E AGORA? | Ontem já era tarde

TÓQUIO 2020 | RESCALDO e olhares sobre o futuro

Paulo Nogueira, treinador de judo na Escola de Desporto do Grupo Recreativo Gonçalvinhense (Mafra) dá o pontapé de saída num debate e numa reflexão que se impõe no rescaldo dos Jogos Olímpicos de Tóquio. A démarche do dirigente mafrense na abordagem às questões críticas do tema é interrogativa apenas para nos envolver no seu percurso reflexivo porque, percebemos rapidamente, a sua mensagem é afirmativa e interpela os responsáveis pelo desporto nacional no sentido de uma rápida mudança nas formas de agir.

por Paulo Alexandre Nunes Nogueira

Jogos Olímpicos 2020 – Tóquio

Os melhores resultados desportivos de sempre

Qual é ou será o verdadeiro impacto dos melhores resultados de sempre de Portugal nos Jogos Olímpicos?

Foram 4 medalhas (uma de ouro, uma de prata e duas de bronze), mas podiam ser mais, pois a diferença entre ter ou não uma medalha é tão pequena que podíamos dizer que desta vez, as medalhas ganhas estão mais próximas do Real valor do Desporto de Alto Rendimento em Portugal.

Se no Rio de Janeiro, em 2016, tivemos 1 medalha e 10 diplomas e não conseguimos atingir os objetivos preconizados na altura, agora, em Tóquio as 4 medalhas, 15 diplomas e 36 lugares entre os primeiros 16 classificados, acabam por corresponder e ultrapassar os objetivos que foram determinados pelo Comité Olímpico de Portugal para estes Jogos Olímpicos.

Mas afinal o que mudou?

Foram os 18,5 Milhões investidos nestas olimpíadas, mais 2,5 Milhões que os gastos pelo Comité Olímpico de Portugal para os Jogos Olímpicos de 2016 que fizeram a diferença?

Foram os milhões, que durante estes últimos 5 anos as Federações receberam para os Programas de Desenvolvimento Desportivo através do Instituto Português do Desporto e Juventude, I. P. que fizeram a diferença?

Ou os Milhões investidos pelas Autarquias nas atividades e equipamentos desportivos?

Foi a gestão rigorosa e profissional dos dinheiros públicos por parte das entidades desportivas com responsabilidades na participação dos Jogos Olímpicos que permitiram a obtenção dos resultados observados?

Ou foi mais uma vez, uma consequência do trabalho solitário e ao mesmo tempo extraordinário de algumas entidades, treinadores e atletas portugueses que abdicam de quase tudo em prol da excelência desportiva que em mais nenhum setor da sociedade portuguesa é observável?

Quando analisamos e cruzamos alguns dados do Instituto Nacional de Estatística para o Desporto, que refere que em 2019, as empresas ligadas ao sector desportivo geraram 2,1 mil milhões de euros de volume de negócios e que este dá emprego a 38,5 mil pessoas (0,8% da população empregada), com os resultados de excelência registados em Tóquio não conseguimos entender a inexistência de destaque autónomo do Desporto na Agenda Estratégica Portugal 2030 e Plano de Recuperação e Resiliência.

As medidas e apoios ao Desporto acontecem de forma desligada e pouco ou nada coordenada entre todos os intervenientes neste sector económico, social e ambiental importante que cruza vários sistemas de relevante importância para a qualidade de vida da população.

Qual é o Plano Estratégico para o Desenvolvimento Desportivo em Portugal para 2030?

Ontem já era tarde. É fundamental construirmos e dar a conhecer qual é o Plano Estratégico para o Desenvolvimento Desportivo em Portugal para 2030, quais são os eixos de intervenção e objetivos para o incremento da prática física e desportiva junto dos portugueses, valorizando o Desporto como meio de desenvolvimento sustentável.

As medidas e programas a adoptar pela tutela e todos os intervenientes deste setor têm de conhecer os elementos promotores do desenvolvimento desportivo para que não continuem a existir as observáveis discrepâncias entre os objetivos do programa do Governo e a Agenda Estratégica Portugal 2030, referenciadas no Estudo apresentado recentemente pela PWC. Em Tóquio tivemos a terceira maior representação nacional em Jogos Olímpicos e os melhores resultados desportivos de sempre, após uma difícil situação pandémica delicada, ainda vivenciada, com impacto económico, social e ambiental negativo, que acabam por revelar a enorme capacidade dos portugueses em se adaptar e encontrar nas dificuldades o “input” necessário à transcendência.

Temos de aproveitar o impacto destes resultados para organizarmos o Sector do Desporto de uma forma racional, para não continuarmos a depender de algumas pessoas que fazem acontecer, quando sabemos que temos e somos capazes de fazer ainda mais se todos trabalhassem em prol de um objetivo comum maior, colocando e assumindo o Desporto como setor autónomo de destaque nas decisões políticas de um país que tem os índices de prática física e desportiva mais baixos da Europa.

Vamos acreditar que estes resultados vão finalmente ter o impacto necessário para a Mudança que todos os que estão ligados a este sector aguardam a alguns anos?

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