Quando o judo agrega e se torna um projeto familiar

VIDA DOS CLUBES | REPORTAGEM JM – Academia de Judo União Mucifalense

A Academia de Judo União Mucifalense festejou o seu primeiro aniversário com uma cerimónia de graduações que envolveu, no passado dia 17 de dezembro, judocas e familiares num encontro cujo prato forte foi a entrega de cintos aos novos graduados.

Tratou-se de misto de sessão de auto-avaliação e de demonstração de judo que contou com o acompanhamento atento dos pais e dos familiares que nas bancadas foram observando e acolhendo as explicações que Jorge Firmino, o treinador de judo responsável pelo projeto da Academia, foi introduzindo numa base pedagógica e simultaneamente informativa sobre o percurso e o programa que os jovens judocas foram seguindo ao longo do ano de atividade no dojo.

Demonstrações

As diversas atividades de demonstração, posturas e técnicas de base, foram sendo executadas pelos muito jovens praticantes com rigor e precisão e os domínios mais avançados, como as projeções, foram exemplificadas pelos mais graduados.

Numa primeira fase da cerimónia o judo esteve presente com uma apresentação exaustiva de movimentos, imobilizações, quedas e projeções que ofereceram aos presentes um painel sintético e dinãmico da modalidade.

A entrega dos cintos

Na apresentação prévia à entrega dos novos cintos Jorge Firmino estabeleceu uma relação coerente entre a progressão realizada pelos judocas na base do programa existente e o empenho demonstrado na aprendizagem dos diversos campos da modalidade que também remetem para domínios comportamentais e de motivação pessoal.

Foi entendimento dos dinamizadores das diversas aulas que se realizam no dojo central mas também nas escolas que todos os jovens judocas deveriam receber um cinto que consignasse a passagem para um nova etapa que terá lugar logo a seguir ás férias de Natal e Ano Novo. Assim todos receberam um cinto novo, um diploma e uma prenda.

Naturalmente a entrega de cintos, com outras cores, aos muito pequenos constituiu um momento marcado pela ternura e pela boa disposição.

A relação com os pais e familiares

O convite dirigido à Judo Magazine para estar presente permitiu-nos observar de forma direta e precisa os elementos estruturantes do modelo de ensino e de treino que na Academia de Judo União Mucifalense é praticado.

É sempre enriquecedor entrar em contacto com a realidade de um determinado modelo sabendo que a nível nacional e até internacional existe uma grande diversidade de abordagens que vale a pena conhecer.

No caso o tema do projeto Família ao Judo interessava-nos de forma muito particular. Sabemos que a articulação da modalidade com os pais e familiares constitui uma pedra angular das estratégias de desenvolvimento. Seria pois particularmente interessante conhecer os contornos do modelo em apreço.

O que sobressai das interações registadas na cerimónia a que assistimos e do espaço que visitámos:

1 – uma real cumplicidade dos pais com as atividades levadas a efeito no tapete;

2 – uma valorização das escolas dos efeitos positivos do judo no funcionamento quotidiano dos alunos;

3 – um ambiente saudável em termos de organização, de limpeza e de segurança no espaço de prática da modalidade.

Um modelo baseado nas referências japonesas

Desde que Anton Geesink, que em 1964 nos Jogos Olímpicos de Tóquio saiu vencedor dos japoneses e conquistou uma autoridade mundial na modalidade, avançou com uma filosofia diferente da tradicionalmente imposta pelos nipónicos e abriu as metodologias de ensino e de treino do judo no sentido de uma relação mais pedagógica e menos diretiva da prática da modalidade, que vários modelos foram emergindo em todos os países, com toda a legitimidade.

Mas em muitos países e em muitos clubes o modelo de base japonês persiste como a referência central. Na Academia de Judo União Mucifalense tivemos claramente noção desta opção por parte dos dinamizadores do projeto do clube sendo evidente que:

