2021, odisseia no judo

BALANÇO 2021 e GALA DO JUDO em Coimbra

Num balanço procura-se sistematizar de forma equilibrada os resultados e as experiências de um percurso realizado ao logo do ano, colocando ênfase nos aspetos positivos verdadeiramente relevantes e destacando as áreas de menor sucesso para, no seu conjunto, retirar lições para a ação futura.

A festa prevalece

O ano de 2021 surge, neste exercício de ponderação entre os aspetos positivos e negativos da atividade, como um ano atípico. Em boa verdade o ambiente de festa que se vive não permite colocar o foco na situação dos clubes e avaliar de forma segura a situação da modalidade a nível local. Mas os resultados a outros níveis são indiscutivelmente brilhantes.

Os clubes e as organizações diversas como as escolas, os colégios e as associações que estruturam a prática do judo nos territórios vivem um período controverso e a dúvida sobre o real impacto da pandemia no judo local persiste.

Mas alguns aspetos centrais da atividade tiveram uma expressão de tal forma estrondosa que qualquer esforço de moderação avaliativa torna-se impossível ou muito condicionado. Na opinião dos mais categóricos e mais entusiastas, 2021 será um ano difícil de igualar num futuro próximo.

0 impressionante 2021

Senão vejamos:

1º Os resultados desportivos alcançaram um nível acima do que é possível esperar de uma nação do judo que não integra o lote das superpotências da modalidade;

2º A organização no mesmo ano de um Campeonato do Mundo de Veteranos e katas e de um Campeonato da Europa de Seniores constitui uma inscrição no circuito mundial da modalidade absolutamente inédito e porque não dizê-lo, inesperado;

3º A entrada no World Judo Tour através do Grand Prix Odivelas surge como uma verdadeira vitória que premeia a confiança e a competência técnica numa equipa que a FPJ foi consolidando e que está a fazer escola;

4º Os sinais de valorização do judo nacional pelas instâncias internacionais da modalidade e pelos representantes do poder político em Portugal são significativos e colocam o judo português num novo estatuto, o de parceiro, reforçando a cooperação e ainda as responsabilidades aos níveis mais elevados,

5º A notoriedade de algumas figuras públicas do judo como Nuno Delgado, Jorge Fonseca e Telma Monteiro colocam a modalidade no espaço público de forma consistente, dando lugar a uma adoção mais efetiva do judo como desporto aberto à sociedade.

Estes registos são de natureza global e surgem como autênticos catalizadores, no topo da pirâmide, de uma modalidade ainda frágil e com muitas limitações no terreno em termos de praticantes e de apoios locais.

O local a contra-corrente

No entendimento de alguns defensores de estratégias de desenvolvimento que se apoiam estruturalmente no impacto dos resultados desportivos e na notoriedade dos principais atletas estaríamos agora em excelentes condições para fazer crescer o judo no território nacional numa dinâmica de mancha de óleo progressiva.

Num olhar marcado por algum subjetivismo sobre as práticas locais nós encontramos vários pontos positivos e porque não inspiradores:

a) vários clubes conseguiram investir, negociar apoios, mobilizar boas vontades e remodelaram as suas instalações. Existem hoje, em alguns clubes do país, autênticas obras-de-arte de remodelação e readaptação que importa sinalizar;

b) clubes de judo adotaram uma estratégia de integração para o desenvolvimento e assumiram uma nova abordagem da partilha na prática desportiva em torno do conceito de Escola de Desporto. Trata-se de uma nova referência que coloca os jovens praticantes no centro do processo em detrimento de uma “amarração” exclusiva a uma modalidade;

c) clubes houve que se posicionaram ao longo de 2021 numa nova relação com as comunidades locais deixando de ser apenas participantes em algumas iniciativas geralmente impulsionadas pelas autarquias locais. Este novo posicionamento levou dirigentes e treinadores locais a aprofundarem o potencial de adaptação da modalidade às necessidades das populações e colocam o judo numa nova função de apoio à saúde, ao ambiente, à educação-formação, ao lazer, etc. No fundo fazem passar a mensagem que o bem-estar local passa por interações regulares com um desporto que não existe só para si mas antes para a comunidade no seu conjunto.

