21/05/2024

Um Europeu de Cadetes revelador das fragilidades do judo de formação

Só as duas medalhas salvaram o desaire que foi a participação no Europeu de Cadetes

Dois atletas de exceção, Maria Silveira e Rodrigo Janeiro, estão a servir de bandeira para os responsáveis da Federação Portuguesa de Judo declararem que os resultados registados na prova realizada em Odivelas, no fim-de-semana passado, foram os melhores de sempre e para escamotearem uma realidade que está a vista de todos: em Odivelas, em matéria de trabalho de seleção e de progressão do escalão CADETES, regrediu-se.

As medalhas isoladas não podem servir para tudo. A menos que seja esse o principal ou até o único objetivo de uma modalidade que pretende ter um desenvolvimento sustentado e consistente. Pondo de lado essa extraordinária conquista das duas medalhas, de ouro e de prata, o resto é francamente negativo. Pode-se optar por um modelo tipo Kosovo ou de alguns países cuja finalidade principal é ter valorização internacional através dos superatletas treinados para serem desportistas “representantes da nação”. Mas não será esse o modelo de desenvolvimento desejado.

Há muito tempo que se ultrapassou a fase de analisar os desempenhos em provas internacionais pelos resultados de atletas de exceção e de nível competitivo particularmente elevado. Maria Silveira e Rodrigo Janeiro eram candidatos a medalhas de forma natural. Desses dois cadetes da seleção que treinam no Sport Algés e Dafundo e no Sport União Sintrense, sabia-se que a sua presença no pódio, não surgindo nada de anormal, seria mais ou menos inevitável.

Na antevisão da prova  Maria Silveira declarou-nos (JUDO Magazine“Pode sempre acontecer alguma coisa. Temos de contar com isso. Mas tenho trabalhado muito e conto com um bom resultado. Se não acontecer nenhum imprevisto o ouro pode acontecer. O trabalho está feito. Já dei o meu melhor para chegar aqui., não só este ano mas também nos anos anteriores”.

78% dos atletas não venceram um combate

Mas ter 78% dos atletas participantes que nem sequer um combate ganham, isso sim é caso para refletir. Não está aqui em causa o empenho e o esforço de cada atleta. Antes pelo contrário. Está aqui em causa a tentativa de voltarmos ao discurso de há poucos meses “dos melhores resultados de sempre!”.

A linguagem é propagandística, com lógica de slogan e é dirigida a um público que aceita facilmente argumentos superficiais. Trata-se no entanto de uma forma de realizar balanços orientada para “os amanhãs que cantam”. Outros atletas de nível particularmente elevado também têm sido utilizados, noutras circunstâncias, para afirmar que “está tudo bem” está “tudo maravilha”. Mas as evidências do desaire nesta competição internacional são óbvias. 78% de uma seleção de 18 atletas não ganha um combate, teremos que admitir que há aqui algo que precisa de ser seriamente avaliado.

Comparar, ajuda a perceber

Se compararmos os resultados do Campeonato da Europa realizado em 2022 na Croácia com os deste ano as disparidades são evidentes!

O perfil de participação/resultados é relativamente comum aos diversos anos, com as inevitáveis oscilações. Temos tendencialmente atletas que vão mais longe, chegam até à repescagem em alguns casos, temos ainda atletas que vencem um primeiro e por vezes um segundo combate e cerca de metade que realiza a experiência de uma derrota logo no primeiro combate e que fica sem segunda oportunidade. Este perfil é relativamente comum e o trabalho é melhorar, progredir, ter mais atletas em cada grupo de progressão. Mas em Odivelas nada disto aconteceu. Regrediu-se em toda a linha. Constatou-se que não houve qualquer consolidação e muito menos progressão.

Veja-se o quadro abaixo e retirem-se as ilações que são devidas.


2023
Resultados2022Resultados
Margarida Trindade (-52 Sem vitóriasDaniel Viegas (-50 kg)Sem vitórias
Mariana Pereira (-52 kg) Sem vitóriasGonçalo Lampreia (-55 kg)3 vitórias
Maria Silveira (-57 kg) 4 vitóriasRui Anjos (-60 kg)1 vitória
Maria Dias (-57 kg) Sem vitóriasDavid Silva (-60 kg)1 vitória
Matilde Jota (-63 kg)  Sem vitóriasGonçalo Lourenço (-66 kg)1 vitória
Carlota Pina(-63kg),Sem vitóriasRodrigo Janeiro (-66 kg)3 vitórias
Beatriz Rosa (-70 kg) Sem vitóriasManuel Batista (-73 kg) 1 vitória
Rosa Mané (+70 kg),1 vitóriaFrancisco Pereira (-61 kg)Sem vitórias
Martim Nicola (-50 kg)Sem vitóriasGonçalo Loureiro (-90 kg) Sem vitórias
Afonso Reis (-50 kg), Sem vitóriasBeatriz Carinhas (-40 kg) Sem vitórias
Diogo Caetano (-55 kg)Sem vitóriasMatilde Gonçalves (-44 kg)Sem vitórias
Carlos Costa (-60 kg)Sem vitóriasInês Faria (-48 kg)Sem vitórias
David Silva (-60 kg), Sem vitóriasAdriana Torres (-63 kg) 1 vitória
Rodrigo Janeiro (-66 kg)4 vitóriasMariana Simões (-63 kg)2 vitórias
Duarte Júnior (-73 kg)1 vitória
Tiago Coutinho (-81 kg)Sem vitórias
Daniel Mazyar (-90 kg) Sem vitórias
Danilo Storozhuk (-90 kg)Sem vitórias
Total de vitórias
% de vitórias /participantes
10
55%
Total de vitórias
% de vitórias /participantes
13
93%
Total de atletas com vitórias4Total de atletas com vitórias8
Total de atletas sem vitórias14Total de atletas sem vitórias6
% atletas com vitórias22%% atletas com vitórias57%
% atletas sem vitórias78%% atletas sem vitórias43%
Total de atletas com mais de 1 vitória2Total de atletas com mais de 1 vitória3
% de atletas com mais de 1 vitória11%% de atletas com mais de 1 vitória43%
Medalhas2Medalhas0

TABELA: Realizado por Judo Magazine, FONTE site UEJ

Editado 23h32 – dados relativos a Gonçalo Lampreia retificados e consequências nos totais

SOBRE O AUTOR | Editor

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