Arbitrar é dizer o que se está passar

ALMA JUDOCA | Árbitro IBSA – Eduardo Garcia | Entrevista

O Marriot Baku Hotel Boulevard conheceu uma agitação fora do comum nos dias da realização do Grand Prix organizado pela IBSA – Federação Internacional dos Desportos para Cegos e a tranquilidade só regressou com a conclusão do evento e com a partida dos protagonistas da prova que, ao todo, acabou por reunir cerca de 180 pessoas. Não foi o caso para Eduardo Garcia, árbitro internacional de judo, que enquanto não recebeu no seu quarto o documento que atestava o resultado negativo do teste ao COVID-19, e consequentemente poder viajar livremente, não ficou tranquilo.

Foi no meio da inquietação da chegada do atestado do laboratório e da partida com armas e bagagens para Lisboa que Beatriz Martin entrevistou o prestigiado juiz da modalidade para a JUDO Magazine. O objetivo foi antes de mais conhecer, a quente, as reações de Eduardo Garcia sobre a prova da IBSA que Baku, capital do Azerbaijão, acolheu com bom nível de organização.

Beatriz Martín, que foi Alma Judoca muito recentemente na JM, quis revelar-nos as situações de arbitragem mas também a própria condição e o percurso do árbitro que conta na sua experiência internacional a presença em três Jogos Paralímpicos.

Beatriz Martin | Entrevistadora

Beatriz entrevista Garcia

por Beatriz Martin

O seu amor pelo judo, vem de longa data, foi crescendo sempre com ele. Degustou o facto de ser judoca em todas as suas vertentes, atleta, treinador, árbitro e competidor. O seu coração foi feliz em todas e nelas obteve recompensa pela dedicação que lhes deu. É um homem de agir pela sua cabeça, todos destacam isso. Mas tem um coração tão grande que a sua força interior até mete medo. Tem 60 anos, 54 de judo. Podíamos contar as medalhas que ganhou, os torneios que arbitrou ou os atletas que treinou mas o que lhe faz realmente ser único e especial é a sua capacidade de liderança. Não lidera com comando mas sim com convicção e isso, todos sentem. Depois de arbitrar três Jogos Paralímpicos ainda enfrenta o tatami como no primeiro día, com suavidade, afinal “trata-se só de ler o que os dois lutadores estão a fazer”. Em Baku estreou-se como árbitro IBSA e nestes dias de maio 2021 lá voltou trás esta pandemia que o afastou, como a todos, das competições. Desde lá, desfrutamos da nossa conversa.

Beatriz Martin Qual é a tua avaliação do IBSA Grand Prix de Baku?

Eduardo Garcia – Fui para esta prova com alguma apreensão. Foram muitos meses sem arbitrar por causa da pandemia e era natural que num regresso nestas condições surgissem algumas reservas. Decidi reler todas as regras e dar particular atenção às chamadas notas a vermelho que são específicas para atletas cegos ou de baixa visão. Gosto de me preparar e de me sentir seguro. Realizaram uma reunião com todos os árbitros e o que fizeram foi exatamente aquilo que eu já tinha feito. Como já estava preparado, como é meu hábito, para mim o assunto ficou resolvido.

Convicção é essencial

BM Na prova, a arbitragem correu como desejavas?

EG – Tudo dentro do normal. Apenas uma situação concreta que tem a ver com a minha forma de encarar a arbitragem e que se relaciona com as minhas convicções. Um árbitro no tapete, a orientar um combate atribuiu uma vantagem e na mesa afirmei logo- não é! O meu companheiro de exterior do tapete, um russo por sinal, também se inclinou para a não existência de vantagem. Revimos as imagens e confirmou-se: não era! E a vantagem foi anulada. Depois do combate um dos comissários o norte-americano Gerry aproximou-se e afirmou que teria sido 100% wazari. Fomos observar na câmara dos Comissários (outro tipo de equipamento) e confirmei a minha decisão, aliás com a concordância do meu colega de mesa. Não tinha havido uchi-gari, nenhuma intenção de agir para atacar e, para mim, estava confirmado. Gerry reafirmou o seu ponto de vista e eu perguntei-lhe se queria que fosse alterada a decisão, se era uma orientação dele. À pergunta respondeu que não e o assunto ficou clarificado, cada um com a sua posição. Não é por me dizerem que eu aceito. Tenho as minhas convicções e não é fácil enganar-me nestas situações de arbitragem pura.

BM – Então a arbitragem está-te no sangue, é uma paixão?

