Kano, Bor e Aleixo, histórias ao descer da rua

@Judo Magazine | CR | 6 de junho 2020 | Rota da Bandeira da Ética | Judo Clube de Portimão

Aqui constrói-se o judo dos outros pódios. Sobem, para receber as medalhas, todos aqueles que ultrapassam as suas próprias barreiras, que atingem os seus objetivos apesar do ponto de partida se ter apresentado como inibidor de esperança de uma progressão minimamente consistente. São medalhas e cintos de ouro que representam vitórias por ippon. Um desfecho pleno, seguro, consistente de quem teve de, em primeiro lugar, derrotar a sua própria timidez, a sua falta de confiança, a inexistência de rumo e motivação para o seu percurso, a dificuldade de assumir diferenças, para ser igual.

No Judo Clube de Portimão (JCP) a Bandeira da Ética confunde-se com o estandarte do próprio clube. Como poderia hipoteticamente declamar o Poeta Aleixo “A ética dessa bandeira, está inscrita em Portimão, através de judo e modos, naquela agremiação”. Isto porque a Escola Secundária, vizinha do JCP, adotou o nome do mais popular dos malabaristas da língua portuguesa, arte de saltimbanco por ele colocada ao serviço dos mais pobres e injustiçados.

Imagem positiva

Do estabelecimento de ensino, ali mesmo ao lado, emergem ecos de uma relação estreita e cúmplice “O Judo Clube de Portimão é nosso vizinho. Na verdade, só é preciso descer um bocadinho de rua, quando saímos da escola, para lá chegarmos. Apesar da proximidade, durante anos não precisámos de lá chegar: habituámo-nos a registar anda no Judo (no Judo Clube de Portimão), sempre com um sinal + à frente, quando entrevistávamos os nossos alunos a propósito das mais diversificadas razões. As múltiplas histórias contadas por alunos e alunas, pais e mães, fizeram com que desenvolvêssemos uma imagem muito positiva acerca do clube, dos seus dirigentes e treinadores”, adiantou-nos Isabel Quirino Psicóloga Serviço de Psicologia e Orientação Escola Secundária Poeta António Aleixo Portimão.

Qual é o segredo?

Os dados estão lançados e alguns impactos evidenciados, resta saber o que está por detrás desta capacidade de construir diferenças pela positiva e de influenciar comportamentos e formas de agir que são particularmente valorizados nos contextos sociais do quotidiano e especialmente no universo escolar.

Um ambiente de exceção

Joaquim Baptista, dirigente do clube, relata-nos um episódio aparentemente banal “temos uma área de escritório nas instalações do clube. Os atletas passam, entram e saem. Não há jovem, atleta, pai, amigo, visitante que não diga bom-dia à passagem. A cordialidade, o respeito de uns pelos outros, é uma marca daquilo que classificamos de ambiente de exceção”. Regras e formas de relacionamento que se prolongam noutros espaços e noutros contextos por vezes mais exigentes. “Fomos a Itália, participar num estágio para o qual o Renato Kobayashi gentilmente nos convidou. Foi uma experiência fantástica também a esse nível. Demonstrámos, como acontece nas provas de judo nas quais participamos, que os nossos jovens atletas se relacionam com toda a gente, interagem com educação com os adultos e apreciam o relacionamento amigável com os atletas dos outros clubes” pormenorizou o dirigente algarvio fazendo uma abordagem aos valores e às práticas sociais convergentes que, no seu entendimento,  têm também muito de espontâneo da parte dos atletas, que são influenciados pelo ambiente geral que existe na instituição.

Sucesso escolar

Ter boas notas na escola é fixe! Eis um lema que domina o pensamento coletivo sobre a questão crítica do sucesso escolar e, ao invés de um certo discurso rebelde e anti institucional que constrói através do confronto com a escola uma estratégia de afirmação pessoal, a comunidade judoca integrou, de forma positiva,  a interação entre a escola e o desporto como uma combinação essencial para ter sucesso nos diversos desafios que se colocam a cada um e a todos.

