13/07/2024

O desporto precisa de ideias e de esforços conjuntos de credibilização

Presidente do Comité Olímpico de Portugal reergue os princípios e enaltece as práticas exemplares na gestão da mensagem pública

O título é sugestivo: a gestão do silêncio. Remete-nos para um campo de atuação que tendencialmente associamos à inação e à passividade. Mas apercebemo-nos rapidamente na leitura do texto de José Manuel Constantino, que abaixo reproduzimos na íntegra, que afinal silêncio pode significar ação!.

Parecendo à primeira vista uma abordagem a estratégias de comunicação na área do desporto este texto-manifesto surge afinal como uma apelo informal à recuperação estrutural e identitária da dignidade e dos valores que o desporto deve assumir para contribuir para o desenvolvimento da sociedade.

Tudo indica que na comunicação social e na imprensa desportiva em particular, chegou a altura de ouvir os silêncios.

Presidente do Comité Olímpico de Portugal, José Manuel Constantino.

“A gestão do silêncio

Em opinião publicada em vários órgãos de comunicação social, em centenas de intervenções públicas, o Presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP) nunca usou o espaço público para apresentar e defender as iniciativas da instituição a que preside.

Fê-lo em entrevistas quando para tal foi solicitado e perante aqueles que representa nas respetivas assembleias plenárias, nos relatórios de atividades e nos textos que assina em suportes de comunicação do próprio COP. Outrossim, o Departamento de Comunicação do COP informa regularmente sobre a atividade da organização, de forma objetiva e sóbria, e fugindo a rasgos de enfatização ou elogios.

A sua intervenção no espaço público tentou sempre acrescentar valor a uma perspetiva cultural do desporto, a uma visão progressista do seu potencial e importância social, e ao papel das políticas públicas nesses desígnios.

Nos dias de hoje estas práticas seriam reprovadas perante qualquer estratégia de comunicação, que amiúde o é pura publicidade, que alimenta a ”sociedade do espetáculo”, desprovida de valores, e onde na chamada “governance” os fins justificam todos os meios.

A cultura “woke”, associada à vaga do neoliberalismo, acentuou este dilantetismo e progressivamente vem capturando os diferentes setores sociais e políticos, independentemente da invocação de matrizes ideológicas distintas (esquerda/direita). O papel crescente das redes sociais na construção da agenda mediática e da agenda política agravou esta tendência.

É uma pandemia absorvida pelo mundo ocidental, depois de estar circunscrito às universidades americanas, que nos tenta impedir de pensar racionalmente, carregada de snobismos onde prosperam os “visionários”, os “disruptivos” e os “evangélicos” do planeamento estratégico.

Operar neste quadro e pautar a intervenção pública por valores e princípios é um exercício muito difícil, nem sempre bem compreendido, até internamente. E na grande maioria dos casos votado ao fracasso. Mas a alternativa é ceder aos modismos comunicacionais e vender os princípios em que convictamente se acredita.

Se uma organização como o COP se não diferencia destas tendências o seu papel social perde relevância, é mais uma entre as demais e, a prazo, aliena a sua credibilidade por não ter uma cultura de intervenção pública distintiva que a projete a uma escala que não mercanteia princípios em nome da popularidade ou taxas de audiência, correndo o risco de se tornar uma mera caixa de ressonância acrítica.

A gestão das organizações também se faz de silêncios e da contenção à voracidade da espuma dos dias. O compromisso intransigente e empenhado na defesa de valores requer prudência na gestão da mensagem pública. Nem tudo serve.

O desporto tem casos a mais e causas a menos. Uma organização como o COP tem a obrigação de contribuir com ideias, mais do que alimentar agendas que não contribuem para a valorização social do desporto. O desporto precisa de ideias e de esforços conjuntos de credibilização, pois é a única forma de legitimar o seu valor perante a sociedade.

À medida que avançamos temos perfeita consciência que se trata do desafio mais importante, e porventura decisivo, daqueles que ainda acreditam no valor formativo do desporto.

Por isso, permaneceremos em silêncio quando outros falam, não apresentamos certezas onde subsistem dúvidas, e não temos soluções para tudo. O tempo nos avaliará.

José Manuel Constantino

Presidente do Comité Olímpico de Portugal

Fonte: site do Comité Olímpico de Portugal

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