Judo adaptado ou adaptando o judo

7 de dezembro, 2022

Cernache foi o epicentro do Judo no passado final de semana, com as provas rainhas da modalidade, para o escalão sénior, paralímpico e adaptado.

por António da Costa

A prova do judo sénior, que muitos denominamos como “judo normal”, foi emocionante em algumas categorias de peso, noutras foi mais previsível. Mas não vou comentar esse tema porque todos temos uma opinião distinta e certamente válida. Na verdade, não estive muito envolvido nessas provas, pois unicamente acompanhei dois atletas e pouco mais. O meu envolvimento neste final de semana foi com o judo adaptado, quer na vertente de Deficiência Intelectual, quer na vertente de Síndrome de Down.

Coabitação saudável

No dia 4 de dezembro houve lugar para a “coabitação” de toda a gente no tatami de Cernache.

No Judo Paralímpico decorreu o Campeonato Nacional. Este foi disputado por atletas cegos e ambliopes, com um nível de judo muito elevado. É surpreendente para mim o que estes atletas conseguem fazer. Sim eu sei que sou preconceituoso, mas fico positivamente surpreendido com o que se passa no tatami quando os combates de judo são com pessoas cegas. Como conseguem fascinar-me, já que apesar de, felizmente, ter visão tenho dificuldade em fazer algumas coisas que eles conseguem. É fantástico.

A arbitragem também foi de elevado nível. Arbitrar não é fácil e nestas situações a sua concretização deve ser acrescida de uma dificuldade ainda maior já que é importante avisar os atletas que estão no limite da área de combate através da palavra “Jogai”. Para mim é fascinante e motivador ver atletas cegos e ambliopes a fazer judo. Melhor que tudo é, ainda por cima, conhecer estes atletas pessoalmente. Têm uma “visão” da vida maravilhosa. Mas, desta matéria falarei noutra ocasião.

Taça de Portugal FPJ/ANDDI – Judo Adaptado

No domingo também decorreu a prova na qual estive mais envolvido enquanto treinador. E que prazer me dá colaborar!

Este ano já tinha decorrido o Campeonato Nacional de Judo Adaptado, pelo que foi tempo, no dia 4 de dezembro, de se realizar a Taça de Portugal FPJ/ANDDI. Divididos em duas provas distintas, se assim podemos dizer, tivemos numa delas combates disputados entre atletas com deficiência intelectual e, noutra, atletas com síndrome de Down.

Muitos irão dizer que esta prova foi disputada por pessoas deficientes e têm toda a razão. A principal deficiência de todos, nos dias de hoje, é o enorme amor, alegria e simpatia que tem para espalhar por quem os rodeia. Essa é a sua maior deficiência, que a principal expressão está nos seus sorrisos.

Excelente organização

Falando da prova em si, voltamos a ter uma entrega por parte da comunidade judoca a este evento que devia existir em todas as provas. A organização da FPJ foi, mais uma vez, fantástica e maravilhosa com todos estes atletas e treinadores.

Mesmo a arbitragem teve a capacidade de se elevar ao nível dos atletas. Não que a arbitragem tenha um nível baixo, não me entendam mal, mas porque nós temos que subir muitos patamares para chegar ao nível destes atletas quer no tatami quer na vida. Eles conseguem muitas mais conquistas que qualquer um de nós, acreditem.

A Taça, que estava em disputa, ficou com a CERCIGUI. Podia dizer que estava triste com o resultado, mas sinceramente, a mim pessoalmente, pouco me importa o resultado final dos atletas. O que mais me importa é o sorriso na cara de cada um. Mesmo os que saem do tatami a chorar (felizmente são poucos). Passada meia dúzia de minutos já estão bem, a sorrir, a fazer amigos e a partilhar um abraço com alguém.

Chamamos a isto judo adaptado, mas esta aposta da FPJ, de organizar estas provas, está a adaptar mais o judo em Portugal, pois está a abrir muitas mentalidades.

Esta direção da FPJ, sem entrar em questões políticos, foi a primeira a apoiar de forma clara o Judo Adaptado, celebrando inclusivamente um protocolo com a ANDDI. Esta adaptação do Judo, através do Judo Adaptado, está a tornar o Judo mais “bonito” e mais aberto a todos.

Três diferentes Mosqueteiros

Vou falar-vos dos meus três Mosqueteiros. Para mim são três verdadeiros campeões. Apesar de terem todos a mesma síndrome, são todos totalmente diferentes. Não vou referir nomes, mas vocês conhecem de certeza.

Lembram-se dos três mosqueteiros, Porthos, Athos e Aramis? Os meus tem três nomes portugueses, mas são também, tal como na obra de Alexandre Dumas, todos diferentes.

Um deles é um “atleta”, outro um “mimado” e o terceiro um “desafortunado”.

O atleta sabe andar de bicicleta, nadar, exprime-se “bem” e tem aptidão para o desporto. Essa aptidão veio do facto de a mãe, quando ele e os irmãos eram pequenos, sempre que os irmãos queriam sair para brincar o terem que levar. Ele aprendeu a fazer tudo com os irmãos e hoje, fisicamente é muito apto para o desporto.

O outro é filho único, logo, como qualquer criança, “mimado”. Aprende a escrever o seu nome, extrovertido, brincalhão e falador. O mimo que tem por vezes leva-o a “amarrar o burro” quando é contrariado, mas passado minutos já nos está a abraçar e a dizer que gosta muito de nós.

O terceiro é o “desafortunado” porque não teve nada que usei para caracterizar os anteriores. As dificuldades motoras, de expressão (fala pouco) ou de relacionamento (tem dificuldade em partilhar) são fruto da sua vivência. Se podia ser uma pessoa diferente, mais desenvolvida? Não tenho dúvidas. Mas faltou-lhe o estímulo para tal.

Falo disto porque de todos os atletas que estiveram no tatami em Cernache, todos são diferentes. Alguns tinham deficiência intelectual e outros síndrome de Down. Mas são todos diferentes no que conseguem fazer, no ritmo de aprendizagem, na capacidade de aprender. Isto é o principal desafio de quem trabalha com eles todos os dias. Costumo dizer que não sabemos se eles acordaram para a direita ou para a esquerda. Dependendo do lado conseguem ou não fazer algo. Mas esse é o desafio diário que encontramos quando os acompanhamos. Eu só tenho o prazer de interagir com eles no judo, no tapete da CERCIAG. O desafio que eles me colocam, todos os treinos, leva-me do total desespero por não os ver evoluir (às vezes acontece), até ao êxtase quando eles conseguem. E não vou mentir, mas a maior parte das vezes que eles não evoluem a culpa é minha que complico muito as coisas.

D´Artagnan

Mas Alexandre Dumas tinhas ainda um “joker” na sua história, que era o D’Artagnan. Nesta equipa o nosso D’Artagnan é o professor Hélder, que tira destes três mosqueteiros o melhor da cada uma e é o principal responsável por termos judo na CERCIAG. Um dia falarei um pouco mais sobre dele…

Resultados

Vamos falar de resultados, o mais importante no judo, certo? Vamos a isso. Os resultados foram maravilhosos, porque todos os atletas saíram com um sorriso nos lábios, uma alegria esfuziante e muito amor para partilhar.

Estes são os melhores resultados que podíamos ter e todos tiram a melhor das classificações neste evento.

Para além dos atletas, também os treinadores estavam satisfeitos com a prova. É importante termos cada vez mais clubes e atletas do Judo Adaptado. Era sinal que estávamos a adaptar o nosso Judo, os nossos clubes para todos.

Texto António da Costa. Fotos © FPJ | Editado CR-JM

António da Costa
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