Em Paris queremos ter mais atletas e cabeças-de-série

TÓQUIO 2020 | RESCALDO e olhares sobre o futuro

Entrevista com Jorge Fernandes, Presidente da Federação Portuguesa de Judo | Carlos Ribeiro

Jorge Fernandes não esconde a sua satisfação pelos resultados de Tóquio 2020. Uma medalha de bronze, um quinto lugar e um número elevado de presenças entre os dez primeiros na classificação final por categoria de peso são evidências de uns Jogos Olímpicos inesquecíveis para o judo nacional. O balanço, numa avaliação espontânea, é extremamente positivo. As suas palavras vão em primeiro lugar para os atletas mas o Presidente da Federação Portuguesa de Judo não quer deixar para segundo plano a equipa de treinadores nacionais que, na sua opinião, realizou um trabalho de excelência.

“Já estamos a pensar em Paris 2024 há muito tempo. Claro que agora podemos apontar objetivos e definir o modelo de trabalho de forma mais precisa. Mas o que iremos fazer, a pensar nos Jogos da capital francesa, está em linha de coerência com o que realizámos para os Jogos no Japão. Aliás o desenho que está definido para a participação olímpica já inclui Los Angeles em 2028 e, apesar de mais distante, os Jogos na Austrália em 2032” estas foram as afirmações que Jorge Fernandes proferiu com a maior naturalidade do mundo como que a declarar que os bons resultados de Tóquio terão sido, acima de tudo, uma confirmação do modelo instituído pela FPJ em Cernache e Coimbra. A estratégia de agrupamento intensivo criou imensas oportunidades para todos os atletas dos vários escalões de competição e alargou o âmbito de preparação dos atletas olímpicos.

Jorge Fernandes e dirigentes da FPJ

“Este modelo é para continuar”

“Ele produziu os resultados esperados e os atletas validaram-no por diversas vezes quando decidimos auscultá-los” recordou o Presidente da FPJ que fez questão de salientar que houve unanimidade sobre a melhor estratégia para proporcionar boas condições de treino e alargar as possibilidades de preparação com um número particularmente elevado de competidores “Uns e outros participam com objetivos eventualmente diferentes mas todos revelam um grande interesse e uma grande vontade em aproveitar a presença de atletas de níveis também muito diferenciados” adiantou.

Telma e Joana

A nossa curiosidade sobre a eventual participação no próximo ciclo olímpico de Telma Monteiro e de Joana Ramos, atletas jovens mas com idades acima dos 30, obteve uma resposta categórica do Presidente “Não trabalhamos a partir do Bilhete de Identidade. Para nós se os atletas conseguem obter a sua qualificação nas provas internacionais e conquistam um lugar para os Jogos Olímpicos têm todo o nosso apoio. Assim será com a Telma, com a Joana e com qualquer outra ou outro atleta. Isto não impede que preparemos as novas gerações e que criemos oportunidades aos mais jovens. Mas neste caso, na minha opinião a maior parte dos que estiveram em Tóquio têm todas as condições para irem a Paris. Antes de Tóquio outros atletas andaram no Circuito Mundial mas não conseguiram um lugar. Temos pena, claro, mas os que foram conquistaram medalhas nos Europeus, nos Mundiais e posições cimeiras em provas de grande exigência. Lamentamos que a IJF não tenha respondido de forma positiva ao nosso pedido da entrada do 9º atleta pela quota. Teríamos competido por equipas e teria sido um recorde em toda a linha para o judo nacional”.

O que mudou?

Precisávamos de uma explicação para o sucesso obtido e Jorge Fernandes não se fez rogado

“É simples entender que a nossa participação está marcada por algo de novo que consiste em ir às provas para lutar por medalhas. Ou seja, não dependemos deste ou daquele atleta. Estamos em condições de disputar as posições cimeiras com todos os outros. No judo, nos dias da competição as coisas podem correr bem ou menos bem. E isso faz toda a diferença. Veja-se que há atletas que perdem com adversários que já tiveram oportunidade de derrotar por duas ou três vezes. Para Paris, tendo em conta a mais recente evolução do nosso modelo de treino e de preparação não tenho dúvidas em afirmar que nós poderemos levar 11 ou 12 atletas a França e mais uma vez, para lutar por medalhas. O Jorge Fonseca tem toda a legitimidade para afirmar que quer o ouro olímpico.

O desporto escolar é uma mentira

O presidente da FPJ faz questão de ser justo na avaliação das condições que foram proporcionadas ao judo nacional para se preparar para Tóquio “Não nos faltou nada. Tivemos tudo o que pedimos e só podemos valorizar o investimento realizado. Agora esta aposta nos resultados imediatos não pode esconder as fragilidades que todos constatamos existirem no trabalho de base do desporto nacional. O desporto escolar é uma mentira, não existe. Todos sabemos que é uma atividade menor na escola. Não está instituída uma obrigatoriedade a sério. Aliás deveria começar logo no 1º ciclo, duas vezes por semana” reclamou o dirigente do judo nacional que defende uma clara aposta no fomento de uma cultura desportiva no país. Jorge Fernandes insiste numa clarificação que envolve Jorge Fonseca o bicampeão do mundo de judo “O Jorge não vem do desporto escolar, como alguns afirmam. Não é verdade. O Jorge Fonseca vem da Damaia, vem do Sporting, vem dos clubes que o apoiaram. No desporto escolar é preciso passar das palavras aos atos. E o judo tem que estar presente nas escolas nessa intensificação da educação física e da prática desportiva nos estabelecimentos escolares”.

