Jorge e a polícia

publicado 23 de setembro 2022 | OPINIÃO Carlos Ribeiro

Quem toca na imagem de Jorge Fonseca, só se ridiculariza!

Todos percebemos que tudo terá sido feito, por parte das autoridades competentes certamente influenciadas pelo poder político, para que Jorge Fonseca ingressasse na Polícia de Segurança Pública. Ajustaram-se regulamentos e criaram-se condições para que o acesso fosse possível, dentro de regras democráticas que pressupõem a universalidade das medidas adotadas, não tendo havido quaisquer privilégios para o bi-campeão mundial de judo.

Mas o processo não teve o desfecho desejado por parte de todos os interessados e a matéria pode agora servir para as diversas categorias de “críticos de serviço” encavalitarem-se no sentimento de frustração que se cria neste tipo de situações, que são conotadas com o “não-reconhecimento” e que alimenta para os soit-disant “não-reconhecidos” o sentimento de injustiça.

Três dimensões a ter em conta

Serão três as dimensões que podem ser tidas em conta na avaliação desta situação:

  • a estrutural, que remete para as carreiras dos atletas de Alto Rendimento e consequentemente para as fases pós-desempenho desportivo do ciclo de vida profissional dos atletas;
  • a conjuntural, que tem em conta as variáveis presentes no processo de ingresso de Jorge Fonseca e a participação no concurso;
  • e a pessoal, que nos conduz a acompanhar num plano mais íntimo e mais direto um homem cujas provas de bondade ultrapassam tudo o que é imaginável.

Carreiras e exceções

A questão que se colocou, na abordagem ao tema da carreira profissional, não foi o ingresso no ensino superior que está assegurado por legislação específica, não foi a criação de atividade empresarial própria que conta com apoios direcionados para atletas (veja-se o papel do Sindicato dos Jogadores de Futebol no apoio à criação de empresas por parte de jogadores em fim de carreira), não foi ainda a continuação linear de uma atividade como desportista de prestígio mundial, como treinador. Jorge Fonseca fez uma opção de vida profissional que só é acessível através de concurso.

O que aqui se coloca é avaliar do interesse público na presença de atletas que representaram o país em palcos internacionais nas forças de segurança e eventualmente militares e atribuir-lhes missões específicas, de interesse nacional, que justifiquem a criação de condições excecionais para o seu ingresso. Países há que estabeleceram essa linha de compensação para os atletas que tudo deram enquanto desportistas e que precisam de ser considerados na sua especificidade quando terminam a sua prática desportiva de Alto Rendimento.

Poder-se-á alegar que estas exceções, num país democrático mas com tradições de “corrupção de secretaria”, que o regime salazarista tanto alimentou, são sempre um risco para abusos e para fomento de pequenos poderes discricionários. Mas a causa justificará certamente a existência desse risco que poderá, certamente, ser gerido e condicionado.

O concurso

A questão do concurso de ingresso e a forma como correu para Jorge Fonseca revela uma expetativa de sucesso baseada num equívoco relacionado com os conceitos em presença.

Resolvida a questão da idade foi necessário satisfazer as condições relativas às habilitações literárias. A opção foi realizar um processo de RVCC – Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências que é apoiado por uma equipa de um Centro Qualifica. Nesta atividade o reconhecimento e validação incide sobre competências adquiridas ao longo da vida pessoal. social e profissional e a serem validadas as competências por relação a num Referencial pré-estabelecido, o adulto candidato obtém um Certificado que tem equivalência, no plano escolar, ao 12º ano.

Neste processo o conceito dominante é o da COMPETÊNCIA. Ou seja Jorge Fonseca teve de demonstrar que desenvolveu, ao longo da sua vida, competências diversas que fazem apelo a conhecimentos, a saberes operacionais e a atitudes e comportamentos adequados para situações de vida quotidiana.

A equivalência escolar é apenas uma dimensão de “justiça social” face aos percursos de vida dos adultos candidatos, mas o mais importante está na verificação por parte de cada um de um nível de habilidades, capacidades e formas de agir que eram secundarizadas pelos próprios e que constituem um arsenal de ferramentas para enfrentar novas situações. O processo é de autovalorização e não principalmente de certificação de saberes escolares. Trata-se de competências, não de conhecimentos enciclopédicos ou de “cultura escolar”.

Ora aqui reside o equívoco no processo Jorge Fonseca. A condição de passar uma prova de “cultura geral”, certamente legítima e até indispensável para ingressar numa função exigente de representação da autoridade do Estado, não teve a devida compatibilidade com o processo RVCC, que é de outra natureza.

Foi pois um erro ter colocado o atleta numa situação para a qual ele não podia garantir o sucesso, aliás como sempre tenta fazer. É como treinar alguém para o salto em comprimento e no dia da prova a competição é de triplo-salto.

Jorge, o bom

Por último, a questão pessoal. Jorge Fonseca entregou duas medalhas que acabara de conquistar a nível internacional a dois jovens judocas. À Teresa, da Marinha Grande e ao Tomás, de Mafra.

Conhecem algum atleta olímpico, internacional e conquistador de medalhas que tenha tido este gesto? Estes jovens ficaram com o coração cheio. Choraram de alegria. Mas podem crer, o coração do Jorge ficou igual ao deles. “EH! puto, anda cá! Esta fica para ti!”. Já imaginaram esta situação, única no desporto.

Esta questão da bondade do Jorge não é secundária. Quando sabemos que as polícias da Europa andam a ser minadas e seduzidas por milhões de euros para serem tropa de choque da extrema-direita nos diversos países europeus, Portugal incluído. Ter homens bons de coração grande na polícia é uma proteção democrática para todos nós e é fazer justiça a um homem com coração grande. Já agora, e não é aqui matéria central, é um grande campeão de judo que nos enche de orgulho, mas sobretudo que nos faz sentir que o judo é um desporto de força, de agilidade, mas também de arte.

Carlos Ribeiro | Opinião

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