d) a valorização do coletivo tende a ganhar uma força redobrada nas práticas dos judocas e nas camadas mais jovens em particular. Surge como positivo, meramente a título de exemplo, que juvenis, cadetes e juniores celebrem as suas medalhas em grandes abraços coletivos. São cada vez menos expressivas as grandes fotografias com um ou uma medalhada individual e isoladamente. Não que não devam existir, essa é uma decisão de quem a considera úteis. Uma coisa não impede a outra. Mas o destaque estar do lado de grupos de jovens que se valorizam mutuamente pelas medalhas conquistadas, surge como mais saudável e apropriado à cultura do próprio judo.

Outros pontos de valorização

O que podemos ainda destacar do ano 2021 a nível central:

1 – Uma clara afirmação de Jorge Fernandes na condução da Federação Portuguesa de Judo como promotor de um novo ciclo para o judo nacional:

2 – A afirmação vitoriosa do MODELO DE CERNACHE que se afirmou de forma categórica como estrategicamente correto em tempos de pandemia;

3 – A confirmação de Pedro Soares como um dos grandes treinadores mundiais do judo atual;

4 – O destaque para o fim de carreira competitiva de uma atleta extraordinária, Joana Ramos, que enche os tapetes de gentileza e de espírito combativo, provocando um vazio pouco habitual na modalidade;

5 – A incontornável referência aos atletas que conquistaram títulos e medalhas, uns numa espiral vencedora alucinante como é o caso de Jorge Fonseca e Telma Monteiro, mas outros também deram a volta às adversidades ou barreiras temporárias como foi o caso de Bárbara Timo, de Patrícia Sampaio e de Anri Egutidze. Para outras e outros atletas como Catarina Costa, Rachele Nunes, João Crisóstomo, Joana Crisóstomo, Raquel Brito, Joana Diogo e muitos outros e outras o ano 2021 apresentou resultados muito diferenciados, sendo aqui indispensável destacar o 5º lugar de Catarina Costa nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020.

Gala dos homens grandes do judo

O judo cumpriu o ritual de inscrição dos seus heróis nas memórias e na história da modalidade com a Gala realizada no passado sábado dia 11. A cerimónia apresentou este ano um brilho muito especial, apesar da pandemia, tendo sido realizado no Convento de S. Francisco em Coimbra. As presenças institucionais foram significativas e 300 participantes, que vieram dos diversos pontos do país, aproveitaram para conviver e apoiar os diversos homenageados.

O Presidente da Federação Portuguesa de Judo – Jorge Fernandes destacou o reconhecimento que o judo português está a conhecer da seguinte forma:

“Esta é uma ocasião muito importante e um reconhecimento que o Judo merece. Para nós é um orgulho muito grande reunir aqui a Família do Judo, com cerca de 290 pessoas presentes. Apesar da pandemia, soubemos responder, com todos os cuidados, e marcar presença. Temos pela frente mais um ano desafiante. É como se fosse uma escada e estamos sempre a subir um degrau. Vamos ter grandes eventos em Portugal e espero que estejamos a altura e que o vírus nos ajude.”

Dos diversos homenageados queremos destacar o jornalista do ano, Miguel Candeias da A Bola, que tem realizado um trabalho de grande impacto na imprensa desportiva do país.

O modelo de Gala e as atuais condições de pandemia dificultam a presença e participação dos jovens judocas que são a alma da modalidade em dezenas e dezenas de clubes, mas aqui, só têm lugar os homens grandes, homens e mulheres claro, mas não se ouvem as vozes daqueles que fazem a festa nos tapetes com histórias e abraços que fazem o judo à sua maneira.

Fotos © gentilmente cedidas pela FPJ à Judo Magazine (que não pôde comparecer na Gala, apesar do convite realizado pela FPJ, por razões profissionais – o que muito lamentámos, claro, faltou-nos dar uns abraços a muitos amigos e amigas).

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