a força dos braços e do impacto da massa corporal, procuram a projeção. A pontuação de situações de transição entre chão/em pé e em pé/chão, baseadas exclusivamente na capacidade física dos atletas, valoriza o ingrediente da força de tal ordem, que se compreende, mas que tem os seus efeitos que importa monitorizar. É fácil constatar que a luta greco-romana está a entrar pelo judo adentro.

4º A MORTE DO UCHI-MATA

Ainda há pouco tempo o uchi-mata dominava. Era rei e senhor. Nas vitórias e nos ataques sobretudo nos atletas mais altos ou, menos baixos. Estes mantêm a sua relação de amor com o seoi-nage e o (sode)tsuri-komi-goshi. Não é por acaso que vemos atletas com a estrutura física de Peter Paltchik a usar o seoi-nage com grande agilidade. Isso trabalha-se, porque na avaliação de riscos é terreno mais seguro. Mais seoi-nage, menos uchi-mata parece ser a receita de um judo a pensar principalmente na segurança .

A compensação parece vir de uma recuperação de técnicas como uchi-gari (veja a arte de Jessica Klimkait na sua utilização) e até de sasae-tsurikomi-ashi que vários atletas usaram, muitas vezes para iniciar combinações mais sudazes.

5º O PÁSSARO NA MÃO

Ter o pássaro na mão e deixá-lo escapar por falta de concentração ou de preparação continua a ser uma questão que se coloca nos combates de judo apesar da progressiva profissionalização dos protagonistas da modalidade. Em -81kg assistimos a uma disputa pelo bronze entre o atleta russo Khubetsov e o búlgaro Ivanov. O primeiro pontuou, um minuto e alguns segundos depois do início do confronto, com wazari. O seu adversário reagiu com combatividade, mas sem qualquer eficácia. Nunca colocou em risco Khubatsov. Este, no entanto, foi acumulando penalizações, deixou-se submergir pelo atleta da Bulgária e acabou por ser penalizado de forma fatal tendo perdido a medalha em favor do seu opositor.

6ª PAIXÃO PELA INDISCIPLINA

No plano da segurança, de notar a grande indisciplina de um número significativo de atletas que desrespeitou uma regra criada pelas circunstâncias que indica a necessidade dos competidores, depois da indicação do vencedor e da saudação final, se afastarem sem qualquer outra interação e regressarem ao ponto de entrada no tapete. Observámos atletas a ultrapassarem as intervenções dos árbitros visando o seu afastamento sem contacto. Vimos até, alguns, surpreendendo os juízes, avançarem, abraçarem-se e congratularem-se mutuamente. Quem pratica judo sabe que no final de qualquer combate o agradecimento ao adversário é algo de sentido. Tendo perdido ou ganhado. Aqui está uma “indisciplina” que vem do coração e podemos ter a certeza que é “indisciplina” para continuar e durar.

7ª RINER OU PORQUE GOSTAMOS DE BASAEV

Não é pelo gigante gaulês ter nome à americana que Basaev nos cai no goto. Não, até porque Teddy, na linguagem dos contos para crianças, é um gigante bom. Mas não deixa de ser estimulante observar um atleta de estatura baixa (relativizando com o seu opositor) que inicia um confronto com um titã atacando uchi-gari, tentando seoi-nage e finalizando uma sequência de ataques com yoko-otoshi. Riner foi implacável e marcou wazari logo de sguida. Basaev repetiu a dose seoi-nage por três vezes, no último levou o gigante ao chão com alguma eficácia. E foi sobre um ataque uchi-gari do russo que Riner ganhou ascendente e concluiu o combate a seu favor. Porque gostamos de Basaev? Por fazer tudo o que está ao seu alcance para derrotar o seu adversário e não recuar, não desistir. Basaev recorda-nos que o judo é sempre judo, mesmo contra gigantes.

8ª UMA ARMADA SEGURA

Foram anunciadas armadas de grande porte para Doha. Grandes potências do judo com representações muito fortes. Os resultados nem sempre corresponderam ao desejado ou esperado. A Itália desapareceu na luta pelas medalhas e até dos lugares de destaque e registámos a presença do Kosovo, pequeno país dos Balcãs num 6º lugar final com medalhas de ouro e bronze.

Nestas contas finais, Portugal surge com um resultado de grande valor. Três quintos lugares constitui uma boa performance que confirma a seleção lusa como uma “armada segura”. Catarina Costa, Telma Monteiro e Jorge Fonseca deram este prémio de qualidade ao judo português e a “armada vai continuar a sua navegação” até Tóquio, nos Jogos Olímpicos.

9º O QUE DIZ ADAMS

Não deixa de ser curiosa a forma como Neil Adams, a Voz do Judo como é geralmente evocado, se referiu a Jorge Fonseca no enquadramento do combate de disputa do 3º lugar do atual Campeão do Mundo da sua categoria. Adiantou que o atleta português é o mais perigoso de todos os competidores nos 30 segundos iniciais da contenda por ser imprevisível e ser tendencialmente explosivo. Mencionou-o como sendo um competidor com muita experiência e com imenso caracter. Jorge Fonseca não precisa de elogios para ser valorizado, mas vindo de quem vem, sabe sempre bem.

Carlos Ribeiro |JudoLab-001

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