19/06/2024

REPORTAGEM | As pequenas/grandes histórias do Santuário (2)

Ensinamentos das pequenas/grandes histórias que precisam de ser contadas

Henrique Nunes | Uchi-Mata

ENTREVISTA | Com Henrique Nunes, 16 de março 2023

O livro das origens

Na filmografia da Génesis há invariavelmente referência ao livro que é a fonte para a todas as explicações da existência do universo e do humano. Ao invés, na Odisseia de Baldassare, Amin Maalouf coloca o seu bibliotecário e livreiro, figura central do livro, com a missão urgente de localizar uma cópia de um dos livros mais raros e cobiçados alguma vez impressos, um volume chamado o Centésimo Nome, cujo conteúdo é considerado de vital importância para o futuro do mundo. Um livro que se relaciona com o Ano da Besta.

Aqui Henrique Nunes revela-nos o Traité Complet de Jiu.Jitsu que foi a publicação na qual Jigoro Kano retirou a base do judo. Ou seja, as origens.

“Foi aqui que Jigoro Kano extraiu o judo. O método de Jiu-Jutsu que ele desenvolveu foi a partir das técnicas apresentadas nestas páginas. Mas este livro tem uma história muito engraçada.

À direita – capa vermelha – o Traité Complet de Jiu-Jutsu – Méthode KANO

Aquecimento com letras

“Um aluno meu ficou em Angola e acabou por ir trabalhar para o Banco de Angola. Logo a seguir à independência acabou o gás, a lenha e outras fontes de aquecimento. No Banco começaram a arrancar os tacos do chão, as janelas, tudo o que era madeira para se aquecerem. Depois começaram a queimar livros. Ele trabalhava na biblioteca e apercebeu-se do tema e da importância da obra que entretanto foi reeditada em França. A primeira edição foi publicada em Nova Iorque em 1905. Há livros sobre a modalidade que o referem como uma peça rara no mundo do judo.

Um dia, há uns trinta anos atrás, esse meu ex-aluno veio a Portugal e convidou-me para jantar e ofereceu-me o livro. Adiantou-me que sabia que eu seria a única pessoa que cuidaria da obra como ela merecia. Agora está encadernado e preservado, mas trata-se de uma obra raríssima que foi capturada ao Banco de Angola e ia ser queimada”, relatou o nosso anfitrião que estava apenas a começar a contar histórias inesquecíveis da sua vida e do próprio judo.

Henrique Nunes

O uchi-mata de Katanishi

Eu pensava que percebia muito de uchi-mata. Tinha um histórico de vitórias no judo com essa técnica muito forte. Recorda-se que referi que para ensinar ao seu filho um sasae-tsuri-komi-ashi ou um sode-tsuri-komi-goshi a pessoa certa seria o Torok. Tecnicamente era a sua área de competência. Mas para o uchi-mata, nada feito, isso era comigo. O-soto-gari, uchi-mata são referências minhas.

Entretanto adquiri uns DVD em França, com mais de 3h de uchi-mata. Do Katanishi. É um senhor. Rapidamente apercebi-me que ainda tinha muito que aprender sobre uchi-mata e eu que tinha pago os DVD por um preço muito elevado, acabei por admitir que valeram a pena. O Mestre Katanishi virá brevemente a Portugal para orientar o próximo Clinic da ANTJ-Associação nacional de Treinadores de Judo” informou o nosso interlocutor.

O livro do Tomiki

Henrique Nunes adquiriu há uns 50 anos um livro pequenino, mas que está cheio de ensinamentos, orientado por Kenji Tomiki o criador do Goshin-Jutsu. Uma referência fundamental do judo e do aikido. Era 9º Dan de judo e 9º Dan de aikido.

“Um dia mostrei o livro ao Mestre Kobayashi e disse-lhe que o estava a ler. Ele olhou para mim e declarou numa só palavra “Artista!” e, estava dito.

