OPINIÃO – Judo Português – quem teme perder, já está vencido!

Escrevo pela infinita vontade de mudar alguma coisa

Tiago Silva

Escrevo na ressaca de um Grand Prix de Portugal que será, seguramente, de boa memória para muitos portugueses. Mas também escrevo num período de exaltante agitação do judo português. Em que iremos perceber o rumo e direcção que o irá compor para os próximos anos. Mas não se deixem distrair pelos excelentes resultados, as mesmas atletas que no passado fim de semana subiram aos mais altos lugares do podium, foram também aquelas que elevaram ao Olimpo da consciência de todos, as injustiças do judo nacional.

O fundador e criador do Judo é alguém cuja biografia transcende e muito a modalidade. Pedagogo nato, Jigoro Kano tem uma frase que me toca particularmente. Eu diria até que toca, em definitivo, o universo de quase todos os judocas que conheço: “quem teme perder, já está vencido”. Ao fim ao cabo é um apontamento da importância da resiliência para qualquer judoca. Da necessidade de acreditar em todo o seu potencial e naturalmente a de nunca desistir de lutar. Curiosamente é quase impossível não nos lembrarmos também da frase do também contemporâneo e, já agora, amigo de Jigoro Kano – Pierre de Coubertin – o pai dos jogos olímpicos da era moderna: “The important thing in the Olympic Games is not to win, but to take part; the important thing in Life is not triumph, but the struggle; the essential thing is not to have conquered but to have fought well”. Qualquer uma destas frases poderá ser replicada em outras dimensões da vida. E tenho-me lembrado tanto destas duas, nestes dias conturbados do judo português.

Ajudar à reflexão

Não pretendo com este texto persuadir ninguém a nada. Ninguém tem esse poder. No entanto, acredito convictamente que o melhor antídoto para o discurso mau e perigoso é o discurso bom e inteligente. As nossas convicções são sempre relativas a um tempo e a um lugar. Escrevo pela infinita vontade de mudar alguma coisa. Mas sobretudo por dever de consciência, por acreditar que ser delegado tem de ser muito mais do que colocar um voto numa urna. Ajudar à reflexão é poder alertar a consciência de quem tutela e regula o desporto português de que ser proscrito desta direcção da FPJ: não é uma condição que um treinador escolha. É o caminho consciente e deliberado que um Presidente tem tomado nos últimos anos, e intolerância total por quem pensa diferente e sobretudo pela sua própria cabeça.

Muitos dos poderes no judo permanecem, ainda hoje, de um modo quase provinciano, entenda-se  no  pior sentido  do termo.  Como  escreveu  um jornalista amigo  – “reservado não  a quem pensa, mas a quem não se engana na mesa onde janta”. Recorde-se, por exemplo como se tem prescindido de alguns dos melhores árbitros nacionais, porque não estão “alinhados” com Coimbra. Ou então, o que escreviam alguns dos actuais apoiantes do Presidente (agora destituído) sobre as graduações por mérito em 2016 aquando da Presidência do Eng. Costa e Oliveira. Ainda se lembram?

Apoio, mas não posso anunciar

Quando treinadores, árbitros e dirigentes (mas também atletas), me dizem: – “Tiago, eu apoio a vossa lista (entenda-se Nova Alternativa), mas não o posso anunciar publicamente”. É óbvio que o fazem por variadíssimas razões. Todas elas bastantes legitimas. A primeira, diz respeito ao apoio – porque acreditam claramente que tem que haver uma mudança profunda na direcção e nos destinos da FPJ, ao invés desta direcção unipessoal que nos tem liderado. Pessoas que se revêem na qualidade humana e profissional de um José Mário Cachada, de um Pedro Caravana, de uma Sandra Esteves ou de um Nuno Capucho, só para citar alguns. E uma segunda, de natureza mais complexa e perigosa – porque têm medo de do dia seguinte, um gigantesco receio de represálias sobre os seus atletas envolvidos nas seleções nacionais.

