21/05/2024

O não-combate de Doha

Abe e Maruyama repetiram a dose e Hifumi saiu de novo vencedor

Há momentos tão especiais na vida das comunidades e no desporto em particular que quase de forma infantil sacralizamos os protagonistas e fixamos involuntariamente o acontecimento no domínio do sagrado. Ontem foi de novo a vez de colocar auréolas nos dois finalistas da categoria de peso de -66 kg no Campeonato do Mundo que decorre em Doha e observá-los como se o Coliseu de Roma tivesse regressado do tempo dos César ou se o Madison Square Garden nos viesse revisitar com Muhammad Ali e Joe Frazier em confronto de gigantes.

A construção de uma lenda antecipada foi reforçada pelo Kodokan ao ter acolhido um combate-show, uma espécie de tira-teimas, entre Hifumi Abe o Joshiro Maruyama para decidir, de entre os dois, quem seria o representante nipónico nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 na categoria de peso de ~66 kg.

Ontem em Doha a dose repetiu-se e antes do início do combate o painel afixava 3 vitórias de Abe e duas de Maruyama nos confrontos diretos entre ps dois. Abe iria alargar as distâncias já que sairia vencedor do embate por desclassificação do seu adversário.

Da mesma forma que o sociólogo Marc Augé classificou os aeroportos, as estações de comboio, as salas de espera dos hospitais, e outros, como não-lugares, ou seja espaços impessoais com regras próprias de funcionamento que escapam à lógica corrente da vida quotidiana coletiva, nas circunstâncias de ontem, em Doha, podemos afirmar que assistimos a um não-combate. Não que se ponha em causa a elevadíssima qualidade da disputa e a valia técnica dos dois competidores. Antes pelo contrário. Mas o confronto situou-se quase mais do lado do ballet do que do judo. Uma dança ritualizada na qual tudo é calculado ao milímetro. Todos os gestos são medidos e a zona de risco é reduzida ao máximo possível.

Um judo praticado em zonas muito baixas, com a disputa de pegas a dominar a maior parte do tempo de combate e ataques seguros, rápidos, para impedir iniciativas estruturadas e pensadas pelo adversário. Uma dança que se repetiu à exaustão, com um Golden Score a atingir de novo níveis recorde, e finalmente a penalização definitiva de um dos dois, no caso Maruyama, por não ter assegurado entre três ataques fortes do opositor uma reação ofensiva similar.

O árbitro internacional da partida, deu aula ao vivo sobre a gestão inteligente das regras do judo e foi um terceiro protagonista de grande qualidade na contenda.

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