22/06/2024

O QUE DIZEM AS LISTAS (2)- Queremos mudar o judo para melhor, com a participação de todos

Nova Alternativa realiza um balanço positivo da campanha realizada

As eleições na FPJ estavam marcadas para 19 de fevereiro. Procurámos junto das listas concorrentes obter, através de uma entrevista, elementos fundamentais do balanço da campanha de informação que levaram a cabo no último mês.

Não obtivemos resposta da Lista A, já a Lista B, Nova Alternativa, respondeu afirmativamente e de forma muito participada. Estiveram connosco cinco candidatos, Sandra Esteves, Pedro Caravana, José Mário Cachada, Nuno Capucho e Felismina Barros e ainda o mandatário nacional, Alberto Rocha.

A desconvocação do acto eleitoral agendado para dia 19 de fevereiro retira deste encontro um sentido adicional de apoio aos decisores já que, admitimos nós, todos os votantes na Assembleia Geral Eleitoral teriam interesse em conhecer com algum pormenor as ideias e as propostas resultantes das atividades informativas que foram levadas a efeito durante este período de esclarecimento. Assim funcionam os processos democráticos.

Pareceu-nos, apesar de estar criada uma nova situação em termos eleitorais, útil divulgar o conteúdo central da entrevista realizada.

1 – GOVERNANÇA

A presença na entrevista de um grupo tão alargado de elementos da lista levou-nos a questionar os presentes sobre o significado desta forma de agir – uma presença coletiva – tendo em conta a tradição de ser o candidato ou candidata à Presidência a responder às entrevistas na comunicação social.

A Nova Alternativa, também nesta matéria, quer ser uma alternativa

José Mário Cachada

Esta é uma equipa pluridisciplinar, composta por pessoas com competências diversas e complementares que conhecem e amam a modalidade. Todos eles são bem melhores do que eu nas suas áreas de especialização. A minha missão será liderar esta equipa e, para tal, terei que me colocar ao nível deles.

Desenhámos perfis e cada membro da equipa preenche cada um dos perfis definidos. Somos por isso uma equipa na qual todos se complementam. E não é por acaso que o nosso Mandatário tem, ele também, o perfil e a atuação que tem. No fundo ele acompanha-nos no nosso percurso e constitui uma retaguarda fundamental para a nossa ação.

Pedro Caravana – Queria só reforçar com duas palavras-chave: a complementaridade e a descentralização. Complementamo-nos uns aos outros e desenvolvemos uma atuação descentralizada comprometendo-nos diretamente pelas nossas áreas específicas de responsabilidade.

2 – A CAMPANHA

Pedimos que nos fornecessem um balanço sumário, numa primeira fase através de uma visão panorâmica e global, que transmita o próprio feedback das ações levadas a efeito. E claro, de uma forma geral, saber se os objetivos definidos foram ou não alcançados.

José Mário Cachada – Adianto desde já que fazemos um balanço muito positivo desta campanha porque saímos muito reforçados a nível do conhecimento. Com os elementos colhidos podemos desde já afirmar que poderemos, caso sejamos eleitos, ser melhores atores em favor da modalidade.

Pedro Caravana
Desenhámos o Programa em tempo recorde

Como sabemos não se trata de eleições para um ciclo olímpico. Fomos afetados pela linha do tempo e pelo ambiente que se vive no judo. E temos consciência que nem todas as portas se abriram para o diálogo. Fico com a sensação que poderíamos ter feito mais. De alguma forma soube a pouco. Teria gostado de falar muito mais sobre o judo.

Nuno Capucho – Quando as portas se abriram foi muito estimulante. Falou-se um pouco de tudo mas sempre de forma interessada e nunca houve problemas. Foi possível falar com treinadores, atletas, árbitros, dirigentes e ficámos a conhecer melhor as preocupações de cada um. Falou-se muito de judo e isso foi positivo. Faltava essa dinâmica neste processo todo, ou seja, colocar o judo no centro das preocupações.

Felismina Barros – Já estamos a implementar o nosso Programa de Ação. Trabalhámos em equipa durante a própria campanha. como desejamos fazê-lo no futuro. Estamos de alguma forma já a restaurar a confiança porque estamos a promover o diálogo e sabemos que só há confiança se existir diálogo e proximidade na modalidade.

