Gonçalvinhense, a arte da Passarola

ÉTICA NO DESPORTO | Bandeira da Ética (3) – Grupo Recreativo Gonçalvinhense – Judo

Mafra tem as suas referências históricas, culturais e até desportivas. Nestas terras ganharam vida Baltasar, Blimunda e Bartolomeu de Gusmão. O sete-sóis e a sete-luas que Saramago transformou no Memorial do Convento numa fusão criativa do uno e o inventor da Passarola que pretendia voar em direção ao sol. Os seus representantes contemporâneos podem ser encontrados aqui, no Grupo Recreativo Gonçalvinhense, cujo objetivo central é também voar.

Trata-se de uma nova Passarola, esse aparelho voador que funciona na base das vontades que ele próprio incorpora e que são atraídas pelo sol. Uma nova forma de fazer confluir a vontade coletiva respeitando a diversidade.

Já imaginaram um clube de judo que preconiza junto dos seus atletas que o importante é a prática desportiva articulada com a responsabilidade social e que a modalidade que praticam é fantástica mas que as outras, que também existem no Grupo Recreativo, não são necessariamente piores. Não ter uma visão sectária (Ah! só o judo é que é bom!) surge como um bom ponto de partida para implementar no clube os princípios da ética desportiva. No fundo importa saber se o mais importante é apoiar o desenvolvimento de atletas a partir de valores úteis para os próprios e para a sociedade ou ao invés apresentar um grande clube (de judo) que rivaliza e se opõe aos restantes do território numa relação competitiva absurda e até anti-social.

Aprendizagem

Quando entrámos no espaço do dojo um grupo de jovens judocas estava encostado à parede. Sentados de forma disciplinada, ouviam com atenção. Paulo Nogueira lançava a perna direita em pêndulo, no exterior do corpo do jovem uke que o apoiava na demonstração e a queda para a frente aconteceu com segurança e com muito controlo. Harai-goshi estava no plano de estudo da aula Para uns era novidade, para outros era revisão de matéria e esforço de aprofundamento.

Paulo Nogueira, treinador principal do Grupo Recreativo Gonçalvinhense

Apresentar uma técnica de forma clara e eficaz, tem a sua arte. Combinar palavras e gestos, entrar nos pormenores das pegas e dos desequilíbrios, destacar os pontos críticos e as potencias reações do opositor no momento, passar da fase mais estática para a execução em movimento, todos estes passos são parte integrante das competências-chave do treinador de judo.

Mas a eficácia do processo pedagógico não se limita ao desempenho qualificado do treinador. Importa criar condições para a experimentação e desta forma incentivar a auto-avaliação por parte de cada judoca à medida que vai executando. Neste processo o executante conta ainda com o apoio do seu parceiro com indicações sobre a forma como poderá melhorar os seus movimentos.

Avaliação e progressão

Na aula de judo, para os mais jovens, no Grupo Recreativo Gonçalvinhense-judo, existe uma forma adicional de reforço pedagógico que se baseia na avaliação dos pares. Grupos de executantes são avaliados pelos restantes colegas que votam nos melhores desempenhos e incentivam ao rigor e à perícia na apresentação coletiva que ocorre em final de ciclo de trabalho interpares.

Registe-se assim as três dimensões da avaliação que são mobilizadas no processo de aprendizagem: a auto-avaliação; a avaliação on going e a avaliação coletiva por pares.

Saudação em círculo

Os mais velhos vão chegando. Alguns já se encontravam entre os pais que assistiam, na zona de palco da sala, à aula anterior dos mais jovens. Pouco a pouco o grupo vai-se compondo.

Quem vai orientar a sessão é o Peter. O Paulo vai substituir o “assador” que teve impedimentos de última hora para vir preparar o petisco mensal do pós-treino. Aqui, no GRG, a hierarquia está longe de ser um posto, surge mais como uma obrigação de servir os outros.

Antes de nos deixar o treinador principal do clube junta-nos em círculo no centro do tapete. A ordem dos cintos e respetivas graduações não tem lugar nesta modalidade de saudação coletiva. Um sinal do respeito como valor coletivo e não principalmente de uma regra moral associada à submissão e sujeição aos que dirigem e são detentores dos saberes.

Esta desformalização da saudação inicial, que num desporto de combate não é secundária porque a segurança coletiva passa pelo assumir de compromissos de respeito mútuo, surge como uma opção de importância relevante na definição das relações que se estabelecem nas interações entre atletas no tapete.

Quem é que eu saúdo? O mestre, a pessoa que está em face em lugar destacado e valorizado pela distância que o torna único e até dominador ou saúdo o conjunto dos presentes na aula delegando no treinador os compromissos de respeito das regras e dos princípios que estou a assumir?

Quem é que o treinador saúda? Os seus “aprendentes” como beneficiários dos seus saberes ou um coletivo ao qual se garante que os compromissos mútuos são a base do bem-estar coletivo.

A lição da saudação em círculo no Gonçalvinhense remeteu-nos para interpretações de ordem sociológica como o “sentido de comunidade” e de “pertença grupal” e para aprofundamentos no campo da “individuação” ou até do “inconsciente coletivo” que Carl Yung desenvolveu na psicologia.

Uma coisa é certa, vale a pena diversificar as formas de implementação dos rituais procurando que a essência se mantenha e até ganhe novos significados.

O projeto “Bandeira da ética”

No Gonçalvinhense-Judo algo está na forja para melhorar os sistemas colaborativos que estão instalados a vários níveis da vida do clube. Um deles é a organização dos pais dos atletas como elementos de gestão participada nas atividades que são desenvolvidas.

Mas está a ser desenhada uma nova dinâmica. A auto-organização dos atletas para promoverem iniciativas de interesse comum, como atletas e como cidadãos. A ideia de constituir uma associação de atletas, liderada por jovens judocas (no caso serão graduados em 1º Dan) que de forma participada definam objetivos e metas a atingir a partir da ação que todos os membros deverão levar à prática em processos de cooperação.

Esta abordagem ao desporto como plataforma de auto-organização e de promoção da autonomia dos praticantes enriquece o valor da prática desportiva na construção de valores e estabelece pontes com uma cidadania ativa que cada vez mais se torna um imperativo do desenvolvimento social.

O convívio

O fumo libertado pelo assador não incomoda ninguém, antes pelo contrário, cria a sensação de festa e até de arraial. As peças de carne grelhada vão caindo nas fatias de pão e no bar da casota de madeira saem as minis, os sumos e todas as bebidas apetecidas. O treino não foi muito puxado, mas o cansaço está ainda presente depois do duche tomado. Atletas, amigos e familiares estão agora à conversa sobre tudo e mais alguma coisa. O clube está reunido em assembleia geral informal. Aqui forjam-se os laços de amizade, de inter-ajuda, de conhecimento mútuo e, para além da partilha de uma refeição improvisada, constroem-se as energias e tecem-se os recursos que fazem do clube uma instituição inclusiva que desenvolve uma cultura com alguns pilares centrais: valores partilhados, participação e responsabilização e confiança mútua construída na base do exemplo do dia-a-dia.

Carlos Ribeiro

© Reportagem | Fotos Carlos Ribeiro

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