1972, Munique

VÊM AÍ OS JOGOS! Munique1972 | António Roquete à JUDO MAGAZINE

Os Jogos de Munique, na ex-RFA República Federal Alemã, em 1972, foram os jogos da paz e da guerra. Da paz porque os alemães tinham estabelecido o objetivo de fazer de Munique 1972 um evento global de valorização das ideias de paz e de harmonia entre os povos e na primeira semana tudo correu nesse sentido e, de guerra, porque os atos terroristas do Grupo Setembro Negro, que deu origem ao massacre do 5 de setembro, criaram um autêntico cenário bélico na aldeia olímpica e posteriormente no aeroporto que deveria ter servido para fuga dos palestinianos agressores.

António Roquete, atleta olímpico português que se fazia acompanhar por outro competidor Orlando Ferreira do Judo Clube de Portugal, relatou-nos que viveu a situação de perto e que teve mesmo oportunidade de observar o chefe dos terroristas em ação. Um acontecimento que teve no seu epicentro a delegação israelita, composta por desportistas e vários outros acompanhantes. Foram raptados e mortos posteriormente. Alguns foram liquidados ainda na aldeia olímpica na fase do assalto às residências da comitiva de Israel.

O judo em Munique

Medalhas de ouro – campeões olímpicos: Takao Kawaguchi (-63kg), Toyokazu Nomura (63-70), Shinobu Sekine (70-80 kg), Shota Chochoshvili (80-93 kg), Willem Ruska (+93kg) e em todas as categorias/Open de novo Willem Ruska.

Três títulos para o Japão, um para a URSS e dois para os Países Baixos, com Ruska o sucessor de Geesink.

Nas categorias nas quais participaram os atletas portugueses António Roquete e Orlando Ferreira as classificações foram as seguintes:

JUDO 63 – 70KG HOMENS RESULTADOS

  • Ouro JPN Toyokazu Nomura
  • Prata POL Antoni Zajkowski
  • Bronze GDR Dietmar Hötger
  • Bronze URS Anatoli Novikov
  • 5 FRG Engelbert Dorrbrandt
  • 5 HUN Antal Hetenyi
  • 7 TPE Yong-She Wang
  • 7 SUI Reto Zinsli
  • 9 MAD Justin Andriamanantena
  • 10 AUT Gerold Jungwirth
  • 10 FRA Patrick Vial
  • 12 POR Antonio Roquette Andrade

António Roquete tinha pouco mais de 17 anos há época e teve uma primeira experiência olímpica que não esquece “O primeiro combate foi contra um atleta da Mongólia, Baatarjav Damiran. Batalhei e acabei por ganhar. Era importante por ser o primeiro combate. Confesso que o contacto com pessoas com outro tipo de fisionomia impressionava-me. O mongol tinha uma cara que aterrorizava um pouco, mas venci e passei para a fase seguinte. Desta feita o meu adversário foi o alemão da RFA Engelbert Dorrbrandt. Acabei por perder e o germânico finalizou a prova em 5º lugar”.

Patrick Vial, um campeão francês bem conhecido dos judocas portugueses, terminou em 10º lugar

JUDO 70 – 80KG HOMENS RESULTADOS

  • Ouro JPN Shinobu Sekine
  • Prata KOR Seung-Rip O
  • Bronze GBR Brian Albert Thomas Jacks
  • Bronze FRA Jean-Paul Coche
  • ….
  • . 19 POR Orlando Ferreira

Roquete para além de Munique

António Roquete participou em 4 Olimpíadas – Munique, Moscovo, Montreal e Los Angeles como atleta e como treinador nacional em mais duas, Seoul e Atlanta.

Trata-se da primeira grande referência do judo nacional em provas internacionais. Roquete foi a nossa primeira Telma. Os resultados obtidos em Campeonatos e Torneios europeus abriram o caminho da afirmação do judo português além-fronteiras.

“Teremos dado um contributo para o que está a acontecer agora com os sucessos do judo nacional, abrindo as portas de uma certa credibilização internacional” adiantou-nos o atual treinador dos Bombeiros dos Estoris que é o símbolo de uma geração de atletas que cresciam desportivamente muito a partir do seu próprio empenho e esforço e com uma reduzida base de apoio.

“Treinava no Algés, que era na altura orientado pelo José Costa Branco, três vezes por semana e depois no meu próprio clube, com os meus alunos, às terças e quintas.” recorda Roquete. “Não havia torneios de preparação. Íamos diretamente aos Campeonatos da Europa. Mas fico muito contente e até de coração cheio com as vitórias e resultados tão marcantes como os da Telma Monteiro e do Jorge Fernandes. Admito que o papel do Pedro Soares tenha sido muito relevante no sucesso do Jorge Fonseca. Fui treinador do Pedro e considero que ele era na altura um dos melhores do mundo. Tivemos a sorte de ter atletas com este gabarito a nível internacional”, salientou com satisfação.

Atletas nos JO Moscovo. Antonio Roquete, José Branco e João paulo Mendonça

“Nas minhas outras participações olímpicas, para além de Munique, em Montreal realizei um combate com o japonês que perdi por decisão. Fiz o primeiro e o último ataque e no chão nunca houve supremacia do nipónico, na verdade não se passou nada de significativo. Apesar da derrota (não iam dar uma decisão a um português, de um pequeno país, em detrimento da potência que era o Japão) no final o público levantou-se em palmas e isso foi gratificante. Em Moscovo ganhei dois combates e perdi com o francês Tchoullouyan de uma forma quase infantil. Pela primeira vez decidi realizar um combate tático. Gerir bem a primeira fase e atacar forte na segunda. Estava muito bem, mas cometi um erro que foi o de ficar com um joelho no chão e admitir que o árbitro ia mandar para o combate. Um pouco como no futebol quando o defesa considera que o árbitro vai assinalar fora-de-jogo e não se faz ao lance com o adversário. Conclusão levei com um o-soto-gari e o respetivo ippon para o francês. Já em Los Angeles fui porta-estandarte e disso não me esquecerei nunca” concluiu.

Bernard Tchoullouyan foi Campeão do Mundo e medalha de bronze em Moscovo, tendo falecido em 2019.

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