19/06/2024

Bem-vindos à Sogipa

CLUBES – Mariana Esteves passou o mês de julho no mítico clube de Porto Alegre

Querem melhor anfitriã que a Mariana Esteves para nos abrir as portas da SOGIPA no Brasil? Atleta do mundo, Mariana percorre milhares de quilómetros e atravessa continentes ao longo do ano para viver a sua paixão que é o judo.

Mariana Esteves na Sogipa

Aterrou por um mês em Porto Alegre e agora partilha connosco uma experiência única e apaixonante vivida num dos maiores clubes do Brasil onde o judo é abordado em todas as suas vertentes. Com medalhas olímpicas e títulos mundiais a SOGIPA teve cinco atletas no Masters de Budapeste a representar a seleção do Brasil. Significativo, não?

Nesta abordagem, pela mão entusiástica da Mariana, iremos ao encontro do clube a pensar no Alto Rendimento. Numa próxima, será o judo inclusivo que nos fará regressar ao Rio Grande do Sul.

A SOGIPA completou ontem, dia 10 de agosto, 156 anos de atividade

Fundada por um grupo de imigrantes alemães com o objetivo de praticar ginástica, a Sogipa completa nesta quinta-feira 156 anos de atividades. O clube, considerado um dos mais importantes do Brasil, é hoje um centro de lazer, esportes e cultura que reúne milhares de pessoas e famílias todos os dias.

No início do ano a Taciana Lima, minha preparadora física, sugeriu que seria uma mais-valia treinar um mês na Sogipa. A ideia suscitou a vontade de conhecer a “fábrica” de medalhados olímpicos, diversas medalhas no circuito internacional e em mundiais tanto sénior como sub21. Antes de embarcar nesta aventura tinha conhecimento de alguns dos técnicos do clube

Durante as competições internacionais tive a oportunidade de conhecer o sensei principal, sensei Kiko, um dos treinadores da CBJ. Desde logo que compreendi que a loucura fazia parte do “método sogipa”. O método Wagninho no treino físico era algo que ouvia de histórias de quando a Taci era atleta. E é a base do trabalho dela como preparadora física. E a sensei Milena que também faz parte da minha equipa multidisciplinar como coach mental.

A Taci deixou bem claro que teria que estar preparada para tudo. Inicialmente, pensava que estaria a falar de um ritmo de treino diferente, nada que nunca tivesse experienciado de antemão. Contudo, bastou-me uma sessão de treino com o sensei Kiko para compreender as palavras da Taci. O treino só acabava com a palavra “Seiza” que significa ajoelhar. Até essa palavra ser emitida, nunca se sabia o que seria o treino e tudo podia acontecer, literalmente!

O sonho olímpico, não é sonho, é um objetivo

Quem entra no clube da Sogipa pela entrada principal é logo confrontado com a parede dos olímpicos onde estão as mãos dos judocas olímpicos da Sogipa, como também, de outras modalidades. O sonho olímpico naquele clube é real, ou melhor, não é um sonho, é um objetivo dos atletas, dos técnicos e dos dirigentes.

Ao entrar no dojo da SOGIPA somos presenteados com os campeões nas paredes: um mural com a história olímpica do judo da SOGIPA; um mural com os medalhados nos jogos pan americanos, universíadas, mundial sub21 e mundial de seniores; um mural dedicado a cada medalhado olímpico (Felipe Kitadai, Mayra Aguiar e Daniel Carginin); e um mural do João Derly o primeiro bi campeão mundial brasileiro. Para além disto é possível ver vários troféus de equipas conquistados pelos diferentes escalões etários. Se a motivação estivar escassa, ela aumenta ao entrar por aquele dojo. É tão certo como a água ser transparente.

Mayra Aguiar e João Derly

Equipa técnica

A equipa técnica da SOGIPA é composta por sete treinadores.

O sensei Kiko, o treinador principal, por quem existe um respeito tremendo por parte dos atletas. Todos sabem que é louco e alguém que não o conheça e esteja a ler as minhas palavras pensará de uma forma negativa. Mas não, a loucura é uma das suas qualidades, outra é o lado humano. É um sensei que trabalha muito mais do que judo, trabalha o psicológico dos atletas para a imprevisibilidade existente nas competições.

O sensei Daniel que trabalha com os mais pequenos e com a equipa de base (sub13, sub15 e sub18). A sua mais-valia é o treino técnico, a repetição e a correção dos pormenores que fazem a diferença para a melhor execução possível.