KK era assim. Numa palavra comunicava o seu pensamento sobre uma matéria. Decretava a zona de classificação ou de enquadramento e não entrava nos pormenores. Esses tinham que ser procurados por quem o interpelou. Artista! Tanta coisa que poderia ser pesquisada sobre Kenji Tomiki a partir desta categorização aparentemente exclusiva do universo cultural. Algum tempo depois, pensando um pouco e procurando sentido para as palavras de Kiyoshi Kobayashi, as ligações ao criativo e ao lado estético do judo poderiam ser rapidamente estabelecidas. É o lado mecânico do pensamento dos japoneses que Murakami tanto desoculta na sua obra. Veja-se o Underground sobre o ataque com gás sarim no Metro de Tóquio.

Um pequeno livro, afinal com uma enorme dimensão teórico-técnica que não escapou ao olhar curioso e exigente sobre o “estudo do judo” de Henrique Nunes.

Foto de S. Kotani, retirada de uma revista brasileira

Kotani, uma história bonita

Nos anos 70, logo a seguir ao 25 de Abril, o nosso interlocutor foi ao Japão para frequentar um curso de katas no Kodokan. “No meio dos 400 participantes, devia de ser o único estrangeiro. A um dado momento um Mestre baixinho com cinto vermelho aproximou-se de mim e perguntou-me em inglês de onde eu vinha. Respondi-lhe naturalmente de Portugal e ele inclinou-se com um sentido respeituoso e adiantou-me – Dê os meus cumprimentos ao Mestre Kiyoshi Kobayashi -. Era Sumiyuki Kotani, professor de KK que era protagonista desta forma única de relação estrutural entre professor e aluno. Não nos podemos esquecer que foi o maior especialista de katas que o Kodokan já teve“.

Da nossa parte formos recuperar algumas das suas palavras que são famosas na aprendizagem da essência do judo. Nos treinos e em particular no randori que ele muito desenvolveu como método de aplicação das técnicas em movimento, adiantava aos praticantes:

Use somente a força necessária. É como se você estivesse a sgurar um peixe vivo: se apertar demais, ele morre; se não o segurar devidamente, ele foge. Sinta o seu adversário nas mãos. Entenda o judo, dedique-se e esforce-se até a exaustão.”

Ah! se o cinto falasse!

“Este foi o meu primeiro cinto negro. Já viajou muito. Inclusive por Angola. Claro que um dia deixou de me servir porque engordei muito (risos) e tive que o substituir, mas aqui está ele com a sua cor cada vez menos preta”, o contacto com o aquele cinto significou também imaginar um percurso. No fundo realizar aquela afirmação de circunstância, Ah se o cinto falasse! que histórias teria para contar.

O álbum das memórias

“Este é o álbum da minha vida desportiva. Assinado na primeira página por Kiyoshi Kobayashi e por Ichiro Abe. Tenho aqui algumas fotos das primeiras etapas do judo em Portugal. Uma delas é o primeiro estágio orientado por KK em Portugal. Outra, entre outras, é a inauguração do Judo Clube de Beja.

Também o primeiro Madrid-Lisboa que tinha atletas de Barcelona. É o caso do Serna que era Campeão de Espanha e que eles foram buscar para competir connosco.

Algumas são raras com uma que retrata a partida para o primeiro Campeonato da Europa no qual nós participámos, na Holanda, em 1960. Também uma ida de carro para Milão para um Campeonato da Europa com paragem em Burgos. Outra para o Campeonato da Europa em Essen, na Alemanha. E em 1963, o Europeu em Genebra.

A coleção cromos e fotografias

Houve, a um dado momento, uma coleção de cromos. Do judo e para o judo. E claro muitas fotografias emblemáticas. Algumas reúnem os nomes mais representativos da modalidade naquela época.

