19/07/2024

O desporto militar como ferramenta de coesão social

Seminário deu voz a protagonistas do desporto das Forças Armadas e das Forças de Segurança

DOSSIÊ JUDO MILITAR [1]

Inauguramos com a colaboração de Miguel Reis e da Sports Embassy um DOSSIÊ sobre judo militar abrindo portas a uma informação mais pormenorizada sobre o tema na qual procuraremos incluir abordagens reflexivas e experiências de vida de atletas que ilustrem a relação de judocas com as Forças Armadas e as Forças de Segurança.

Colaboração Miguel Reis

No passado dia 29 de abril, a Sports Embassy com o apoio da NATO, levou a cabo na Escola das Armas, em Mafra, o seminário “O desporto (militar) como ferramenta de coesão (social)”.

Inês Caetano, responsável pela Sports Embassy, promoveu a realização deste evento com o objetivo de alertar os setores do desporto e militar para esta temática, a qual pode ter impactos relevantes em setores críticos de um país.

Painel no qual Sandra Teixeira e Miguel Reis apresentaram as suas comunicações

Uma estratégia para o desporto

Na primeira parte, reuniram-se antigos atletas de alto rendimento em diversas modalidades, hoje com carreiras consolidadas em áreas como o Direito e a Gestão, para expor as dificuldades que encontraram em conciliar o alto rendimento com o ensino superior ou a integração no mercado de trabalho, sendo uma delas a ainda existente falta de sensibilidade para com quem pratica desporto neste regime tão exigente e a falta de programas efetivamente funcionais que permitam conciliar as duas carreiras.

Na opinião destes oradores e antigos atletas, é evidente a ausência de uma estratégia nacional para o desporto em geral e o desporto militar em particular, abordando a ideia de um programa de integração de ex-atletas de alto rendimento nas Forças Armadas e Forças de Segurança, tal como ocorre em Itália, e se esta poderia ser uma medida com benefícios mútuos enquanto forma de também colmatar a fraca adesão dos jovens ao ingresso nestas forças.

Judo e prevenção de comportamentos desviantes

Os oradores lançaram ainda a discussão relativa à utilização eficiente e colaborativa das instalações públicas e militares por parte das Forças de Segurança e Forças Armadas, promovendo assim a adesão à prática desportiva e a um estilo de vida saudável e também a possibilidade de enveredar por uma carreira no âmbito da alta competição.

De seguida foi apresentado o projeto italiano “Maddaloni Sports Center” o qual, através do judo, evita que jovens de zonas inseridas em contextos sociais marginais e ou em risco de marginalização enveredem pelo caminho do crime, à semelhança daquilo que aconteceu na juventude com o promotor deste projeto, Gianni Maddaloni, que mais tarde se reergueu e criou este projeto com o objetivo de evitar que outros jovens cometessem o mesmo erro.

Mitigar as diferenças

À semelhança deste projeto de coesão social através do desporto, foi ainda apresentado outro projeto italiano levado a cabo pelo clube ASD Judo Salerno, que promove a inclusão de crianças com limitações físicas e psíquicas acentuadas através da sua integração em aulas conjuntas com outras crianças e jovens sem limitações, gerando-se um espírito de entreajuda que permite mitigar as diferenças e estimular uma grande evolução nas crianças e jovens com mais dificuldades.

A experiência de profissionais

Já no período da tarde, tive a honrosa oportunidade de partilhar a minha atividade profissional enquanto agente de polícia e a atividade enquanto treinador e dirigente do Grupo Recreativo Gonçalvinhense juntamente com a Sandra Teixeira, Guarda Prisional, atleta de atletismo e Professora de Educação Física,

Em primeiro lugar, Sandra Teixeira apresentou o projeto desportivo que desenvolve em estabelecimentos prisionais, o qual permitiu eliminar barreiras de socialização entre reclusas de etnias distintas no interior dos estabelecimentos prisionais e canalizar a frustração daqueles que viram a sua liberdade ser-lhes retirada por questões legais e que apenas usufruem de poucas horas de ar livre por dia ao longo da jornada por que passam dentro destes estabelecimentos.

Ir ao encontro das pessoas

Sandra Teixeira identificou ainda outra necessidade de intervenção social que se relaciona com a forma como estes projetos se podem desenvolver e gerar impactos reais. Segundo a própria, “deslocou-se até ao Bairro da Cova da Moura e foi ao encontro das pessoas”, estando agora a iniciar neste bairro um novo projeto de coesão social através do desporto.

No Grupo Recreativo Gonçalvinhense temos a felicidade de contar com a presença e colaboração de várias pessoas que integram as Forças Armadas e Forças de Segurança, desde atletas a dirigentes e outras pessoas que colaboram diariamente na gestão diária do clube.

