ALMA JUDOCA | Quando os Dan são um assunto de família

JUDO MAGAZINE | 21 de janeiro 2021 | Alma Judoca | Entrevista cruzada entre Hugo e Daniel Viegas

Pai e filho cintos negros de judo. Poderia ser tema para uma abordagem exploratória da nossa rubrica JudoLab, considerando que a matéria é relevante para a investigação e o desenvolvimento da modalidade. A sociologia do judo teria muito a pesquisar atendendo ao elevado número de casos que povoam o judo nacional.

Algumas destas duplas apresentam uma elevada notoriedade no campo competitivo, no terreno do dirigismo e finalmente no plano técnico com treinadores prestigiados, pais e filhos-filhas, que dirigem projetos de clubes há décadas com sucesso.

O Hugo e o Daniel surgem aqui como uma referência simbólica desta realidade que constitui um dos pilares do judo em todos os territórios do país. Não diríamos que os praticantes de judo são uma família. A formulação surge imbuída de paternalismo e aproxima-se demasiado da linguagem das corporações com vocação moralista, mas que no judo cresce-se em família, isso é inegável e essa dinâmica familiar constitui uma energia muito forte e particularmente valiosa no desenvolvimento da modalidade.

Oiçam o Hugo e o Daniel falar e conversar entre eles. Dois judocas, dois cintos negros, pai e filho, filho e pai. Esta entrevista cruzada também simboliza um sistema de relações que combina de forma harmoniosa valores como o respeito e a autonomia Ou seja, isoladamente o respeito pode derivar em subjugação ou submissão. Combinado com a autonomia, dá este resultado magnífico: respeitamo-nos mutuamente na autonomia e na cooperação judoca e familiar.

Hugo – Queres contar a tua história de como começaste no Judo?

Daniel

Ainda bem que ele insistiu

Daniel – Com 4 anos o meu pai tentou colocar-me a fazer judo na escola mas eu não gostei, então ele levou-me para o Ginásio Clube do Sul, ai até fazia birra para vestir o judogi.

Mas mesmo assim ele não desistiu levou-me ao nosso clube atual, Clube de Judo – Construções Norte Sul, ai a guerra foi entrar no tatami (tapete)  mas a Professora Mariana Contreiras lá conseguiu convencer-me e depois de me ter habituado agora não quero outra coisa. Ainda bem que ele insistiu hoje posso dizer que fui campeão nacional de judo e sou cinto negro e isto vou levar para a vida toda

Hugo – Como é que consegues separar o pai do treinador nos treinos?

Basta um simples olhar ou gesto

Daniel – Separar o pai de treinador tanto nos treinos como na competição não é uma tarefa fácil.
No início não conseguia separar muito bem o pai do treinador, mas fui aprendendo ao longo do tempo, nos treinos sempre tratei o meu pai por mestre.

É claro que também existem desvantagens, como por exemplo quando estou a fazer algo em casa e o meu pai está a estudar algum movimento, o que acontece com alguma frequência, vem chamar-me para experimentar um novo movimento e lá acaba o meu sossego, com projeção atrás de projeção.

A vantagem de sermos tão próximos é a cumplicidade ser tão grande, e que basta um simples olhar ou gesto para saber o que devo fazer quando estou a combater numa competição.

Hugo e Daniel

Daniel – Como foi teres alcançado o cinto negro – 1º Dan?

O meu agradecimento isto tanto na graduação para 1º como 2º dan e foi um orgulho enorme conseguir cumprir um objetivo adiado por tanto tempo.

Hugo – Eu comecei no judo muito cedo na SFUAP e cheguei a cinto castanho, mas em determinada altura lesionei-me e tive de parar durante uns meses, entretanto comecei a trabalhar comecei a universidade em pós-laboral e o tempo vai passando e o Judo foi ficando para trás.

Quando finalmente consigo que tu inicies no Judo eu também volto a treinar e parecia que não tinha parado durante 15 anos, o conhecimento ainda estava quase todo lá, passado pouco tempo o meu Mestre Vitor Caetano propõe-me para passagem a 1º Dan e eu vou fazer o curso de graduação.

Foi uma excelente experiência adquirir um conhecimento mais profundo e mais pormenorizado das técnicas com alguns Mestres referências do Judo Nacional.

Daniel – Quais são os teus maiores sonhos como treinador?

Levar os atletas até onde eles sonham chegar desportivamente

Hugo – Eu nem chamarei de sonhos, chamo de objetivos e têm duas vertentes que caminham lado a lado, um primeiro é ver os meus atletas a se formarem como adultos íntegros, responsáveis, bons alunos, bons profissionais e se eu através do Judo ajudar neste caminho um dos objetivos está cumprido.

O segundo é conseguir levar os atletas até onde eles sonham chegar desportivamente, é claro que só deitar na cama e sonhar não chega é preciso trabalhar muito para lá chegar. Se cumprir este objetivo e num futuro tiver os filhos destes atletas como meus alunos será um prazer e um orgulho enorme.

Quais são as tuas referências mundiais?

Hugo – Toshihiko Koga e Kosei Inoue, o Inoue tanto como atleta como treinador, a forma rápida como ele conseguiu elevar o Judo do Japão outra vez a maior potência mundial foi fantástico.O Koga porque o meu Tokiuwaza (técnica favorita) são os Seoi Nages e gosto muito da forma como ele os executa.

Daniel – Eu não tenho um atleta favorito, eu sinto uma grande semelhança entre o meu judo e o do koga pois o meu Tokiuwaza é o Seoi nage mas também gosto muito do judo do Hifumi Abe baseado em Seoi nages também.

Entrevista cruzada realizada por Hugo e Daniel Viegas que demonstraram competências para um autêntico 1º Dan em jornalismo cidadão.

Editado CR – Judo Magazine | Fotos © Hugo Viegas

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