Sandra Esteves – Enviámos convites para todas as associações de classe, clubes e delegados e obtivemos respostas positivas e negativas. Alguns não responderam. Reunimos nos Açores, Madeira, Aveiro, Santarém, Lisboa, Leiria, Algarve, atletas de alto rendimento, ou com associações ou com delegados dessas zonas, o que não quer dizer que tenhamos reunido com todos os representantes dessas áreas territoriais.

Alberto Rocha – O judo pode estar a perder uma oportunidade, a nível nacional. Existe um desejo de mudança. Constatei que as pessoas acreditam nesta equipa e na proposta que foi adiantada. Veja-se a Comissão Científica que apoia este projeto. Quem está a apoiar publicamente esta candidatura sabe de quem se está a falar. Conhecem o profissionalismo de todos os candidatos e desta equipa em particular. Muitos são professores catedráticos que dão grande importância aos valores e à ética. Eles acreditam como nós que é possível vencer as eleições. Nós tratámos bem as pessoas e elas deram o seu retorno com ideias e situações que nos responsabilizam ainda mais. Queria destacar a última reunião com atletas do Alto Rendimento, sinto que o esforço e o trabalho que realizam deveria ser melhor reconhecido e que deveriam ser melhor tratados.

3 – O IMBRÓGLIO JURÍDICO

As peripécias que estão a marcar este processo surgem com uma regularidade surpreendente e já existe matéria suficiente para que se duvide da qualidade e até da transparência da dinâmica instalada. Procurámos saber se existe, da parte da candidatura, uma interpretação global destas manifestações, pensadas no seu conjunto.

Felismina Barros relembrou de forma sintética e sistemáticas as situações que marcaram a evolução do processo iniciado com a indicação do IPDJ para que a Assembleia Geral da FPJ resolvesse com a medida de destituição do Presidente, então em exercício, as incompabilidades detetadas pela auditoria que ele próprio realizou.

Felismina Barros

Constatámos que existiam supostamente algumas irregularidades na Lista A e reclamámos junto da Mesa da Assembleia Geral

Da nossa parte, JudoMagazine, resumimos as diversas situações suscetíveis de apreciação por parte da MAG e que foram pormenorizadamente clarificadas pela nossa interlocutora.

  • o não respeito pela limitação de mandatos de alguns membros da lista A;
  • as incompatibilidades de alguns elementos que integravam a lista;
  • eventualmente uma extemporaneidade da apresentação da própria lista;
  • a via utilizada para entregar / enviar a Lista à Mesa da Assembleia Geral;
  • o Programa da Lista A cujo conteúdo está em contradição com a convocatória para as eleições que supostamente seria para o período remanescente do mandato (2023-2024) e que surge com objetivos e ações para 4 anos, aliás com ações já realizadas;
  • a perda de mandato, por via da destituição do ex-Presidente, ser para o mandato na sua totalidade e não apenas para uma parte, surgindo aqui a ideia de “interrupção” que é uma interpretação criativa do conceito de mandato.

Felismina Barros – Foram-nos dadas meias respostas por parte da Mesa da Assembleia Geral. Foi no entanto acolhida, de forma concreta, a matéria relacionada com o limite de mandatos.

Felismina Barros foi muito precisa na avaliação do exercício de funções por parte da MAG. Na sua opinião a Mesa da Assembleia Geral, entre outros aspetos eventualmente menos relevantes:

  • decidiu omitir pronúncia sobre algumas questões que foram objeto de reclamação,
  • não cumpriu o seu papel de verificação da elegibilidade dos candidatos das listas,
  • aceitou uma remodelação da Lista A ao aceitar a substituição de um dos órgãos nos termos em que foi feita,
  • aceitou que a Lista A formalizasse a sua candidatura por mail, do endereço eletrónico do Presidente da Direção da Federação Portuguesa de Judo.

Filomena Barros – A reclamação que foi dirigida à Mesa da Assembleia Geral teve por base a própria aplicação do Programa da Nova Alternativa no qual a ação em favor da transparência surge como um dos pilares fundamentais das bases programáticas.