EG – Não. Na verdade eu comecei a arbitrar porque fui obrigado. Quando era cinto azul, naquela fase da evolução do judo era necessário ter árbitros para as provas. Para passar a 1º Kyu tinha que ter o curso de arbitragem. Então fui fazer o exame, passei e iniciei uma atividade que nunca pensei que iria realizar. Fui progredindo, passei a árbitro nacional e depois a Internacional A e fui-me afirmando num terreno que não programei nem desejei especialmente. Na verdade foi na arbitragem onde fui mais longe, onde tive maior reconhecimento, principalmente no plano internacional. Na realidade o que eu gosto mesmo é de fazer tudo o que se pode e se deve fazer no judo. Quando era muito jovem e participava nas competições eu era daqueles miúdos que estavam atrás do marcador das pontuações que então era manual e sinalizava os koka, os Yuko, os shido, os chui, etc sempre que o árbitro assim o indicava.

Há provas que provocam mais emoções que outras

BM – Mas ser árbitro coloca muitas exigências?

EG – Para mim arbitrar é dizer o que se está passar. É pouco mais do que isso. Nunca me secou a garganta ou provocou humidade nas mãos como num combate de judo. Tem que haver concentração e convicção na observação que é realizada. Claro, há provas que provocam mais emoções que outras. Arbitrar nuns Mundiais ou nuns Jogos Paralímpicos tem uma carga mais forte devido à responsabilidade.

Numa situação que vivi, talvez o único erro de arbitragem que registei na minha carreira de árbitro, que teve a ver com uma situação de cansaço, não sendo responsável direto pelo que aconteceu, na verdade não agi, fiquei parado e essa inação teve consequências. Num combate que envolvia um atleta nórdico, talvez finlandês, o árbitro central indicou um chui (a segunda penalização na altura) e na verdade eu não tinha ouvido ou registado a penalização anterior (shido) que tem precedência sobre aquela que foi indicada pelo árbitro. Naquele tempo os árbitros laterais sentavam-se em cadeiras nas pontas da área de competição e como não vi nenhuma reação do meu colega e não vi ninguém no espaço geralmente ocupado pelos treinadores (que normalmente protestam quando surgem situações destas) fiquei calado pensando que não tinha ouvido, em consequência do cansaço, a primeira penalização. O adversário deste competidor venceu o combate e no final o comissário, espanhol, veio ter comigo e antes que ele adiantasse fosse o que fosse disse-lhe eu o que tinha ocorrido. O problema foi que o atleta revelou, de uma forma muito educada, que se tivesse ganho aquele combate teria ido aos Jogos Olímpicos. Claro ainda hoje lamento aquela situação que não esqueço.

IBSA, um mundo peculair

BM – Integraste-te bem neste universo dos cegos e de atletas de baixa visão ao ponto de seres um árbitro de referência da IBSA?

EG – O meu primeiro choque foi na aldeia olímpica de Pequim. Cheguei e, logo à entrada, deparei-me com duas jovens atletas, altas, bonitas que se sentaram perto de mim. Quando tiraram as calças do fato de treino tinham as duas, pernas metálicas. De seguida vi passar um atleta em cadeira de rodas em alta velocidade e quando fui almoçar sentei-me em frente de alguém com quem troquei impressões e, o meu espanto, foi verificar que depois de abandonar a cadeira onde estava sentado, ele não tinha pernas. No mesmo refeitório um atleta estava a comer de faca e garfo com os pés.

São situações banais para quem acompanha os Jogos Paralímpicos e que nos fornecem uma preparação para as inúmeras provas que envolvem, no caso da IBSA, cegos e atletas de baixa visão.

Verticalidade

BM – Mas para ti a arbitragem conta muito na tua vida?

EG – Como nasci pobre a arbitragem proporcionou-me algo a que nunca teria acedido que é ver provas de judo internacionais à borla. Ou seja, viajo e desloco-me regularmente porque vou arbitrar e claro é algo que me agrada. Mas não dou muita importância. Quero sobretudo fazer bem aquilo que sei fazer. Nunca aceitei situações menos claras ou com orientações duvidosas. Estive numa Taça dos Campeões Europeus, na Alemanha, que envolvia um clube da Geórgia e a disputa estava renhida. Um elemento importante da arbitragem daquele país de leste aproximou-se e informou que os combates estavam a ser transmitidos em direto, que havia muita expectativa sobre o resultado e claramente a fazer passar uma mensagem. Depois de o colocar no devido lugar e ter recusado continuar a ouvi-lo com aquela conversa telefonei ao responsável da arbitragem e denunciei a situação.

Da mesma forma que a nível nacional quando fui responsável pela Comissão Nacional não deixei que pressões e até ameaças sobre votos e eleições influenciassem decisões sobre qualquer situação que fosse.

Tocaram. A campainha fez soar o seu sinal de mini-carrilhão e um funcionário do hotel era portador da certidão do teste COVID-19. Eduardo Garcia estava a obter informalmente o seu segundo passaporte para poder regressar a Lisboa. Foi também o momento para que Beatriz o libertasse da entrevista e desejasse um bom regresso.

Agora o Marriot estava totalmente tranquilo.

Fotos: cedidas por Eduardo Garcia

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