O mistério do clube de Sintra

A VOZ DOS CLUBES | Sport União Sintrense | REPORTAGEM

A única ligação que pode ser estabelecida entre o romance de dupla autoria de Eça de Queirós e de Ramalho Ortigão, o Mistério da Estada de Sintra, radica no fato de terem sido homens mascarados a raptar o médico e o seu amigo escritor na obra literária e, na nossa visita ao Sport União Sintrense, termos tido a máscara anti-Covid como elemento comum e permanente com os nossos interlocutores, Renato Santos Kobayashi e Fernando Vendas. De resto o mistério sobre o crescimento do clube em plena fase pandémica rapidamente foi desfeito.

Os clubes trilham caminhos erráticos e muito diferenciados. A pandemia de COVID-19 lançou uma nuvem de incerteza sobre muitos projetos que se encontravam em fase de arranque ou de amadurecimento. Mas também há sinais de saltos em frente que proporcionam uma leitura otimista. É o caso do Sport União Sintrense que se está a agigantar e que visitámos recentemente.

Os movimentos são progressivos, intensivos e em ritmo de câmara lenta. Os corpos dos atletas exprimem-se numa linguagem mais próxima da aeróbica do que dos gestos e exercícios convencionais do aquecimento no início de uma aula de judo. Fernando Vendas esclarece “O Jorge Gonçalves está a orientar um aquecimento isométrico. Corresponde a uma fase da preparação e do treino que antecede as competições que se avizinham. Veremos que nas técnicas que serão trabalhadas pelos atletas na fase de especificação técnica esta relação com o tipo de aquecimento será consolidada”. Esta é a linha de desenvolvimento que o Sport União Sintrense quer aprofundar. Combinar saberes e experiências e apresentar aos atletas um enquadramento competente e estruturalmente avançado.

O projeto que está em curso tem a sua história e os seus antecedentes são bem conhecidos pelos judocas a nível nacional. Não fossem Renato Santos Kobayashi e José Manuel Bastos Nunes, o primeiro um atleta olímpico e o segundo um 9º Dan inscrito pelo clube na FPJ, nomes centrais da modalidade de longa data. Uma recente incorporação de atletas de outros clubes, com destaque para o Sport Lisboa e Benfica, veio reforçar a dinâmica de desenvolvimento do clube.

Uma fórmula vencedora

Combinar saberes, experiências e visões parece ser o ponto de partida de uma estratégia que abarca vários domínios de intervenção:

  • um clube eclético nos seus propósitos, com duas Bandeiras da Ética, forte intervenção social e uma intensa aposta em programas que facilitam o acesso à prática da modalidade por parte dos jovens das escolas e dos bairros da sua periferia;
  • um clube com objetivos e metas no plano competitivo que procura uma posição cimeira no judo nacional;
  • um clube com uma aposta muito significativa na interculturalidade com a presença de 10 nacionalidades nos atletas que o frequentam.

A combinação de saberes não se situa apenas nos estilos e nas experiências peculiares da atual equipa técnica que integra treinadores com escolas muito diferentes, mas que se complementam. “Cada um tem o seu espaço de expressão e assume responsabilidades na condução dos processos, com os mais jovens e também com os competidores” clarifica-nos Renato Kobayashi que orientou uma aula com os juvenis focada nas pegas e nas formas de agir com os diversos desequilíbrios.

Nas aulas dos mais jovens o tapete central é dividido em duas partes, com uma separação total através de uma divisória flexível que permite que espaço e tempo sejam otimizados. A formação de base, com as técnicas fundamentais, é desenvolvida numa das áreas enquanto que o trabalho pré-competitivo é ensaiado com exercícios regulares ilustrados pelos treinadores.

Infra-estruturas apoiam o projeto

O SUS foi ao longo dos anos organizando infra-estruturas que criam condições para a prática da modalidade que servem de elementos facilitadores para os atletas e para os seus familiares, vejam-se elementos relacionados com a saúde e o apoio à prática desportiva:

  • o acesso ao dojo através de um sistema de cadeiras elevatórias:
  • desfibrilador cardíaco disponível na área de treino;
  • fisioterapeuta com presença bi-semanal para apoio aos atletas;
  • área de treino físico junto ao espaço de treino;
  • área de convívio para os familiares na proximidade do dojo.

Dinâmicas extra-judo fazem ponte com a comunidade

As Bandeiras da Ética como nos referiu Fernando Vendas “não são dados adquiridos. É preciso realizar uma ação sistemática e apresentar as evidências da atividade realizada e nós garantimos essa continuidade porque para o nosso projeto a ética do desporto é particularmente importante. Da mesma forma as verbas que recebemos do BPI Social foram aplicadas na divulgação da modalidade junto dos setores mais desfavorecidos e em investimentos necessários para o efeito”.

Outra vertente desta área complementar da atividade do clube consiste na colaboração com a Cruz Vermelha na intervenção relativa às doenças mentais. Renato Kobayashi adiantou-nos que o projeto vai ter agora uma nova fase e que a seleção de participantes em programas de apoio vai contar com o Sport União Sintrense. “Como embaixador da Cruz Vermelha neste projeto sinto que podemos valorizar o judo também pela colaboração que damos e que sentimos como útil para a sociedade” adiantou o treinador e responsável pelo judo do SUS.

Avançar para outro patamar competitivo

Os responsáveis do clube não escondem a sua ambição. Querem estar no topo da competição nacional e já começaram a trabalhar nesse sentido. Os treinos de competição são participados por atletas, quase todos eles, graduados com um cinto negro. O nível é elevado e o empenho é grande.

Jorge Gonçalves introduz na condução dos treinos elementos que enriquecem o quadro de preparação dos competidores. Renato Kobayashi favorece uma leitura experiente e um ritmo competitivo marcado pela intensidade e pela combatividade. Outros técnicos da Equipa fornecem a sua própria abordagem à preparação e ao treino para a alta competição. O que se espera é que a diversidade se constitua aqui também numa mais – valia para os atletas que querem progredir e que se enquadram em planos de desenvolvimento desenhados para o efeito.

Abertura intercultural

Sebastião Edrivane é uma atleta angolano que vai participar no Grand Prix de Almada no dia 28 de janeiro. Chegou ao dojo do SUS e foi apresentado aos participantes na aula de competição. Veio para treinar, para manter o ritmo competitivo e trabalhar com atletas diferentes dos habituais.

Uma situação não é única nem exclusiva de Angola já que o clube de Sintra conta com outros atletas de Angola a par de cabo-verdianos, guineenses, brasileiros, ucranianos, moldavos e outras nacionalidades nas suas atividades sendo intrinsecamente um clube de expressão intercultural.

O inverso também é verdade. quando jovens competidores, no percurso dos seus estudos académicos, vão para Erasmus+ e temporariamente ingressam em clubes de judo dos países de acolhimento.

Luísa Faria e o cachecol

Pequena e tímida Luísa, que já tem familiares com fibra de campeões, apresentou-nos uma oferta de um cachecol do clube Sport União Sintrense que guardamos como uma marca do acolhimento que tivemos num clube que sentimos estar a viver momentos de entusiasmo e até de paixão e a abrir novos caminhos com um modelo que vale a pena acompanhar e até estudar..

Fotos Judo Magazine © Carlos Ribeiro

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