O Wagner é o preparador físico dos juniores e seniores. Durante diversos ciclos olímpicos foi o preparador da equipa senior do Brasil. Como numa família não pode haver um louco sozinho, ele também é conhecido pelos seus métodos loucos. Mais uma vez como forma de qualidade. Os treinos físicos seguem o método dos treinos de judo, nunca se sabe o que pode vir. São intermináveis, três manhãs por semana onde só se sabe a que horas começa o treino. O início são exercícios de aquecimento e de prevenção de lesão, seguem-se exercícios de força máxima e força explosiva, ora no ginásio, ora no tapete. A meio podemos ter direito a estímulos de velocidade em forma de sprint. Ou no final, estímulos de mudança de velocidade.

Algo que me marcou foi a sua capacidade de adaptação de exercícios/treino em caso de lesão, o que me permitiu treinar físico sem dor. Uma loucura humana, mais uma vez.

O sensei Moa é o treinador de ne waza (chão), uma parte do judo que nem todos os atletas gostam. Os treinos eram nas manhãs que não havia treino físico. Como atleta, eu gosto muito de ne waza, por isso talvez a minha opinião seja desde já subjetiva. O sensei abrangia uma situação em cada treino. Detalhes de colocação do peso, dos pés, a pressão na cabeça, entre outros. As situações eram simples e reais. Diria que o mote de trabalho é descomplicar o que é deveras simples.

A sensei Milena é técnica dos mais novos e da equipa de base. É especialista em ashi waza (técnicas de pé) e o seu trabalho tem sempre um objetivo a longo prazo. O que mais me fascinou foi a ligação que tem com a equipa. Tanto com a Mi, como com o Moa, a equipa de base grita o kiai (grito) no hajime (começo) de cada randori (luta). Adicionalmente, a Mi é mãe da Bella, uma criança com síndrome de Rett. Juntando este fator ao seu dinamismo e proatividade característicos, começou a receber casos de alunos com diferentes espectros de autismo nas aulas de judo. Iniciou um projeto social “Inspira” para crianças e jovens com dificuldades financeiras.

A sensei Gilmara é técnica tantos dos pequenos no clube e nas escolas, como também, dos veteranos. É visível o carinho que os alunos mais novos têm por ela e o grupo de trabalho que se formou de veteranos, que ora acabaram de entrar no judo, ora tiveram uns bons anos afastados da modalidade.

A sensei Maria é a mais recente sensei. Estou a falar da Maria Portela, atleta olímpica que se retirou das competições este ano e entrou na equipa técnica da SOGIPA. Começa a dar os primeiros passos como técnica e o seu conhecimento como atleta é uma mais valia para a equipa.

Mariana Esteves no dojo da Sogipa

Sucintamente, a SOGIPA é um clube com claros objetivos competitivos e ao mesmo tempo, onde todos podem fazer judo.

O meu mês de julho

O mês de julho resumiu-se a um mês de alta intensidade, muitos randoris, muito nague-ai (projeções alternadas), ou seja, muitas projeções com o objetivo de preparar a equipa sénior para os Masters.

Um aspeto que me fascinou foi o grupo de trabalho  Falo de um grupo de atletas que trabalha diariamente para atingir os melhores resultados desportivos. Num primeiro impacto, é um grupo fechado de poucos sorrisos e que leva a sério todos os treinos. Observando os pequenos pormenores, é um grupo que se ajuda mutuamente, que motiva e que tem um brilho único. Eles sorriem com os olhos, são sempre prestáveis a responder a perguntas mais técnicas ou mais de curiosidade

O judo no Brasil

A organização do judo no Brasil não pode ser comparado com o de Portugal. É uma realidade diferente, onde os atletas sub13 e sub15 treinam como gente grande. Fazem bidiários e até mesmo tridiários. Estes escalões já participam em campeonatos pan americanos. Enquanto que em Portugal, o primeiro campeonato europeu possível de disputar é nos sub18.

Os apoios financeiros são maiores, existe investimento do clube, da região e do Estado. Claro que não existem situações perfeitas, mas fazendo uma comparação com Portugal, conta-se pelos dedos de uma mão os clubes que são financeiramente capazes de pagar um salário ou até mesmo oferecer uma ajuda de custas aos atletas.

Maria Esteves, um mês de julho inesquecível

Fotos © Sogipa e Mariana Esteves

Editado 17/08 9h55 “Seiza”

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