26/05/2024

GRANDE ENTREVISTA JM – O judo a competir com Tchaikovsky, Carlos Ruiz Zafón e Francis Ford Coppola – 1

Na história do judo os Núcleos da DGD, nos anos 70 do século passado, tiveram um papel particularmente relevante no desenvolvimento da modalidade. Inserido numa estratégia de política pública visando impulsionar o desporto para todos, o lançamento dos núcleos teve lugar em todo o território nacional. Fomos ao encontro de um dos protagonistas centrais dessa operação, António Geraldes.

Na viatura, a caminho de Cabriz, Tachaikovsky vai irrompendo a seu bel prazer e intromete-se momentânea e involuntariamente na nossa conversa sobre a fraca resistência das pinturas das viaturas ha meio-século atrás. António Geraldes não esqueceu o Renault 5 que a mãe lhe ofereceu e prometeu que regressaríamos a Ferreira do Zêzere e a Tomar, mais tarde, a propósito da iniciativas de apoio à expansão territorial do judo em Portugal.

“Não dispenso três atividades na minha vida, a par do judo, que são a música, a literatura e o cinema. Confesso que tenho algumas preferências e, entre elas, está Tchaikovsky. Tenho aqui A Patética 6ª sinfonia que irei ouvir brevemente. Mas também aprecio blues e outros géneros musicais. Não sou fundamentalista. Gosto de ouvir, a maior parte das vezes quando estou sozinho” começou por revelar o nosso interlocutor que não precisou de grandes apresentações ou de uma definição precisa dos objetivos da entrevista.

António Geraldes construiu um universo de prazer e saber com os livros e a música

Tínhamos adiantado o nosso interesse pelo tema dos Núcleos da Direção Geral dos Desportos, mas rapidamente percebemos que para além das iniciativas e das ideias daqueles tempos do pós-25 de Abril sobre desporto popular havia um percurso singular de um dos fundadores do judo aberto e relativamente massificado que importaria conhecer.

Tchaikovski, Carlos R. Zafón e Apocalypse Now invadiram a nossa conversa sobre judo

O judo levou a melhor

“Perdeu-se um enfermeiro e ganhou-se um treinador de judo” adiantou António Geraldes que nos recordou o dilema que viveu depois de regressar de Angola onde participou na guerra colonial. “Na tropa revelei jeito para a enfermagem e rapidamente essa passou a ser a minha especialidade que exercia através de simples curativos e de pequenas intervenções que já exigiam alguma perícia. Quando regressei, depois do 25 de Abril, pensei que esse seria o meu futuro, mas não, o judo acabou por levar a melhor”.

E foram circunstâncias particularmente favoráveis que permitiram a António Geraldes corresponder de forma positiva ao pedido da sua mãe para a vir ajudar na bomba de gasolina e na pensão que ela orientava em Tomar e Ferreira do Zêzere. Helder Pontes, então dinamizador na Direção Geral dos Desportos e ligado ao judo propôs ao recém-chegado de África que assumisse naquelas terras ribatejanas funções de organizador de Núcleos de Judo. Foi juntar o útil ao agradável e desta forma o judo passou a ocupar um lugar central na vida do 7º DAN que possui várias outras graduações em artes marciais.

No Museu Geraldes

Uma sala repleta de troféus, de diplomas, de objetos de recordação e de fotografias invadiu o nosso olhar no primeiro piso da casa onde tínhamos acabado de entrar. Rapidamente surgiram nomes que nos eram familiares como Ishiro Abe, Kiyoshi Kobayashi, Awazu, Fabien Canu, Jean-Luc Rougé e muitos outros, portugueses e de outras nacionalidades, que ocupavam, todos eles, um espaço especial neste painel mural que de alguma forma retratava parcelas significativas da História do Judo.

Vista parcial do espaço-memória de António Geraldes

Os troféus, as medalhas, os objetos com significado especial alternavam com diplomas de formato e estética claramente nipónica. Um pouco do Japão, relacionado com o judo, estava ali representado. E a primeira surpresa remete-nos para uma fotografia com Kiyoshi Kobayashi em cinto negro. Quem conviveu com o principal dinamizador da modalidade em Portugal nos anos 60, 70 e 80 do século passado sempre conviveu com K.K. com o seu cinto branco e vermelho próprio da sua graduação – 9º DAN quando faleceu com 88 anos em 2013 -. Mas a circunstância peculiar de Ishiro Abe ter estado em Portugal e Kiyoshi Kobayashi o ter acompanhado nas suas intervenções relacionadas com o judo, levou KK, por deferência perante a grande referência do Kodokan e do judo Internacional que era Ishiro Abe – 10º DAN e com 99 anos quando faleceu em Fevereiro de 2022 -, a não utilizar um cinto de graduação elevada.

