Temos excelentes treinadores, mas podemos melhorar e ir mais longe

ENTREVISTA | Rui Veloso – Presidente da ANTJ – Associação Nacional de Treinadores de Judo |

TREINADORES DE JUDO  entrevista conduzida por Carlos Ribeiro

Rui Veloso navega entre a tradição e a inovação. Não se deixa impressionar por discursos demasiado palavrosos para o seu gosto e prefere as abordagens práticas que traduzam as mensagens em ação. Mas o seu olhar não prescinde do horizonte, da projeção sobre o futuro e neste plano mais inovador equaciona novas soluções para os desafios que vão surgindo.  

Entrevistámos o Presidente da ANTJ – Associação Nacional de Treinadores de Judo numa fase de transição para o judo como modalidade desportiva com a pandemia ainda ativa que impõe regras e cuidados que não podem ser secundarizados e com a retoma progressiva da atividade dos clubes e das restantes áreas de funcionamento da modalidade.

Apesar de tudo o planeamento das ações para o ano de 2022 é possível e desejável e ficámos a saber que os treinadores de todo o país irão ser mobilizados para iniciativas descentralizadas em torno do judo de base, uma aposta que Rui Veloso quis destacar porque surge como um contributo de natureza mais estrutural que a ANTJ quer implementar em todo o território nacional. 

JM – Ainda antes de falarmos do futuro e das ações que a ANTJ vai lançar em 2022 julgo que valeria a pena conhecer o estado da arte do treinador de judo. Como é que ele evoluíu e em que ponto é que se encontra? 

Rui Veloso – RV É verdade que a evolução foi muito grande e apesar de alguns elementos estruturais terem permanecido e serem transversais às diversas gerações, hoje temos treinadores mais bem preparados. Os treinadores da “velha guarda” promoviam um judo mais clássico no qual a competição era importante, mas não era o mais importante. Há toda uma geração de treinadores que foram inspirados por Kiyoshi Kabayashi e, tendo essa inspiração como ponto de partida a qualidade do judo praticado era inegável. Nesse primeiro ciclo o judo em Lisboa já tinha uma forte expressão, Porto e Coimbra também cresciam (importa ainda referir Beja que esteve nos primórdios da descentralização da modalidade). 

Não havia uma abordagem tão tática e tão específica para a competição, mas o judo nas suas componentes essenciais era ensinado com qualidade. 

Gostava de recordar que não basta conhecer as técnicas é preciso saber executá-las em contextos adversos. Nesse quadro a questão da tomada de decisão é central porque importa ainda executar as técnicas no momento que é mais favorável para quem as executa. 

JM – As diferenças entre gerações também resultam dos novos desafios que se colocam aos  treinadores de judo nos tempos atuais. Veja-se a recente mobilização de competências digitais para orientar aulas online e todos os aspetos de animação da prática desportiva fora do tapete. 

RV – Os treinadores precisam de contactar com os atletas, estar perto deles e até ir acompanhando os seus problemas. Isso implica uma boa capacidade de gestão dos processos de comunicação. Antes já era importante, com a pandemia tornou-se ainda mais. Nós sabemos que o contacto direto, frente a frente é mais eficaz, mas torna-se necessário recorrer aos diversos meios digitais para manter uma boa ligação. 

E não é só uma questão de ligação ou de relacionamento social. As questões do treino e da preparação física e psicológica passam muito pelas interações regulares entre atleta e treinador. Para além dos aspetos meramente técnicos o treinador tem que ter uma relação afetiva com os atletas. Isso é fundamental. No passado nós sentíamos que o treinador era muitas vezes um colega mais velho no treino. Houve sempre respeito, mesmo nessas circunstâncias mais informais, mas os  momentos lúdicos são fundamentais, 

Veja-se quando promovemos formação para os treinadores os conteúdos são centrais. Ou seja, o  que se vai aprender é o prato forte da iniciativa, mas as a parte social é essencial. Quando juntamos as duas partes é o ideal: rigor nos processos de aprendizagem e uma relação social intensa entre todos os participantes. 

