FPJ afasta Ana Hormigo da seleção e vai levar atletas do projeto olímpico a tribunal

17 outubro, 2022

Telma Monteiro denuncia o despedimento e a falta de respeito pelos atletas

  

Ana Hormigo foi a selecionadora nacional que trouxe uma medalha do Campeonato do Mundo de Tashkent com o bronze de Bárbara Timo em -63 kg femininos. Surpreendentemente foi agora afastada da função por falta de comunicação com os responsáveis federativos. Recorde-se que Hormigo solidarizou-se com os atletas que há uns meses reivindicaram mais diálogo e mais comunicação sobre os modelos de preparação para as provas internacionais, nomeadamente para os Jogos Olímpicos de Paris 2024.

Afastada na véspera do GS Abu Dhabi

Quando a maior parte dos observadores admitia que a “crise no judo nacional” estava em vias de apaziguamento surge agora esta medida repentina de afastamento da selecionadora nacional nas véspera do Grand Slam de Abu Dhabi. As razões que o Presidente da Federação Portuguesa de Judo adianta revelam que não houve capacidade de gerir as tensões existentes e procurar vias de progressão positivas para o conflito aberto com a Carta Aberta dos Sete atletas do projeto olímpico “Após o comunicado que a Ana Hormigo fez, achámos todos nós que ela se deveria ter demitido antes. Estava a trabalhar comigo há quase seis anos e, com aquele comunicado e as atitudes que tem tido ultimamente, não nos dá confiança. Demonstrou que não tem condições para trabalhar a este nível e com estes atletas”, afirmou Jorge Fernandes à Lusa.

Excelente entendimento entre Ana Hormigo e as atletas

Trata-se portanto de uma avaliação relacional entre as partes, dirigentes e Ana Hormigo, não estando aqui em causa o relacionamento com as atletas lusas que a treinadora nacional acompanha e orienta nas provas internacionais. Esta matéria que é geralmente aquela que justifica o despedimento dos técnicos nas diversas modalidades desportivas não encontra no judo nacional qualquer expressão. Se nos recordarmos o abraço de Bárbara Timo em Tashkent e outras manifestações de solidariedade entre selecionadora e atletas, constatamos que esse não será o problema.

Ana Hormigo e a seleção para Tóquio

Legitimidade e apoios internos

Jorge Fernandes, que na Assembleia Geral da FPJ realizada em Almada no domingo passado viu o Orçamento e o Plano de Atividades aprovados, reafirmou a sua legitimidade nas formas de agir que tem vindo a assumir baseando-se no apoio às suas propostas para o judo no próximo ano ““Nesta Assembleia, foram aprovados o Plano e o Orçamento para 2023, por larga maioria, apenas com um voto contra. Foi uma das Assembleias Gerais mais concorridas de sempre, o que legitima ainda mais o plano e o orçamento para 2023. No final, discutimos ainda outros assuntos, como é habitual nas Assembleias.”

Esta leitura da aprovação dos seus apoiantes leva-o a reafirmar de formar clara “Fui eleito para gerir a FPJ e vou continuar”.

Atletas devem focar-se na atividade desportiva

“Em relação à atleta Telma Monteiro, a atleta devia estar mais focada na prova que vai ter no fim de semana e em outras do que andar nas redes sociais contra quem foi eleito para criar as melhores condições para que ela possa ter melhores prestações do que tem tido ultimamente” clarificou o Presidente da Federação a sua posição em relação a Telma Monteiro que denunciou “Com ações destas a federação, continua a demonstrar o pouco respeito que tem pelos atletas, pelas pessoas e a demonstrar que tipo de gestão desportiva exercem”.

Esta abordagem ao papel dos atletas nos sistemas desportivos e sociais não deixa de ser controversa. Na prática seria retirar ao atleta a sua condição de cidadão e colocá-lo numa posição menor de caçador de medalhas. Veja-se o caso do futebolista Socrates que no Brasil no tempo da ditadura militar tornou-se um símbolo de luta pela democracia. Como aliás vários atletas em Portugal também o fizeram Mas Socrates foi mais longe. Lançou com Cassagrande a Democracia Corinthiana, um movimento revolucionário no futebol brasileiro, no qual os jogadores não só participavam das decisões diárias do clube, como se manifestavam publicamente pela redemocratização em plena ditadura. Sócrates aproveitava a sua notoriedade para levantar bandeiras além do campo e exercer algo que lhe era tão caro: a liberdade de pensamento e expressão.

Ou seja os atletas são cidadãos de pleno direito. Em todo o tipo de relação. Não é por ter elevada notoriedade que não lhe deve ser permitido tomar a palavra. Veja-se o caso da ginasta americana americana Simone Biles que denunciou a pressão emocional que recai de forma desumana sobre os atletas aos quais se pedem medalhas olímpicas.

Telma Monteiro, hoje a federação despediu a treinadora Ana Hormigo, por email

Entre outras declarações a medalhada olímpica do Rio de Janeiro divulgou a sua reação ao recente afastamento de Ana Hormigo, considerando-o um despedimento “Quando me perguntam como vão as coisas com a federação… vão assim: Amanhã viajo para a competição – GS de Abu Dhabi- a minha primeira depois da cirurgia ao joelho. Hoje a federação despediu a treinadora Ana Hormigo, por email, no dia antes da equipa viajar! Sem a equipa ou a própria saber de forma antecipada.

Em semana de competição de apuramento olímpico!

Ontem, em assembleia da federação, soube que o presidente informou os presentes, que os atletas que escreveram a carta aberta há uns meses, terão esta semana para se retratarem ou serão levados a tribunal.

Sábado, na reunião de planeamento, os treinadores foram informados de que eu, como outros atletas, já não temos verba do projeto olímpico -gerido pela federação- para realizar o planeamento que tínhamos feito. Vou representar o meu país com a mesma vontade e orgulho, mesmo que tenha de pagar pra isso, não duvidem!

Para ti Ana Hormigo:

Como atleta quero de alguma forma continuar a ter a tua presença nas competições e espero que as entidades responsáveis intervenham nesse sentido.

Como amiga digo-te que fico feliz que não tenhas mais de lidar diretamente com essa instituição. Que sorte a tua!” transposição parcial de texto de Telma Monteiro.

Bárbara Timo: é insustentável buscar o topo quando quem lidera quer-nos por baixo sempre

“Uma semana após a nossa conquista da medalha de bronze no mundial e a 48h antes de viajar para o Grand Slam de Abu Dhabi, com o grande retorno da Telma Monteiro e Patrícia Sampaio, descubro que a treinadora da seleção PORTUGUESA foi hoje dispensada dos seus serviços para com a seleção nacional.

Lidar com o stress da competição, os imprevistos da viagem, adversários, derrotas, até mesmo com peso e lesão é algo que custa mas que nós atletas estamos dispostos e temos recursos para superá-los. Faz parte do jogo.

Agora, o que me faz muita confusão, e que realmente não consigo tirar nenhuma conclusão benéfica, é ter que lidar com uma gestão/atitudes que fazem questão de Não Gerir. INGerir.

Realmente a teoria/prática não tem feito muito sentido para mim. E é desistimulante conviver nesta situação. É insustentável buscar o topo quando quem lidera quer-nos por baixo sempre” Bárbara Timo.

Com referências e registos da Agência Lusa

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