O desporto escolar é uma mentira, não existe.

A relação com os clubes

Procurámos aprofundar com o nosso interlocutor um tema que na construção dos modelos de desenvolvimento desportivo, com destaque para o Alto Rendimento, surge sempre com alguma controvérsia, a questão das relações equilibradas entre os trabalhos na seleção e nos clubes. O dia-a-dia dos atletas realiza-se nos clubes, será principalmente nesse quadro que desenvolvem de forma continuada o seu potencial. Há atletas que estando enquadrados na seleção mantêm uma relação privilegiada com o seu treinador e não prescindem da sua presença nas próprias provas da seleção. Relembrámos a Jorge Fernandes que Catarina Costa foi orientada no banco, em Tóquio, pelo seu treinador João Neto. O presidente da FPJ mantém a sua linha de coerência em matéria de trabalho coletivo e de cooperação entre os envolvidos no Alto Rendimento e afirma “Nós não queremos separar a preparação dos atletas na seleção daquela que é realizada nos clubes. Ficamos satisfeitos quando os treinadores dos atletas acompanham os trabalhos da seleção e integram um espírito de equipa que existe. Foi o caso do João Neto em Tóquio. O Pedro Soares, na sua autonomia, não se importou de ceder o seu lugar no banco. Mas o João Neto não caiu de para-quedas. Desde o dia 23 de junho de 2020, dia no qual iniciámos os treinos concentrados em Coimbra, que ele acompanhou e partilhou a sua experiência no quadro dos treinos da seleção. E é isso que queremos que aconteça com todos os treinadores. São todos bem-vindos a processos de articulação deste tipo. Aliás já aconteceu em alguns estágios em Cernache que contaram com treinadores de clubes para grande satisfação nossa.”

Os clubes e a retoma de setembro

Demos eco ao Presidente da FPJ que a nível local vários clubes tiveram que encerrar a sua atividade nesta fase recente de agravamento da pandemia. A questão do aproveitamento dos resultados de Tóquio 2020 para apoiar as campanhas dos clubes para seduzirem novos praticantes e recuperarem outros que entretanto abandonaram teve a seguinte abordagem “Nós cumprimos o nosso papel que consistiu em colocar o judo numa boa posição em termos de notoriedade para que nas localidades as pessoas decidam praticar judo. Nunca o judo foi tão falado em Portugal. Recebemos felicitações do Conselho de Ministros, tivemos primeiras capas de jornais e a Federação Internacional de Judo deu-nos os parabéns pela forma como enfrentámos a pandemia e mantivemos a modalidade em funcionamento. Agora os clubes têm que fazer a sua parte e procurarem principalmente junto das autarquias apoios e colaboração. É possível mobilizar programas de apoio financeiro e definir planos de desenvolvimento com as Câmara Municipais que estão muito recetivas. Eu diria que agora é preciso tomar a iniciativa e não ficar à espera. Como no judo. Caímos, mas levantamo-nos rapidamente!” concluiu com otimismo.

Uma equipa de treinadores nacionais com um perfil adequado

No final deste balanço e projeção resumida do judo a curto, médio e longo prazo, Jorge Fernandes quis reforçar a importância que têm nos bons resultados obtidos quer o funcionamento eficaz quer o espírito de cooperação que presidem na Equipa Técnica e nos Treinadores Nacionais, Ana Hormigo, Pedro Soares, António Saraiva, Marco Morais e Jerónimo Ferreira. Salientou que não é fácil para todos eles estarem permanentemente a ser mobilizados para estágios em Coimbra e provas internacionais e que as vidas particulares de cada um deles ressente-se desta intensa atividade fora dos locais de residência. Mas o modelo de Treinador Nacional assente em técnicos que estão ligados aos clubes apresenta vantagens evidentes. A forma de agir de um treinador de clube, que nunca desliga dos seus atletas e que os acompanha em todas as fases de motivação e desalento é implementada na seleção com a mesma lógica.A intensidade de trabalho nos estágios e sessões de preparação só resulta porque há quem acompanhe a evolução de quem neles participa e se preocupa individualmente com cada atleta em particular.”

Fecha-se um ciclo e abre-se outro. O próximo desafio para Jorge Fernandes e a sua equipa é já em outubro com os Campeonatos do Mundo de Veteranos e de Katas que se realizam em Lisboa.

Responsáveis institucionais em Lisboa por ocasião do Campeonato da Europa de Seniores de Judo

Fotos © UEJ Rui Telmo Romão e Gabi Juan

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