JM – Verifica-se uma intensificação da mensagem que relaciona o judo com valores éticos e por vezes morais. Esta relação aumenta muito a responsabilidade do treinador de judo na formação dos atletas. Não será exagerado colocar um técnico de um desporto de massas a veicular-se a um código moral? 

RV – Em primeiro lugar, sobre a ética, constato que há muita comunicação e muitas campanhas. Mas não vejo grande impacto dessas iniciativas. Quanto a mim a formação no clube é o mais importante. É aí que se ensinam os valores. O treinador não pode abdicar de os transmitir, mas deve fazê-lo à sua maneira e tendo em conta a sua experiência. Neste caso, não são matérias abstratas e neste domínio, como noutros aliás, o exemplo é determinante.   

JM – Mas podemos admitir que existe uma mensagem normalizadora dos comportamentos sociais, não se investe tanto nesta formação dos atletas num incentivo ao espírito crítico e à criatividade. A balança pende para a norma, podendo transformar o judo num instrumento normalizador como a escola tende a sê-lo. 

RV – No judo existe muita abertura. Desde a sua fundação, através de Jigoro Kano, que se investiu numa relação do judo com uma visão não-convencional das artes marciais. O judo foi ligado à educação e à educação física em particular. Nesse plano Jigoro Kano teve uma visão modernizadora. Aliás penso que ele deveria ser inserido no top dos inovadores ao lado de outras grandes figuras. Foi um grande pedagogo. Por isso não tenho receio em relação à sua orientação em torno dos valores. 

JM – Se retirarmos então essa carga mais ideológica à função de treinador constatamos que o perfil foi-se enriquecendo e contempla hoje uma elevada diversidade de valências técnicas e de liderança. 

RV – Os treinadores foram evoluindo. Veja-se que as crianças têm hoje outras motivações. São mais exigentes. Os treinadores têm que captar os alunos com meios didáticos mais amplos. 

Na formação de base, na ANTJ, procuramos apetrechar os treinadores com ferramentas para esta nova realidade. Eles têm que se adaptar às circunstâncias e até aos territórios. Há diferenças grandes na forma de dinamizar um clube no Porto ou nas ilhas. Os aspetos culturais, as razões pelas quais os atletas praticam judo. Apesar de existirem aspirações comuns como o exercício físico, melhorar a saúde, competir, aprender a integrar-se na sociedade através de valores. Importa desta forma ter em conta as realidades culturais locais. Por exemplo o conceito de respeito no Japão poderá apresentar algumas diferenças relativamente ao nosso.

Uma coisa é certa muitos destes processos de interpretação e de adaptação passam pela formação porque hoje a noção de treino mudou e existe uma maior diversidade de atividades como a preparação digital, a saúde e a nutrição. Estes domínios devem ser objeto de formação. 

JM – E como é que a formação pode ser um importante ponto de apoio para os treinadores? 

RV – O judo como modalidade desportiva tem uma vertente competitiva e uma vertente recreativa. São objetivos diferentes e a formação deve ser orientada em função desses objetivos. 

Quanto a mim todos os clubes deveriam ter uma aula só para atletas que já não participam em competições.  

Por sua vez nos clubes há consciência que no judo competitivo o trabalho de tapete só por si já não chega. Há hoje um enquadramento mais amplo em termos técnicos que passo por preparadores físicos, fisioterapeutas, nutricionistas e até psicólogos. Alguns recorrem já a metodólogos. Trata-se de um conjunto de técnicos que cuidam de tudo aquilo que antecede um combate. O atleta quando vai competir tem que estar bem fisicamente, mas não só. É um trabalho de 24 horas e o treinador tem que gerir isto tudo 

Em tempos o Neil Adams disse que gostaria de ter um campeão olímpico, mas depois de verificar o que era necessário para cumprir esse objetivo, desistiu. E muito difícil, terá afirmado. 

