Nas katas, há um grande potencial em Portugal

CAMPEONATO DO MUNDO DE KATAS | Lisboa 26-28 de outubro 2021

ENTREVISTA JUDO MAGAZINE | Michel Kozlowsky

Recentemente realizou-se um Estágio de Katas no qual participaram mais de uma quarenta treinadores, peritos e praticantes oriundos dos quatro cantos de Portugal. Michel Kozlowsky, Diretor Desportivo da Federação Internacional de Judo neste domínio especializado, orientou o encontro realizado em Coimbra.  

Fomos ao encontro do perito belga que nos acolheu com grande amabilidade e que nos recordou que constitui um erro clássico considerar as katas como uma área à parte, separada da competição e das restantes vertentes do judo. Segundo o nosso anfitrião a competição ganha com uma relação direta com as katas e vice-versa. Para ilustrar esta afirmação, Michel Kozlowsky declarou-se um competidor que por meras circunstâncias pessoais não participa em competições. Para o nosso interlocutor o judo é um todo, não nos devemos esquecer disso. 

JM – Quais foram os objetivos do Estágio de Coimbra e que resultados foram obtidos? 

MK – Fui convidado pela Federação Portuguesa de Judo e o Pedro Gonçalves foi o mediador desta minha presença em Portugal. Foi-me solicitado que abordasse o tema da arbitragem/júri nas provas de katas e consequentemente que realizasse uma formação focada nos critérios de avaliação. No fundo colocar-se numa posição de juiz, saber o que deve ser avaliado e como fazê-lo. A intenção foi aprofundar o tipo de conhecimentos que um juiz deve possuir para exercer a sua função com qualidade. 

Realizámos uma passagem pelos temas da organização e de seguida avançámos para uma abordagem mais específica da arbitragem pegando nos grandes princípios do regulamento. Como é sabido os erros estão classificados em 5 níveis. Há aqueles que são particularmente relevantes e que pesam nos resultados, sabendo-se que o score é divido por dois. Assim nós temos os erros de princípio, os erros graves, os erros de importância média, os erros de pequena dimensão e as imperfeições. 

Foi solicitado aos participantes que se colocassem na posição de juízes e foi distribuído um formulário online. Desta forma foi possível, através da projeção de vídeos, que cada um atribuísse uma pontuação e no final todos tiveram um feedback do exercício realizado. 

Assim foi possível verificar coletivamente que existem perceções muito diferentes sobre o que é uma kata.  

JM – E como podemos classificar o nível dos praticantes e competidores de Portugal? 

MK – A experiência conta muito. Um juiz habituado a avaliar no seu país pode considerar o desempenho bastante elevado, atribuir pontuações de 9 e até de 10, mas se ele tiver acesso a competições europeias e até mundiais ele irá certamente aperceber-se do desnível e relativizará a sua pontuação. 

Nesse campo o Regulamento deve ajudar bastante os juízes porque ele determina os erros de forma rigorosa. Nós sabemos que a intenção é valorizar a performance dos atletas, mas temos que ser simultaneamente objetivos. 

É o que acontece um pouco em Portugal. Existem competidores de topo como é o caso do Pedro Gonçalves que é perito europeu e mesmo internacional e existem excelentes praticantes que precisam de ampliar os seus horizontes. Há um grande potencial em Portugal, aliás todos os participantes no Estágio revelaram grande interesse pelo tipo de abordagem realizada destes temas mais regulamentares porque nem sempre é fácil localmente aceder a estas reflexões no seu país. O Presidente da Federação Portuguesa de Judo promoveu uma reunião que nos permitiu cimentar esta ideia de trabalhar o potencial existente. 

JM – Então podemos afirmar que a evolução desta área do judo também está muito dependente de uma intensificação dos contactos internacionais? 

MK – É preciso clarificar que no início das competições de katas registava-se um grau elevado de subjetividade que remetia para a sensibilidade individual dos juízes. 

Havia na zona mediterrânica em países como a Itália, a Espanha e Portugal um certo estilo de katas, por sua vez a norte, na Alemanha, Bélgica e Países Baixos um fenómeno idêntico. Admito que tenha sido por influência dos professores iniciais. Com a competição registou-se uma certa uniformização. Houve um ajustamento das práticas em função dos critérios. As diversas culturas em presença acabaram por encontrar meios de articulação e produzir algo de positivo para todos. 

JM – E agora quanto ao Campeonato do Mundo que se realiza em Lisboa, no mês de outubro, como estão os preparativos? 

MK – Em termos de inscrições estamos bem. Já estão inscritos cerca de metade dos participantes do que é habitual. Ainda temos algum tempo à nossa frente até encerrarem as inscrições. Se a Itália, a Espanha, Portugal vierem com os competidores que costumam participar, acho que vamos ter um bom campeonato. Eu estou muito otimista.  

JM – Sobre os sistemas de avaliação que se podem apoiar nas novas tecnologias, como já acontece na competição desportiva, nas katas será que poderá haver uma evolução desse tipo?

MK – Todos os sistemas de arbitragem têm em conta o fator humano. É normal e a velha lógica de quem ganha fica feliz e quem perde fica com alguma frustração permanece quer se queira quer não.  A pandemia teve todos os inconvenientes conhecidos, mas também teve a vantagem de trazer de forma acelerada a questão do digital que também teve repercussões no judo. Tivemos vários seminários online que proporcionaram encontros entre os juízes, Trabalhámos mais do que em anos anteriores já que em vez de um único seminário anual tivemos três. Foi possível realizar oficinas, avaliações online e animar encontros de partilha. Tudo isto criou uma maior abertura de espírito. Relembro que organizámos a nível europeu a primeira competição online que deu aso a que catorze juízes a partir das suas casas realizaram a avaliação dos desempenhos. Tudo isto ao vivo a partir de smartphones, de tablets e de computadores e a possibilidade dos atletas e o público poderem acompanhar os resultados em cima da hora. Recordo que participaram 80 duplas que é um número muito significativo. 

Esta alternativa das competições online está a ser muito solicitada porque apresenta um conjunto de vantagens que importa ter em conta. 

Esta evolução estava completamente fora das previsões antes da pandemia. 

JM – Os competidores nesta área dos katas são praticantes de longa data na modalidade e apresentam características particulares? 

MK – Sim, por um lado apresentam características particulares na forma de estar e de participar nas competições. Não é raro ver quem acabe um desempenho e à saída do tapete ser envolvido em conversas, observações, comentários sobre eventuais falhas ou aspetos mais controversos. De fato não há verdadeiramente adversários tout court. É uma grande família e o ambiente é muito caloroso. Não existem categorias de peso ou critérios de idade ou de género. Há duplas mistas, só femininas ou só masculinas. É muito versátil. 

  • Vamos ter em Portugal um Campeonato do Mundo para juniores que será associado ao dos seniores. Jovens com menos de 23 anos poderão participar. É uma abertura para os mais jovens e no futuro também teremos um Handikata associado ao Campeonato do Mundo

JM – As katas e o judo de competição estão completamente separados? 

MK – Os princípios das katas aplicam-se em todos os domínios do judo. Muitas vezes é possível associar determinadas abordagens das katas para apoiar a forma de executar uma determinada técnica em competição e vice-versa. Há uns tempos dizia-se: Eh! Pá tu das katas!, isso não tem sentido nenhum. Eu fui competidor até aos 52 anos e sinto-me da fileira da competição. O judo é um todo, essa separação não tem razão de ser. 

Frederico Salgado, Fausto Carvalho, Michel Kozlowsky, José Costa e Pedro Gonçalves

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