21/05/2024

Uma experiência para esquecer

Jovens participantes no Campeonato da Europe de Cadetes – Odivelas 2023

Arnar

Arnar Arnarsson dirige a sua pequena empresa de gestão energética em Akureri no Norte da Islândia. As suas competências estão principalmente relacionadas com os equipamentos que conhece como ninguém. Tem agora 28 anos e trabalha, praticamente sem descanso, todos os dias da semana. A única atividade desportiva que mantém com regularidade são os banhos termais que realiza com a família, com destaque para aquelas que concretiza na Blue Lagoon onde as águas quentes chegam a atingir 38º num ambiente natural exterior à lagoa com temperaturas negativas.

Odivelas

Arnar recorda com um sorriso amargo a sua passagem por Odivelas em junho de 2023 quando tinha 16 anos “Sim recordo-me vagamente. Viajei durante 12 horas, tive que ir até Keflavik e depois apanhei um segundo avião para Paris. Dali voei para Lisboa. Tratava-se de participar no Campeonato da Europa de Cadetes. Eu tinha sido graduado há pouco tempo e estava entusiasmado. As pessoas em Portugal eram muito simpáticas com uma boa disposição e sempre disponíveis para apoiar, fosse no que fosse. Nesse plano foi óptimo e gostei muito de ter realizado essa viagem com a Federação Islandesa de Judo”.

Arnar Arnarsson realizou, no terceiro dia da competição, o combate que marcou a sua relação futura com o judo e com o desporto de forma mais geral. Na categoria de peso de -90 kg teve por adversário um sueco, Emil Jabiyev, que aos 8 segundos recorreu a um tai-otoshi à esquerda e projetou Arnar sem apelo nem agravo.

Frustração

“Foi tudo muito rápido. Nunca pensei que aquilo pudesse acontecer e na verdade naquela ocasião não realizei o que tinha ocorrido. O treinador era boa pessoa e rapidamente apoiou-me e adiantou aquele discurso todo que nós sabemos; que isto é apenas uma experiência, que é com as lições dos erros cometidos que se aprende e se vai mais longe, que para a próxima eu já iria prevenido, que no judo cai-se mil vezes e levantamo-nos mil vezes com mais força…enfim todo aquele arsenal de argumentação mais ou menos comportamentalista que omite o essencial: que aquela experiência está ligada à frustração e que a sua radicalidade pode afetar em profundidade a autoestima e autoconfiança da pessoas que a vive”.

Arnar manteve uma relação com o seu clube de judo durante um ano após o episódio de Odivelas. Rapidamente chegou à conclusão que o interesse dos clubes estavam em primeiro lugar em ter resultados desportivos.

Levar atletas jovens a provas internacionais, que são principalmente uma grande montra de publicidade e um grande show a pensar em contrapartidas financeiras, constituía segundo ele, uma meta que era concretizada a qualquer preço.

Iludem a frustração profunda, porque dá jeito

No meio desta dinâmica muitos atletas seguem o seu caminho e até poderão ainda estar ativos quando surgir o Europeu de juniores e até de seniores. Mas muitos outros terão desaparecido do mapa sem que se percebam as verdadeiras razões. As justificações habituais invocadas para camuflar as origens do abandono são aquelas que remetem para os estudos ou para necessidades sociais imperativas.

A sensação de impotência e de desânimo associada à frustração caminha lado a lado com a depressão e o seu impacto nos muito jovens é ainda maior por razões ligadas ao processo de crescimento. Muitos adultos e treinadores de desporto passam ao lado desta situações e são manipulados pelos jovens atletas que conseguem, com uma arte que lhes é própria, de simular o chamado “levantar da cabeça”.

Um modelo de provas diferente para o escalão

Na conversa registada com Urska Zolnir, Diretora Desportiva da União Europeia de Judo abordámos, de forma sumária, a questão do modelo organizativo e desportivo das provas europeias de cadetes. Admitimos que deveriam existir “poules” com a possibilidade de todos os participantes puderem realizar no mínimo 3 combates e o ambiente ter um cenário do tipo Youth Festival e não esta réplica quase desumana de competições cheias de PUBLICIDADE e de formatação quase militar. Esta linha de organização desportiva poderia ser deixada para juniores e seniores, mas poupar jovens de 14, 15 , 16 anos a uma encenação onde o DINHEIRO E O LUCRO estão presentes de forma abusiva. Aliás os pais deste jovens deveriam opor-se a esta encenação onde os filhos são utilizados para promover PUBLICIDADE o que aparenta, em última análise, ser ilegal.

Jovens numa prisão de interesses

Observámos com muita atenção – no caso recorrendo mais ao olhar da psicologia social que ao do jornalismo – durante largos períodos as vivências na sala de Warm Up do Campeonato Europeu em Odivelas. Verificámos que os mecanismos de suporte dos jovens atletas eram por um lado o telemóvel e a comunicação interativa com os seus próximos (amigos e familiares) e as redes sociais (com trocas regulares de mensagens). Por outro lado o grupo como coletivo de segurança e de apoio de forma bem distinta da prática dos adultos em circunstâncias similares. Ou seja a reprodução de contextos relacionais do quotidiano numa situação marcada pela encenação, pela não-normalidade, ou seja a estruturação de plataformas de refúgio de forma espontânea.

Olhar para os mais jovens de forma diferente

Esse é o desafio para que o desporto, e no caso o judo de competição, não se transforme numa máquina trituradora de esperanças e de personalidades daqueles que são absolutamente preciosos na nossa vida em comum: os jovens.

Nota JM : a história de Arnar surge no artigo em forma de ficção, exceção feita do combate referido que ocorreu no Europeu de Odivelas.

SOBRE O AUTOR | Editor

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