4 – O PROGRAMA

Das reuniões e dos encontros realizados durante a campanha terão resultado apreciações ao Programa de Ação. Essa abordagem às propostas e às ideias constitui uma matéria central porque no fundo a aceitação ou não de um programa confirma a própria bondade da candidatura.

Pedro Caravana – Assumimos que os fatores diferenciadores em relação à prática em vigor e à proposta da outra lista percorrem praticamente todos os temas que devem ser considerados na gestão de uma federação desportiva. Mas quero destacar a questão do modelo e do programa desportivo. Nesse plano obtivemos nas reuniões uma confirmação clara da necessidade de mudança.

Temos obtido bons resultados desportivos, com medalhas e boas performances. Só podemos sentir orgulho dessas conquistas, aliás elas deveriam ser muito mais valorizadas e não o têm sido. Mas infelizmente não podemos afirmar que para o judo no seu todo os resultados tenham sido positivos. No plano do judo para todos e na sua vertente de formação estamos longe de ter bons resultados. No fundo a questão é a seguinte: como é devemos alimentar esta pipeline que conduz aos atletas de elite e que conseguem ter classificações em Europeus, em Mundiaos e em Jogos Olímpicos? Se olharmos para a demografia do judo, em quantidade e em qualidade, verificamos grandes disparidades. Precisamos de uma maior homogeneidade nos diversos escalões e para tal importa tomar medias que aliás constam do nosso programa.

Das medidas valorizadas nas ações de campanha foram destacadas:

  • a lista de classificação desportiva com uma ampliação significativa do números de provas em bases descentralizadas (circuito nacional);
  • essa lista como base para o acesso ao nacional que se deseja mais seletivo e com mais qualidade;
  • um investimento forte na formação e nas escolas;
  • na relação com as escolas, além dos colégios privados, uma forte ligação à escola pública;
  • não limitar o judo nas escolas ao desporto escolar e impulsionar iniciativas de captação para a modalidade;
  • uma Comissão de Graduações que seja uma fonte de retenção e de aprofundamento do conhecimento do judo nacional;
  • uma estruturação de carreira no judo, para além daquela que os atletas de alguma forma já têm;
  • uma articulação muito forte com as famílias dos atletas;
  • uma descentralização que se traduza em maior proximidade.

Pedro Caravana – Foi muito positivo termos ido à Madeira, termos falado com os Açores, partilhado ideias e opiniões com as restantes associações, clubes, atletas, árbitros e treinadores. O distanciamento que existe nas matérias que preocupam verdadeiramente estes protagonistas da modalidade precisa de ser superado. A vontade de uma cooperação mais efetiva está muito presente e no nosso programa essa é uma questão central, a relação de apoio estruturado com os organizadores e dinamizadores da modalidade nos territórios.

Em termos complementares em matéria de fatores diferenciadores gostaria de salientar as intenções de aproximar o judo da iniciativa privada de forma consistente. Relembro que temos o projeto de angariar um patrocinador para cada um dos escalões tornando o investimento nas diversas áreas mais equilibrado e mais permanente.

NOTAS DE DESTAQUE

  • O apoio a provas de um Circuito Nacional retira das famílias muitos dos custos atuais e incentivará uma participação mais alargada de clubes das diversas regiões;
  • A transparência nas seleções, implica que se estabeleça que são os selecionadores nacionais que decidem e que existem critérios que são respeitados;
  • A segurança na gestão financeira da Federação permitirá uma efetiva aproximação à iniciativa privada;
  • As graduações não podem ter gestão casuística, devem ser cumpridos os regulamentos e deve ser a Comissão Nacional a decidir sem interferências;
  • Na Madeira há uma falta de treinadores, não vale a pena abrir mais clubes. A informação sobre a situação nas regiões é importante para a coesão global na modalidade.

5 – OS RECURSOS

Para executar um programa e desenvolver iniciativas que se consideram essenciais é necessário que que os recursos e a sua organização o permitam. Assim a visão sobre a gestão financeira também esteve presente neste encontro e Nuno Capucho foi o interlocutor privilegiado.