  1. O núcleo central do modelo situa-se no campo da disciplina e no respeito incondicional da hierarquia;
  2. A cultura dos mestres e dos mais velhos estabelece uma hierarquia informal de relações de poder inquestionáveis;
  3. No centro do processo de aprendizagem está o treinador e não o aluno. É o mestre que estabelece as referências de progressão e os cenários de aprendizagem;
  4. O divertimento e a livre-expressão de vontades e desejos de interação entre os praticantes está fortemente condicionada pelo entendimento que é assumido do que é a disciplina, com destaque para a imposição do silêncio como regra de respeito;
  5. O sentido de descoberta e de tentativa-erro não é valorizado, entende-se que a padronização é mais eficaz no processo de aprendizagem;
  6. As práticas de alinhamento (formatura) e de respostas em voz alta em coletivo (coro) revelam uma valorização do chamado “espírito de corpo” que procura ser fator-chave de motivação;
  7. A insistência no uso da língua japonesa como marca de um relacionamento no dojo constitui uma opção de rejeição de um pretenso “excesso de ocidentalização” da modalidade;
  8. A promessa da “formação de homens e mulheres do futuro” surge como uma auto-valorização das potencialidades da modalidade que se associa a uma “filosofia de vida” que no fundo é aquela que os seus promotores entendem que deverá ser.
  9. A entrega dos jovens ao cuidado dos mestres pelos pais surge num terreno oposto aquele em que os pais são chamados a ser parceiros de tapete e de percurso sempre que as condições o permitem.

Estes apontamentos são uma sistematização modelar que pecam por aprofundamento e por diversidade na leitura da realidade. Mas são o resultado de um olhar que só foi possível concretizar através da presença e da amável relação com todos os presentes e protagonistas da fantástica jornada vivida no Mucifal.

Modelos são modelos. Interessam-nos não necessariamente para julgar mas antes para refletir e impulsionar o debate sobre os caminhos de desenvolvimento da modalidade tendo em conta a sua responsabilidade no desenvolvimento social .

Jorge Firmino, um treinador cheio de qualidades e de convicções, desenvolve um projeto que tem um claro reconhecimento por parte de pais, familiares e instituições. Certamente não irá ficar por aqui.

Carlos Ribeiro, presente a convite da Academia de Judo União Mucifalense. Fotos © Judo Magazine

O Judo passou a fazer parte da nossa vida, porque é de um projeto de família que falamos

por Célia Bernardo, mãe da Ema

Foi de espirito aberto e meio a brincar que chegamos naquela tarde de 2019.

Até porque é assim que acredito que devo exercer a parentalidade e que é esse o direito que assiste a cada criança: crescer com oportunidades de experimentar e alargar visões num ambiente leve que lhe permita brincar; brincar muito.

Não tinha qualquer expectativa sobre o resultado nem sobre o que seguiria àquele final da tarde, mas voltámos dois dias depois e outra vez e outras tantas vezes e ficamos até hoje.

A cada aula e a cada gargalhada escutada, a minha certeza aumentava sobre opção que tinha tomado. Tinha sido uma decisão feliz!

O Judo passou a fazer parte da nossa vida, porque é de um projeto de família que falamos.

Fomos assim acolhidos no Projeto “Família ao Judo” que tem proporcionado dias e experiências muito felizes à nossa filha mais nova: a Ema. Fará 7 anos em fevereiro 2021.

Chegou com 5 e com este projeto tem crescido – em idade e em personalidade.

Célia à direita, acompanhada por Anabela representante do Agrupamento de Escolas

Com a prática do Judo e através do Mestre Jorge Firmino, tem adquirido, aprofundado e colocado em prática uma série de valores fundamentais para a sua vida atual e futura; sobretudo no que à diversidade, respeito, interajuda, amizade e coragem diz respeito.

São princípios que fazem parte de um conjunto de valores morais que regem este desporto, mas que tão ou mais importante que os aplicar no Dojo, é conseguir que eles sejam aplicados pela vida fora e em todas as circunstâncias.

E é esse caminho que tem sido feito e conseguido com o Projeto “Família ao Judo” que hoje tem dezenas de crianças e famílias e cujo crescimento temos tido a felicidade de assistir.

Durante vários meses, a Ema foi a única aluna na sua classe; atravessou confinamentos com aulas à distância, mas sempre com a mesma alegria e as gargalhadas iniciais.

Hoje, somos muitos e o brilho e as gargalhadas multiplicaram-se por dezenas.

Já o vi diversas vezes e voltei a ver na última cerimónia de graduação em que a nossa “Ninja” já conquistou o cinto laranja/amarelo.

Parabéns a todas as crianças, às famílias, à União Mucifalense e à Equipa do Mestre Jorge Firmino.

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