Diploma da IJF e Foto com Ishiro Abe, António Geraldes e Kiyoshi Kobayashi

Graduações através de exame

A propósito de graduações, percorremos os diversos diplomas que as paredes nos revelavam e constatámos que para além do diploma de 7º Dan da IJF relativo ao nosso interlocutor, estavam presentes graduações de budo e de taijutsu e uma específica para graduados em várias modalidades que consagra o detentor como um mestre em Artes Marciais.

António Geraldes aproveita para tecer algumas considerações sobre as graduações de judo em Portugal, ele foi membro da Comissão nacional de Graduações e recorda-nos que nunca teve quaisquer graduações por mérito. “Todas as minhas graduações tiveram na base um exame e uma preparação adequada dentro dos prazos estabelecidos. Recordo-me de ter realizado um exame para o qual me preparei de forma muito especial tendo mesmo produzido um livro sobre todos os temas que ia abordar. Tive alguns apoios informáticos e toda a matéria estava num dossiê bem organizado. Passei a parte técnica, com todos os elementos de prova necessários e depois sentei-me e estava pronto para a parte temática na qual tinha aprofundado diversos subtemas nos anos anteriores. Para minha surpresa Kiyoshi Kobayashi, que era com outros, o examinador disse “Embora, já chega. Vamos comer e beber cerveja!”. E assim passei de graduação mas sem mostrar tudo o que tinha andado a estudar e a preparar. O mestre Kiyoshi Kobayashi era assim” relatou-nos António Geraldes..

Estágios no Japão e Moscovo

E sobre estágios e atividades internacionais, António Geraldes valoriza todas essas experiências “Comigo, em 2002 esteve uma equipa acompanhada pelo mestre Kiyoshi Kobayashi, com Frygies Torok, Manuel Martins e Vitor Costa. Estivemos juntos num Estágio de katas no Kodokan. Conhecemos nessa situação grandes mestres, entre eles o Fuji, uma referência do judo de competição do Japão”.

Por outro lado esteve em Moscovo e conheceu a realidade daquele país. Ofereceram-lhe vários objetos de recordação.

“São situação nas quais aprendemos muito e amadurecemos o nosso judo” comentou o experiente judoca e treinador que mantém uma relação forte com o judo em Sintra.

Com Kiyoshi Kobayashi estão Manuel Martins, António Geraldes, Frigyes Torok e Vitor Costa

Uma relação aberta com as artes marciais

No clube de judo que António Geraldes orienta na Parede, antes das suas aulas é ensinado e praticado Taekwondo e noutros dias treinam os praticantes de aikido.

“Com o Jorge Matos que é 6º DAN do Karaté fazemos nas demonstrações umas brincadeiras que procura acabar com aquela ideia sem interesse nenhum que é a superioridade de uma modalidade em relação à outra. Ele realiza ataques de karaté eu projeto-o com técnicas de judo. As artes marciais têm um sentido de universalidade que importa respeitar. Importa juntar e agregar em vez de dividir este grupo de modalidades que têm todas elas o seu valor”

Um avô antifascista

“Na Carris, o meu avô, era um opositor ao regime. Uma vez foi perseguido pela GNR a cavalo entre S. Amaro e Belém. O objetivo deles era matá-lo. Os seus colegas da Companhia ofereceram-lhe uma cigarreira de prata e ouro que guardo religiosamente. Este meu avô foi muito importante na minha vida já que o meu pai faleceu jovem. Naturalmente tenho um grande respeito pela sua memória” confidenciou-nos António Geraldes que é um homem do seu tempo, que vive o judo com paixão, mas também estabelece pontes com a vida social e cultural que o tornam num cidadão esclarecido e empenhado. .

O avô de António Geraldes.

GRANDE ENTREVISTA – PARTE 1

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