Este quadro favorável a um bom relacionamento e à entreajuda entre todos estende-se a iniciativas com os pais que participam ativamente nos eventos que ocorrem regularmente. A dinamização de projetos de solidariedade social, como é o caso do Interajudo, surge neste âmbito de cooperação como mais um reforço do perfil solidário e amigável do clube.

Trata-se de dar expressão a um conjunto de valores que a prática do judo liga a um sentido educativo e formativo, constituindo, portanto, um verdadeiro valor acrescentado.

Bor, o esloveno

Um exemplo deste espírito de ligações sociais positivas é-nos dado pela experiência de um jovem judoca esloveno de 13 anos, Bor de seu nome,  que estando de férias no Algarve encontrou no Judo Clube de Portimão um ponto de apoio para treinar e fazer amigos em Portugal. Como ele escreve no seu mural do Facebook “fui muito bem aceite assim como toda a minha família e senti -me em casa. Desde então, tenho contatos regulares online com o treinador e os amigos do judo português e mal posso esperar para poder treinar com eles novamente”.

Esta ligação não ficou por aqui e mais uma vez o judo fez remover montanhas ao ponto de, como relata Bor  ”em maio de 2019, recebi um convite inesperado do técnico Joaquim Baptista para competir no campeonato nacional de cadetes de clubes com a equipa do JCP. Fui autorizado pela minha escola para me ausentar durante seis semanas, tendo um plano rigoroso de formação a distância para cumprir. No dia 22 de novembro de 2019, voei sozinho de Veneza, para Lisboa onde, para meu espanto os treinadores Joaquim e Delfim me esperavam no aeroporto. No sábado, 23 de novembro de 19 já estávamos a competir”.

Receção ao Bor – aeroporto de Lisboa

O dia da folga

Bor, o jovem esloveno, surge como um caso marcante de um determinado tipo de relacionamento que é parte integrante da identidade e da cultura do JCP. Como nos relata Isabel Quirino esta marca também está presente no acompanhamento de  jovens exteriores ao clube como aconteceu num projeto que a psicóloga de orientação nos recordou “em 2014, tivemos um projeto aprovado pela Fundação Calouste Gulbenkian, o projeto EMA – Estímulo à Melhoria das Aprendizagens, que visava a melhoria das aprendizagens dos alunos dos cursos profissionais da nossa escola, lembrámo-nos logo do Judo Clube de Portimão. Ao longo desse ano, todas as turmas abrangidas pelo projeto passaram pelo clube, em atividades que generosamente aí foram dinamizadas para preencher o que então se chamava “o dia da folga”: este era o dia em que saíamos da escola para vir conhecer outras pessoas, bons exemplos na comunidade, com as quais podíamos aprender o que não está escrito explicitamente no currículo – carácter, valores, princípios, atitudes. Na dinamização destas atividades, tivemos a sorte de poder contar com a colaboração de alunos nossos que eram, simultaneamente, atletas do clube. A avaliação foi super positiva, tal como seria de esperar. É muito bom saber que estes nossos vizinhos continuam aqui, ao descer da rua…. e esperamos que continuem, por muitos e bons anos. Fazem-nos falta!

Isabel Quirino

A bandeira entregue em mãos

Joaquim Batista não esquece duas situações relacionadas com estes temas e em particular com a bandeira da Ética. A primeira prende-se com a entrega do estandarte pelo Delegado Regional do IPDJ, direta e pessoalmente, na cerimónia dos Cintos de Ouro em Portimão. A segunda foi a expressão que ele próprio utilizou quando o Paulo Nogueira do Grupo Recreativo Gonçalvinhense – secção de judo lhe apresentou os objetivos e os critérios de atribuição da bandeira, que foi a seguinte: “Eh pá, mas isso é a nossa cara!”.

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