O Tóquio 2020 do uke de Djibrilo

JOGOS PARALÍMPICOS | Tóquio 2020 |

por Jorge Fernandes

Os Jogos Olímpicos são o objetivo e sonho de uma vida para todos os desportistas que fazem competição. Paralelamente a isso temos os Jogos Paralímpicos, o equivalente aos Olímpicos para aqueles que por alguma deficiência física ou mental não têm condições de uma prática desportiva e competitiva que se enquadre nos desportos olímpicos, que são o expoente máximo no desporto adaptado.

A partir do momento que aceitei o desafio de ser técnico assistente desportivo de um atleta paralimpico e apesar da minha função ter pouco impacto na preparação do atleta, decidi fazer o que fosse possível para que a preparação e a competição corressem da melhor forma e ir ao encontro dos objetivos do atleta Djibrilo Iafa e do seu treinador Jerónimo Ferreira. A minha integração com o atleta, em treinos, estágios e competições, começou em novembro e desde então tenho-o acompanhado sempre que possível nos treinos e rotinas.

Excelentes condições de treino

A chegada ao Japão, à cidade de Fujisawa para aclimatação e estágio, foi dia 15 de agosto e foram dadas as melhores condições à equipa portuguesa. No caso do judo tínhamos um excelente dojo montado no edifício junto aos dormitórios, exclusivo para a equipa portuguesa, e um ginásio com tudo o necessário para que os últimos dias da preparação para os Jogos Paralímpicos corressem o melhor possível.

Chegados à aldeia olímpica/paralímpica, mais uma vez as condições eram excelentes, não fosse o local de treino o Kodokan. Por questões de segurança os treinos tinham que ser agendados previamente com o local desinfetado e com um conjunto de regras de higiene a cumprir entre as quais testes diários à COVID19.

Deficiências visuais muito diferenciadas

A competição paralímpica de judo contempla atletas com deficiência visual divididos em 3 níveis de dificuldade visual, B1, B2 e B3, sendo B1 cego total, como o atleta português Djibrilo Iafa, e B2 e B3 baixa visão. Aqui surge uma situação controversa entre os participantes porque os atletas B2 e B3 têm clara vantagem em relação aos atletas cegos totais, mas competem todos em conjunto.

Podemos perceber essa desvantagem através do medalheiro já que das 52 medalhas atribuídas nestes jogos, apenas 4 foram atletas B1 tendo sido 3 bronzes (-60kg, -100kg e -52kg) e 1 prata (-52kg).

Numa abordagem mais pessoal deste tema, é facilmente percetível esta diferença observando os atletas no aquecimento ou mesmo em situação de luta. Por várias vezes vi atletas B3 e até B2 a correrem desviando-se de chinelos, mochilas e peças de roupa no chão, como se de uma pessoa sem qualquer problema de visão se tratassem. Indo acompanhar um atleta B1, que não é capaz de se deslocar para o tapete sem ajuda e muito menos de se desviar de obstáculos, esta disparidade de capacidades visuais cria naturalmente algum sentimento de injustiça por desvantagem.

Podemos ir mais longe

Em termos da qualidade dos judocas em competição, entende-se que se trata de um nível que é inferior aos jogos olímpicos. Para além disso, o número de praticantes no judo adaptado é relativamente baixo devido à dificuldade que está inerente à diminuída capacidade visual dos atletas. O tipo de técnicas executadas é diferente necessitando sempre de manter kumi kata ou contacto com o adversário e utilizando apenas sensações que daí advêm e não através da visão. No entanto, apesar desta situação, o nível é bom e ainda com bastante margem de progressão a nível internacional, mas mais concretamente a nível nacional, onde há alguns atletas já inseridos nos treinos da seleção nacional com bastante capacidade de obtenção de resultados internacionais no futuro.

Creio que o judo nacional tem toda a capacidade para, através de um planeamento adequado às especificidades dos combates de judo adaptado, não só, apurar mais atletas para os Jogos Paralímpicos como ambicionar lugares entre os melhores nas grandes competições.

Dois tipos de atletas

A minha principal conclusão em relação aos Jogos Paralímpicos é que existem dois tipos de atletas a participar. Aqueles que, independentemente da presença de uma deficiência, procurariam sempre ser atletas de topo demonstrando grande entrega e estando sempre dispostos a levar o seu corpo ao limite.  E outros que tendem a ser mais protegidos pela equipa técnica que os rodeia saindo pouco da zona de conforto furtando-se a atingir níveis elevados de treino para evitar cansaço extremo,  parte do processo de treino. Assim, podemos ver atletas de excelência que desafiam tudo o que pensamos ser possível e atletas para os quais a presença numa competição destas já é uma enorme e suficiente vitória e que a primeira preocupação é manter um nível de vida de conforto aliado à prática desportiva.

Concordo  que a prática desportiva constitui uma excelente forma de melhorar a vida de todos. Mas o alto rendimento e os Jogos Paralímpicos são níveis de grande exigência que requerem que se saia da zona de conforto e se procure levar o corpo a extremos para, desta forma, atingir a superação e excelência desportiva, lema olímpico.

Experiência enriquecedora

Para mim, enquanto “uke” do alteta Djibrilo,  tratou-se de uma experiência bastante enriquecedora, tanto a nível pessoal como a nível desportivo, onde aprendi bastante e que mudou muito a minha forma de ver o desporto adaptado de alta competição. Mais uma vez, quero deixar uma palavra de agradecimento a quem possibilitou esta minha participação nos Jogos Paralímpicos e principalmente ao atleta Djibrilo Iafa com a certeza de que, continuando com o empenho demonstrado, os resultados irão começar a aparecer de forma regular.

Jorge Fernandes no Kodokan

Jorge Fernandes, Assistente Técnico e Acompanhante de Treino (Uke) de Djibrilo Iafa nos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020.

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