Perante este cenário, fui questionado sobre aspetos comuns no percurso de agente de Polícia e no percurso de atleta e enumerei aqueles que considerei mais relevantes: o espírito de sacrifício, a disciplina e a resiliência.

Miguel Reis agente de polícia, treinador e dirigente do Grupo Recreativo Gonçalvinhense

Conciliar carreira desportiva e profissional

Mudado o tema para a possibilidade de conciliar uma carreira desportiva de alto rendimento com o desempenho de funções nas Forças de Segurança ou Forças Armadas, houve um consenso na complexidade de compatibilizar estas duas carreiras, ao contrário do que acontece em outros países da Europa.

Aproveitei também para reforçar a importância das ações com cariz social que o Grupo Recreativo Gonçalvinhense abraça, tendo apresentado dois programas em particular que existem através da parceria com o Agrupamento de Escolas de Mafra e a Câmara Municipal de Mafra: o Desporto Escolar e o Movimento é Vida. O primeiro permite que crianças do Agrupamento de Escolas de Mafra pratiquem judo e futebol nas instalações do clube, de forma totalmente gratuita, enquanto o segundo consiste na cedência gratuita das instalações do clube para que um grupo da população sénior do concelho de Mafra, em particular da área de residência mais próxima ao local do clube possam ter uma aula de exercício físico ministrada por um técnico qualificado proveniente dos quadros da Câmara Municipal.

Servir e trabalhar para as pessoas e para a comunidade

Neste seguimento, e tendo sido o Grupo Recreativo Gonçalvinhense o primeiro clube a ser reconhecido com a Bandeira da Ética por parte do Plano Nacional de Ética no Desporto logo em 2017, fui questionado acerca dos valores e mais-valias que são transferidos da formação e serviço policial para o contexto desportivo e para a realidade do nosso clube. Esta questão já antes tinha sido alvo de reflexão da minha parte, pelo que me permiti afirmar que as pessoas do clube que exercem funções militares ou policiais trazem consigo, especialmente, o propósito de servir e trabalhar para as pessoas e para a comunidade, fazendo-o, no caso do clube, de forma totalmente voluntária. E esta é uma postura que coincide perfeitamente com aquela que é a motivação do Grupo Recreativo Gonçalvinhese.

O tempo permitiu ainda falar acerca do processo de digitalização do Grupo Recreativo Gonçalvinhense. Neste processo, o clube candidatou-se a um programa financiado pela União Europeia e operacionalizado em Portugal pelo Instituto Português do Desporto e Juventude, I.P., o DigiFit, e que está focado em desenvolver uma solução digital para desburocratizar e informatizar a maioria dos procedimentos administrativos e melhorar a eficácia na comunicação com os sócios. Este é um projeto já em fase de implementação e que se prevê estar terminado no final do ano de 2024, apenas sendo possível de realizar devido ao financiamento existente, dada a escassez de meios, nomeadamente financeiros, facto este que é uma realidade da grande maioria dos clubes de desporto recreativo.

O direito à segunda oportunidade

No fim foi pedida uma última mensagem a ambos os oradores. A Sandra Teixeira dividiu a sua intervenção em duas partes: a primeira, com o foco na alta competição, onde alerta para a necessidade de integração dos ex-atletas de alta competição no mercado de trabalho, nomeadamente nas Forças Armadas e nas Forças de Segurança, à semelhança do que ocorre em Itália, e a segunda, com o foco na reabilitação social, pois todos devem ter direito à mudança e a uma segunda oportunidade. Mudança essa que pode ser potenciada pelo desporto.

A minha mensagem final incidiu na reflexão sobre dois aspetos aos quais dou particular importância. O primeiro está relacionado com a descoberta de um propósito e que este seja a base do desenvolvimento de qualquer atividade, mesmo que isso não signifique um retorno financeiro, e o segundo onde me parafraseio: “Devolvam aquilo que vos foi dado. Porque eu recebi muito, o desporto permitiu-me ter muitas experiências e recebi muito, do Judo em particular, e esforço-me para devolver aquilo que me foi dado quer seja através da profissão que tenho, em que tento dar o máximo às pessoas, quer através desta atividade que eu tenho no clube como treinador e como dirigente, possibilitando que as pessoas também recebam algo através do desporto e que se desenvolvam, quer a nível desportivo e também pessoal”.

Em suma, ter participado com orador neste seminário foi uma excelente oportunidade, pois deu-me a possibilidade de juntar, na mesma reflexão, os meus mundos do Judo e das forças de segurança.

Uma vez mais agradeço à Sports Embassy e à Inês Caetano pelo convite.

Para todos os interessados na temática, é possível assistir ao seminário online através do seguinte LINK .

Informação sobre o seminário

Fotos © Sports Embassy

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