Porque a vida de atleta é uma vida dificílima. Quando compete durante vários anos prejudica muitas coisas, eventualmente a vida profissional. O Estado deveria garantir para estes atletas, que deram tudo para o judo e até para o país, condições para integrarem o mercado de trabalho da melhor maneira. Já há algumas ajuda, mas é preciso uma atuação mais coerente e mais efetiva. 

JM – E em relação à gestão e animação das aulas de judo a formação pode apoiar os treinadores? 

RV – Essa gestão e animação de aulas é essencial. Os mais jovens ficam ou não ligados à modalidade em função dessas práticas dos treinadores. E precisamos de alargar a demografia. Temos boas primeiras linhas, mas queremos mais e isso faz-se com trabalho e com demografia, ou seja, com mais praticantes. 

Muitas vezes os treinadores não conseguem fazer o que desejariam realizar nos clubes porque nem sempre as condições são as melhores. Há classes muito heterogéneas, salas muito pequenas, carregar os tapetes no início e termo da aula, estão muitas vezes sozinhos, sem ninguém que os ajude.  

Mas repito é nos clubes que se faz a formação de jovens atletas. Não interessa ter praticantes a curto prazo. Tem que haver uma preparação como deve ser, com o devido ritmo e com um sentido de progressão sustentado. Não tem sentido fazer o que denominamos de “encher pneus” ou seja, agir com os atletas em função da sua potencial participação em provas nacionais.  

Queremos sobretudo que depois de terminar a fase da competição que o atleta possa ser um bom treinador, um bom árbitro e um bom dirigente. Mas para isso tem que conhecer e saber judo. 

JM – E os planos da ANTJ para 2022, o que é que está a ser planeado? 

RV – Desde 2013 que os nossos planos de atividade contemplam a formação como central. Essa linha de atuação foi iniciada por Luís Monteiro numa fase anterior da vida da associação. Devemos a ele a boa formação que fazemos agora.  No fundo damos continuidade ao que ele lançou. 

No CLINIC, trazemos sempre uma figura de proa. Trata-se da nossa realização mais significativa do calendário. Mas sentimos necessidade de outras formações. 

Temos vindo a cumprir com o planeado. Fomos a todas as associações (exceto Setúbal e Madeira) e somos recebidos sempre com muito qualidade pelas associações. Temos tido muita sorte. 

Na pandemia fizemos várias formações e não baixámos os braços seguindo o exemplo da Federação que é a nossa entidade formadora. Anulámos uma ação e adiámos outra. Este ano falta-nos uma formação que faremos no Alvito este ano cumprindo integralmente as metas. 

No próximo ano teremos um Clinic forte e vamos apostar em ações de formação sobre Judo de Base. Já realizámos experiências nesse campo com formadores de prestígio como Fausto Carvalho, Henrique Nunes e António Morais. 

O Judo de Base é transversal, importa recordar que pode-se competir e conhecer bem o JUDO BASE e saber fazer bem todas as técnicas. Se ensinamos quatro técnicas a um atleta de competição ele pode conhecê-las bem, mas nenhuma delas pode ser a mais adequada para o judo competitivo que desenvolve. Se lhe apresentarmos quarenta técnicas ele poderá desenvolver o seu estilo pessoal com mais eficácia. 

Luís Monteiro | Homenagem

JM- Para concluir, um apelo aos treinadores de judo 

RV – Recomendar formação e partilha entre colegas da mesma modalidade. 

Formação, porque temos que saber colocar os atletas em situações-problema, prepará-los para a tomada de decisão autónoma e construir esse perfil integrado com várias componentes que vão para além da área do treino meramente técnico.  

Partilha, porque vale a pena visitar colegas, assistir às suas aulas e aprender. Eu gosto muito de o fazer e aprendo sempre. 

Felizmente temos excelentes treinadores. Há muito para fazer. Mas em todas as áreas temos treinadores com boa capacidade. 

Editado 30/09 10h56

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