Mas  este  texto  é  sobretudo  para  todos  vocês!  Eu  diria  até  que  o  facto  de  temerem represálias  é  o  maior  indicador  de  que  algo  está  profundamente  doente  no  seio  da  nossa modalidade.   Para   quem   nos   têm   dito   isto   e   muito   mais,   tantas   vezes,   numa   quase “clandestinidade”.  É também para todo e qualquer delegado, treinador, dirigente ou árbitro com ou sem medo de represálias e que se cansou deste ambiente a fazer lembrar os tempos do pré-25 de abril. O começo de uma possível mudança está exatamente no próximo acto eleitoral. Tem de ser  também  um  sinal  claríssimo  de  insubordinação  para  com  quem  dirige  mal  os  destinos  da Federação.

Posições ambíguas ou de neutralidade

Mas faço também um apelo sincero e directo às altas figuras do judo nacional. Aos que foram e serão sempre um exemplo desportivo de sucesso para as gerações mais novas. Tudo o que o judo nacional não precisa agora – são posições ambíguas ou de neutralidade. Lá está, o temer o dia seguinte às eleições e uma possível derrota, será um sinal claro de que desistimos de lutar por um rumo diferente. Por um voto se ganha, por um voto se perde. Se a Nova Alternativa vencer isso é a democracia a funcionar, como a também a sua derrota. Todo o respeito do mundo por quem pensa diferente e acredita convictamente de que a lista do candidato do ex- presidente destituído é a melhor, para se suceder a si próprio Mas há qualquer coisa de estranho nesta frase e tenho receio de ser o próprio eufemismo.

Costuma-se dizer que cada país tem a democracia que merece. Aqui, não é menos verdade. A saúde democrática do judo português será aquilo que fizermos dela. Ao longo destes últimos meses e diria até anos – fomos assistindo a posições muito indignas e de uma elevadíssima prepotência por parte do actual ex-presidente da FPJ. Senão vejamos, em muitas das suas acções ficou e fica implícito, já para não dizer explicito, a passagem de um atestado de incompetência a quem o rodeia. Não conheço nenhum líder forte e inteligente que não saiba delegar. O silêncio ensurdecedor de uma larga maioria em relação às injustiças que fomos vendo acontecer tornam- nos inevitavelmente cúmplices deste estado de coisas. Porque quando um Presidente em funções vem para a televisão dizer (alto e em bom som): “a atleta já era conhecida como a miss Shido” revela pelo menos duas coisas: uma primeira, mais de índole particular – em que há uma gigantesca falta de respeito pelo percurso de uma atleta, que abraçou a nacionalidade portuguesa e que se fartou de ganhar por Portugal. E uma segunda, de carácter mais geral, que nos ofende a todos. Um presidente eleito é presidente de todos os judocas, não tem o direito de ofender publicamente um atleta.

Imaginam um outro presidente

O exercício pode até ser feito ao contrário, para os que se queixavam há muito tempo de não haver alternativa, pergunto-vos agora o seguinte:

  • Imaginam um outro presidente a chamar os críticos de papagaios?
  • Imaginam um outro a extinguir o treino federativo em Lisboa a título definitivo?
  • Imaginam um outro presidente vir para um órgão de comunicação social desvalorizar e brincar até com a saúde mental dos atletas?
  • Ou a dispensar o contributo de um selecionador nacional por email?
  • Ou imaginam um outro presidente numa assembleia Geral Extraordinária num exercício de autoelogio, puxando para si todos os louros do judo nacional dos últimos anos?

E, honestamente, podia ficar aqui o dia todo.

Já tive a minha dose de Coimbra

Ao longo destes últimos anos fomos assistindo a gerações inteiras de atletas desistir, porque sentiam não ter mais lugar num judo assim. Jovens, de um enorme talento, que desabafavam: “já tive a minha dose de Coimbra!”. Houve políticas desportivas de perseguição, com escandalosas convocatórias de conveniência clubística a que, todos, fechámos os olhos. Assobiámos para o lado, por exemplo à inexplicável extinção do treino federativo. Mas, imagine–se só, deixamos de ter uma análise critica de um modelo desportivo que torna os atletas – escravos do “regime” federativo. Aliás, que modelo? Parece adaptado agora a uma percentagem completamente subjectiva de participações.