Comandante Maia Loureiro, Bastos Nunes, Kiyoshi Kobayashi, José Manuel Lampreia, Fenando Valadas, Edmundo Pires, Costa Lopes, José Maria Costa Cabral, Hugo Maia Loureiro, Costa Matos, Henrique Nunes e Duarte Leal e tantos outros.

Uma das fotos mais representativas dos praticantes da modalidade à época

Livros queimados pela PIDE

“Este livro é uma peça rara porque foi-me oferecido pelo Gomes. Também tem uma história relacionada com a PIDE. Eles incendiaram a Associação Portuguesa de Autores. Era um livro que contava as histórias do colonialismo e chamava-se Luuanda”.

E nos fomos ao encontro do livro e do autor dos quais se escrevem estas informações genéricas.

Luuanda é um livro de contos do escritor luso-angolano José Luandino Vieira publicado em 1963 pela editora Edições 70 em Lisboa. Este livro é constituído por três estórias: “Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos”, “A estória do ladrão e do papagaio” e “A estória da galinha e do ovo”.

Cromos de judo e capa do livro Luuanda

O primeiro judoca cego

A primeira criança cega que começou a praticar judo foi comigo e tinha 8 anos. Treinou durante 3 anos. O pai era médico. Mas teve que desistir e morreu pouco tempo depois.

Demonstrações de judo no cinema

Em Luanda realizavam-se demonstrações de judo em muito locais. O Judo Clube de Angola disseminava a modalidade um pouco por todo o lado. Um dos locais era o cinema. Eram demonstrações inesquecíveis. Hoje, as instalações do clube já não existem. Deitaram tudo abaixo e agora estão lá, em seu lugar, uns prédios. Há muitos judocas espalhados pelo país que começaram a praticar judo no JCA. Alguns estão em Lisboa mas uma parte significativa está fora da capital (no Algarve, nos Açores, nas Caldas etc.). Numa ocasião os juvenis do JCA vieram participar num torneio e ganharam tudo o que havia para ganhar. Provocaram uma autêntica hecatombe. Foi um choque muito grande para os praticantes daqui porque não estavam à espera de um judo tão desenvolvido como aquele que aqui foi apresentado. Foi um grande choque que mudou muita coisa no judo nacional.

Paris, Académica

Quando Henrique Nunes saiu de Angola, onde esteve para se fixar como treinador de judo mas acabou por não ficar, esteve uns tempos em Paris e preparou-se para ensinar judo como ele era ensinado nos países mais avançados com um bom desenvolvimento da modalidade. Treinou com judocas de primeiro plano e contactou com figuras centrais do judo na Europa como foi o caso do Mestre Awazu.

Depois do regresso esteve um ano na Associação Académica de Coimbra e posteriormente regressou a Lisboa, O seu clube foi durante muitos anos o Judo Clube de Portugal do qual é agora o primeiro sócio atendendo que os 12 iniciais são fundadores e ele é o 13ª.

Um judoca, melhor treinador de Basquete de França

Em França Henrique Nunes conheceu um jovem judoca que hoje é considerado o melhor treinador de basquete francês. Do judogi à bola no cesto, um percurso a conhecer e a analisar. Uma coisa é certa os judocas acabam por surpreender em muitas situações pela sua versatilidade.

O clube de judo mais antigo da Europa

O Budokai, clube britânico, é o mais antigo de todos os clubes na Europa no qual se pratica judo. Numa estadia em Inglaterra foi nesse dojo que os portugueses treinaram. O estatuto de velho clube de Londres não lhe retira a vitalidade. A coletividade surge ainda hoje como um dos maiores a nível nacional.

A caixa dos pins e emblemas (em 1º plano o referente aos 25 anos do JCP). Boneco/mascote produzida pela mulher de Kiyoshi Kobayashi

REPORTAGEM | As pequenas/grandes histórias do Santuário (2). Uma última peça concluirá esta démarche de Grande Entrevista com Henrique Nunes. REPORTAGEM – Os sons do santuário (3).

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