Nuno Capucho

Para avançarmos com as ideias que já divulgámos e que foram agora debatidas na campanha é indispensável sabermos como estão as contas.

Só sabemos o que aconteceu em 2021 mas não temos ideia do que terá acontecido na gestão da FPJ em 2022. Os pressupostos do Orçamento para 2023 são muito agressivos, complicados, enfim muito exigentes.

Teremos que colocar em prática todos os procedimentos de transparência que serão o garante da tarefa central que é o restaurar a confiança. Toda a gente tem que saber com o que pode contar. Temos consciência que quanto mais transparência mais críticas. Mas nós estamos preparados para enfrentar esse tipo de situações. O pior é existir uma nebulosa que cria desconfianças.

Naturalmente que a relação com as associações e os apoios para se encontrem mais recursos vai ser uma linha de trabalho importante. Os níveis de descentralização neste domínio serão avaliados com as próprias associações partindo da realidade e do limite dos recursos disponíveis.

Pedro Caravana – Reforço que necessitamos de uma gestão da federação que seja “auditável”. E desde logo assumir que o tema da gestão é da responsabilidade de todos os setores e consequentemente dos membros da equipa e não apenas da gestão financeira. A relação entre as atividades e os recursos financeiros tem que ter uma coerência inquestionável.

6 – A ÉTICA

Algumas situações que marcam este processo fazem apelo diretamente a questões de ética. Torna-se inevitável abordá-las.

José Mário Cachada – Os valores, que são para a vida, precisam de estar presentes nestes processos. Eles cruzam-se nestas realidades. Podemos falar de humildade, mas também de coragem. Não podemos deixar de ter em conta a disponibilidade e a generosidade daqueles que nos ouvem e que nós desejámos ouvir. A isso chama-se gratidão. Da mesma forma teremos que valorizar a participação daqueles que, em bases opostas, também estão a disputar as eleições para a FPJ. A sua ação é parte integrante da vida de uma federação desportiva. Por acaso uma Federação da qual gosto muito porque se trata de uma modalidade onde os valores éticos estão presentes de forma permanente.

Alberto Rocha

Temos que ser éticos para praticar a ética

Desde muito jovens que nos posicionamos nestes terrenos da ética e esta equipa tem esse ponto em comum. São pessoas credíveis e esta não é uma questão secundária. O seu perfil, a sua experiência e as suas convicções cruzam-se com as exigências éticas da gestão e dinamização de uma federação como a Federação Portuguesa de Judo.

7 – AS CONVERSAS

Alberto Rocha – As conversas que fomos tendo ao longo deste período permitiram-nos perceber que existem problemas como a saúde psicológica dos atletas que precisam de ser enfrentados. Justifica-se, nesse domínio, criar uma equipa que possa pegar no tema com conhecimento e vontade de contribuir para a evolução do judo nesses domínios. Outras federações já abordam o tema de forma organizada há uns tempos e eventualmente alguns resultados desportivos terão a ver com estas opções de organização e de investigação.

Sandra Esteves – Foi muito valorizado, nas reuniões, o facto de estarmos a realizar estes encontros e debates de campanha. Trata-se também de um elemento diferenciador. No fundo foi-nos dito que independentemente das opiniões tratou-se de um ato de coragem vir junto dos protagonistas do judo quando o ambiente não é muito favorável.

Sandra Esteves

Foi muito valorizado, nas reuniões, o facto de estarmos a realizar estes encontros e debates de campanha

José Mário Cachada – Na última reunião estivémos com atletas que representam o país ao mais alto nível. E com eles tivemos uma autêntica lição de ética desportiva. Pediram-nos para sermos os garantes de um tratamento justo e adequado para todos os atletas, sem exceção. Não querem justiça e equidade para eles, mas antes para todos aqueles que têm expectativas desportivas e que precisam de saber que serão tratados com justiça.

Nesta situação, com aquelas afirmações e pedidos de atletas de exceção como eles e elas são, só podemos confirmar que a nossa decisão de avançarmos com esta alternativa foi oportuna e torna-se agora indispensável.

ENTREVISTA conduzida por Carlos Ribeiro, realizada online.

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