E digo isto, talvez por defeito profissional, porque não cabe na cabeça de ninguém, um sistema desportivo em que não é dado ao treinador de clube a possibilidade de pensar a época desportiva dos seus atletas. Utilizemos uma linguagem mais simplista: Quem estabelece a periodização? Quem pensa na distribuição de cargas ao longo do tempo? Quando e como são “temperados” os períodos de paragem ou “tapering” dos mesmos?? O que sobra para o treinador de clube em termos de planeamento? Como poderá ele ajudar a manipular a curva de formas dos seus atletas, se quando o atleta precisa de descansar – treina e vice-versa. Talvez não seja mesmo coincidência, de que as melhores prestações em Almada, no passado fim de semana, tenham sido exactamente de atletas que muito por força das lesões (e do calvário que é uma recuperação demorada) tenham estado mais livres da “escravatura” dos estágios da FPJ.

Os clubes, sobretudo os mais pequenos, e as associações foram completamente esquecidos

Ao fim ao cabo é como se o Presidente da FPJ passasse a mensagem de que só confia no trabalho dos treinadores federativos! Na verdade, quando nos silenciamos todos perante um “modelo” desportivo disparatado, estamos ao mesmo tempo a alinhar com ele. E o que mais me revolta é que a imensa capacidade critica da maioria dos treinadores portugueses foi (há já algum tempo) substituída pelo medo. E aqui falamos apenas do aspecto desportivo relacionado com as seleções nacionais.

O que mais oiço dos apoiantes do actual ex-Presidente são declarações do género: – Os méritos da sua actuação, aquando da pandemia e os respectivos confinamentos. É inegável reconhecer esse mérito. Mas também deixo à consideração do leitor, que mais do que proteger os clubes, sobretudo os mais pequenos e as associações que foram completamente esquecidos, os esforços da FPJ foram quase exclusivamente no sentido de ter a equipa olímpica a treinar, sacrificando todos os outros atletas para o bem e para o mal.

  • Temos tido uma organização de excelência em grandes eventos. Portugal goza de um prestígio internacional em grandes eventos desde o Europeu de Almada 1994, a passar pelo Mundial do Porto em 1996 ou o Europeu de 2008 (que aliás foi classificado com a nota máxima pela UEJ). Dá-se a ironia de uma equipa fantástica na organização de eventos, que o próprio presidente fez questão de “despachar” há já algum tempo. Depois quando se conta com a competência de alguém do calibre profissional como a portuguesa Catarina Rodrigues (que goza de um enorme prestigio internacional) – eu diria até que fica fácil ser a cara de um evento.
  • Outra falácia, prende-se com a manipulação da perceção pública na análise dos melhores resultados de sempre em relação ao mandato do ex-presidente. Primeira vez que temos um Campeão do mundo. Sem dúvida! Ainda por cima, bicampeão. Mas não será uma esmagadora responsabilidade e mérito do próprio atleta e treinador? A maioria dos resultados foi sobretudo no sector feminino, havendo até um enorme vazio em demasiadas categorias do sector masculino português. Então, mas se os resultados foram tão bons, como nos conta o ex-presidente, então, mas porque é que se despediu a grande promotora desse legado?

Sem medo

A meu ver, muito do trabalho que caberia ao Presidente seria delegar num director técnico (cargo que parece não existir na actual direcção) a preparação e rodagem internacional dos atletas mais novos, no sentido de garantir o futuro da seleção sénior nacional e uma possível chegada ao sonho olímpico. Infelizmente caminhou-se na direção oposta, perdendo quadros importantes da federação que poderiam garantir isso, como também atletas de dimensão internacional.

Sei que no actual estado das coisas, tenho muito mais a perder em escrever este artigo de opinião, mas minha esperança é essa: de que o judo volte a ser de todos outra vez. Num espaço e num tempo sem lugar para o medo. Sem perseguições políticas. Um judo em que cada um conta, para o sucesso de todos. E que esse todo potencia o trabalho de cada um. Em que a federação é solidária com todos clubes e associações independentemente da cor política.

Artigo de Opinião, Tiago Silva

Editado, subtítulos Judo Magazine

SOBRE O AUTOR | Editor

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *