Destituição de Jorge Fernandes inicia processo de teste à democracia interna na FPJ

Assumida como uma fatalidade imposta pelas normas legais a destituição foi votada favoravelmente na AG a contra-gosto e com muitas críticas ao IPDJ

Se não fosse o risco de ver retirado o estatuto de entidade pública e consequentemente a ameaça de perda dos apoios de que o judo beneficia do Orçamento Geral de Estado, a votação quase por unanimidade ocorrida na Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Judo, que se realizou ontem num hotel de Coimbra, poderia ter sido outra.

da notificação do IPDJ à FPJ

A palavra de ordem terá sido “portar-se bem” para não dar nota ao Instituto Português da Juventude e Desporto das discordâncias de fundo com os resultados e recomendações da auditoria que estiveram bem patentes nas intervenções dos principais dirigentes do judo nacional

O próprio Presidente Jorge Fernandes defendeu formalmente na AG a sua própria destituição. Compreendendo que o pior que poderia acontecer à modalidade, e para a Direção que dirigia, seria entrar em confrontação com a tutela. O apelo à aprovação sem reservas da recomendação de destituição terá sido a aplicação de um tai-sabaki seguido de contra-ataque imediato representado pela intenção anunciada entre-dentes de recandidatura.

Os princípios, sempre ou quando dão jeito?

Uma coisa é certa, não o afirmando de forma clara e categórica, Jorge Fernandes não concorda com as regras de transparência que estão definidas para o exercício de funções dirigentes federativas porque reafirma que a legitimidade de ser simultaneamente treinador de judo e Presidente da FPJ não tem nada de mal e não vê nenhum problema um Presidente de uma federação contratar o próprio filho em condições de estabilidade profissional particularmente desejáveis e privilegiadas num quadro económico e social dominado pela precaridade do emprego. A reafirmação da competência como argumento contra os princípios da transparência surge aqui de forma particularmente incómoda.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Misturar o debate do trabalho realizado, cujo balanço tem sido divulgado de forma unilateral, com as questões da legalidade é confundir questões de princípio – o respeito pela lei e pelas normas – com questões circunstanciais, no caso, a mera gestão dos assuntos federativos. Esta vertente tem o seu momento específico de avaliação e de prestação de contas.

A não separação dos temas impede que a situação atual, que pode e deve ser pedagógica para todos os praticantes da modalidade, acaba por não o ser. O Estado-de-Direito como base da vida em comunidade é algo de precioso que o 25 de Abril veio restabelecer em Portugal. Defender a vontade geral, como escreveu Rousseau no Contrato Social, significa estabelecer leis e normas que devem ser assumidas por todos os cidadãos, mesmo se o interesse particular de alguns não estiver contemplado nessa lei em particular.

Esta pedagogia não está a ser realizada numa modalidade que divulga com muito orgulho os ditos “princípios do judo”.

Compreende-se, desta forma, que alguns setores mais jovens da modalidade não se revejam neste tipo de intrigas e de atropelos que projetam uma imagem, essa sim, de um judo obsoleto e retrógrado na forma de encarar a vida em sociedade.

Eleições à vista

A questão que se coloca agora é saber se as eleições que já foram anunciadas pelo Presidente da Mesa da Assembleia Geral Carlos Andrade serão apenas para os Órgãos que caiem com o Presidente da Direção (a própria Direção na ocorrência) ou se as eleições também irão abarcar os delegados à Assembleia Geral e consequentemente assumirem o carácter de eleições gerais antecipadas.

No fundo trata-se de saber se o Tai-Sabaki ao IPDJ vai funcionar em pleno, de forma discreta, como se nada tivesse acontecido ou no sentido inverso, o judo poder realizar o debate em todas as suas estruturas sobre o que poderá ou deverá ser alterado tendo em conta um acontecimento que não pode ser ignorado por ninguém: o Presidente da Direção da federação foi destituído por ter violado princípios de transparência e de desrespeito de uma ética elementar na relação com os privilégios.

© Foto Alc

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