Somos camaleões, adaptamo-nos facilmente a qualquer área profissional

ALMA JUDOCA | Pós-Alto Rendimento | Entrevista com Ana Monteiro

Os Jogos Olímpicos deram lugar aos Jogos Paralímpicos em Tóquio e os atletas que participaram ou vão participar nas provas do maior evento desportivo do planeta vão ter destinos diferentes. Para uns a continuidade de um projeto desportivo no Alto Rendimento, certamente com Paris 2024 no horizonte, para outros o fim de uma carreira de atleta que competiu ao mais alto nível e vai abraçar um novo ciclo da sua vida.

O que é que o destino reserva a cada um deles? O que terá sido planeado e assegurado para esta nova situação? Que incertezas estarão presentes nos próximos meses e eventualmente anos? Poderá surgir algo das estruturas que enquadraram desportivamente cada atleta ou há uma separação de águas e o pós-alto rendimento não se encaixa na sua missão?

E depois do Alto-Rendimento?

Ana Monteiro

Ana Monteiro porta-estandarte

Ana Monteiro foi a nossa interlocutora nesta matéria crítica e de importância maior para todas as modalidades e para o judo em particular. Como a sua irmã, que foi porta-estandarte em Tóquio 2020, Ana não se importa de o ser para para uma causa que ela entende como fundamental para um desenvolvimento harmonioso dos desportistas como cidadãos e seres humanos.

Formada em Serviço Social, Ana Monteiro atende aos diversos fatores que se apresentam nesta problemática e pretende abordar o assunto numa perspetiva holística “na fase de competição existe um acompanhamento, por sinal bem estruturado, a todos os níveis das necessidades dos atletas. Estes dispõem de treinadores, dirigentes, médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e até psicólogos para apoiar. Existe um verdadeiro e eficaz sistema de acompanhamento. Todo esse enquadramento desaparece quando o atleta termina a sua carreira como competidor. A partir daí é o salve-se quem puder!” adiantou-nos a judoca que para além de uma experiência muito significativa no quadro da seleção nacional, com várias presenças no pódio em Campeonatos e Torneios internacionais, tendo tido ainda uma impressionante participação na Bundesliga ao serviço do clube alemão, é hoje treinadora das classes mais jovens e exerce uma atividade profissional de consultora imobiliária.

O que fazer?

“Noutros países como o Brasil, Itália, França estas situações são consideradas de forma atempada e ainda antes dos atletas cessarem a sua atividade competitiva já estão a ter enquadramentos informais no quadro dos serviços do Estado e muitas vezes ligados à estrutura militar ou policial” informou Ana que conhece bem a realidade de alguns países por ter contactado com atletas de alta competição de todos os continentes.

Surge desta forma um pouco irónico o pedido de Jorge Fonseca que ao conquistar o seu título mundial colocou publicamente o seu interesse no ingresso na Polícia fazendo-o como se de um pedido se tratasse e revelando, de alguma forma, que não teria havido preocupação em acompanhar a sua pretensão para o apoiar na melhor forma de o fazer.

Para Ana Monteiro a ausência de um dispositivo de acompanhamento pós-competição é uma dupla perda para a sociedade. Para o próprio atleta e para as entidades que poderiam beneficiar da colaboração de alguém que “tem um mindset muito especial. Um competidor de alto nível adquiriu um conjunto de capacidades associadas à resistência, ao sofrimento, à persistência, ao esforço para atingir objetivos, que toda e qualquer organização deveria estar desejosa de poder mobilizar essas competências em seu favor”.

Pontes que importa construir

“Somos camaleões. Nós adaptamo-nos a qualquer circunstância e quadro de exigência. A área de atividade futura não tem que ser taxativa e única. Pode ser em diversos domínios profissionais. O que interessa é que existam oportunidades” assim clarificou Ana a sua visão sobre uma questão de fundo do desporto nacional cuja resolução passa por serem estabelecidas pontes que dependem da boa vontade e da sensibilidade das estruturas coordenadoras do desporto nacional e do prório governo.

Fotos, fonte Ana Monteiro e Imagem SIC

1 thought on “Somos camaleões, adaptamo-nos facilmente a qualquer área profissional

  1. Excelente reportagem da Ana Monteiro. Revela uma preocupacão real da “pós-existência” esportiva, assunto que deve ser mais explorado e contextualizado! Grande abraco e sucesso, ….Sérgio Oliveira.

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