Bronze em Tóquio confirma Catarina Costa como candidata a medalhas nos próximos Jogos Olímpicos

Um cheirinho a Jogos Olímpicos esteve presente na capital do Japão neste Grand Slam que adquiriu um estatuto especial no calendário da Federação Internacional de Judo. Hoje regressaram à memória de forma subliminar os ingredientes da prova olímpica disputada em 2021. No ambiente geral que reinou no pavilhão e na intensidade das disputas em todas as categorias de peso, sobretudo na fase do acesso aos quartos-de-final e claro às meias-finais, o registo desportivo e mediático foi o de uma competição ao mais alto nível internacional.

Catarina Costa conquistou a medalha de bronze no Grand Slam de Tóquio 2023

Confirmaram-se os favoritismos, na sua grande maioria, sobretudo do lado japonês e surgiram afirmações de estatuto que serão tidas em conta no percurso atribulado que vai ter lugar até aos Jogos de Paris. È o caso do “imperial” Kanikovskiy (AIN) em -100 kg que depois de ultrapassar Kotsoiev (AZE) nos quartos-de-final não deu qualquer hipótese aos seus adversários da meia-final e final, respetivamente Batkhuyag da Mongólia e Arai (JPN).

De sinalizar no campo dos favoritos o afastamento precoce de Rafaela Silva (-57 kg) pela italiana Capanni Dias, na primeira ronda e, em contrapartida, a presença da outra brasileira da mesma categoria de peso, Jessica Lima, que chegou à final contra Degushi (CAN) depois de afastar Klimkait (CAN), evitando assim a repetição de uma final norte-americana.

Os virtuose Abe, Hifumi e Uta, deram ao seu público o que este desejava, vitórias, medalhas de ouro e show de judo e pareceram enviar uma mensagem simples aos candidatos das categorias de peso -66kg e -52 kg: o dossart olímpico está bem entregue e não há intenções de o largar, seja por que razão for. Vieru teve a sua oportunidade de realizar um teste a sério nos quartos-de-final, mas Hifumi Abe não deixou o assunto arrastar-se e venceu de forma exemplar. Também Astrid Gneto (FRA) terá admitido que a final contra a japonesa seria uma ocasião importante para afirmar a sua alternativa na categoria de peso -52 kg, mas a sua resistência foi muito curta. Uma execução sustentada de um surpreendente ko-uchi-gari a partir de uma posição lateral projetou Gneto na primeira fase do combate e levou a campeã olímpica nipónica a mais uma vitória.

Deguchi, Jessiva Lima e e Kanikovskiy estiveram em destaque a par dos Abe

Portugueses, melhor no segundo dia

A medalha de bronze de Catarina Costa e o 5º lugar de Bárbara Timo (-63 kg) são duas marcas da jornada que colocaram Portugal na 14ª posição da classificação geral, dominada pelo Japão. O país anfitrião conquistou 16 medalhas das quais 7 de ouro.

Catarina que realizou um percurso consistente, depois de ultrapassar a japonesa Miyaki nos quartos-de-final não resistiu ao judo robusto da espanhola Figueroa que a afastou da final e a remeteu para a disputa de um lugar no pódio contra a atleta de Taipé Lin. No combate com a atleta nipónica Miyaki, viveu-se uma situação de grande ansiedade e quase de desespero quando Catarina foi imobilizada pela sua adversária no seguimento de uma ação pontuado com wazari favorável à portuguesa. O árbitro interrompeu a imobilização e de seguida, já em pé, atribuiu um ippon à ação anterior da atleta da Académica de Coimbra. Foi uma decisão da arbitragem que demorou o seu tempo e que pôs à prova os nervos dos portugueses que assistiam, pela noite dentro, ao Grand Slam.

Catarina Costa face a Julia Figueroa (ESP)

Por sua vez Bárbara Timo, que basicamente realizou o mesmo percurso que Catarina Costa, só que travou mais dois combates que a sua colega de seleção até chegar à meia-final, teve o seu combate decisivo contra a atual Campeã da Europa Andreja Leski que assumiu uma postura de superioridade e de sistemática insatisfação face a tática adotada por Timo. No essencial esta consistia em não dar o flanco à atleta eslovena precavendo situações de contra-ataque atendendo ao poder físico da judoca dos Balcâs. Leski acabou por ser derrotada por acumulação de shidos e Bárbara Timo seguiu em frente satisfeita com o rigor tático com que lidou com a situação. Nos dois combates que se seguiram e que lhe podiam ter valido uma medalha, notou-se que o seu judo estava menos aguerrido, o cansaço e o esforço da fase anterior fizeram-se notar, acabou por ceder face à japonesa Takaichi na meia-final e face à neerlandesa Lieshout na disputa da medalha de bronze.

Registe-se ainda as participações de Raquel Brito (-48 kg), Joana Diogo (-52 kg) e Miguel Gago (-66 kg) que venceram os seus combates iniciais tendo sido ultrapassados na ronda seguinte por adversários de grande qualidade. De assinalar ainda as duas vitórias de João Fernando (-81 kg) que foi travado antes dos quartos-de-final por Lee (KOR) vencedor na final de Mathias Casse (BEL).

Bárbara Timo venceu 4 combates

Bandeira e hinos

O que nos diz o olhar do atleta russo Kanikovskiy (AIN)? Não sabemos. Classificado pelos comentadores da prova como o “homem de gelo” que executa “planos perfeitos”, o vencedor da categoria de peso de -100 kg, aquela na qual participa habitualmente Jorge Fonseca, assistiu no pódio à entrega das medalhas e ao içar das bandeiras, com um olhar frio e eventualmente repleto de significados, difíceis de captar naquela circunstância.

Uma coisa é certa, para um atleta que se prepara com o apoio do seu país e que se bate com um sentido individual mas também coletivo, como todos os outros aliás, não deve ser fácil esta omissão da sua nacionalidade, no fundo da sua individualidade. Está ali, vencedor, mas é um invisível. Um campeão fora do baralho.

Uta Abe (JPN), no pódio, vibra com a subida progressiva da bandeira do seu país [Hinomaru ] e com o hino, ambos proibidos no pós-segunda Guerra Mundial pelas forças aliadas e rejeitados por territórios japoneses como Hiroshima e Nagasaki por representarem o imperialismo japonês, os genocídios nos países ocupados pelos nipónicos e uma propensão para o belicismo. Estes dois símbolos estão conotados com a ideia-força do Grande Japão e foram utilizados na Segunda Guerra Mundial em circunstâncias idênticas à cruz suástica nazi. Em 1999 foi aprovada a Lei da Bandeira e do Hino que impôs esta representação do país em ligação direta com o Imperador e os valores imperiais japoneses.

Outra situação que foi possível registar em Tóquio, com a conquista da medalha de bronze pela atleta israelita Gefen Primo, foi ao içar da bandeira de Israel, com a maior naturalidade do mundo. Enfim bandeiras e critérios que não devem ter passados despercebidos ao olhar de Kanikovskiy.

Kanikovskiy e bandeiras

Fotos @ IJF Tamara K.

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